A Venezuela vive, hoje, uma de suas páginas mais dolorosas em mais de um século. Os terremotos que atingiram a região norte do país na última semana deixaram um rastro de destruição com prédio derrubados e comunidades devastadas, além de já contabilizar mais de 1.450 mortos, segundo o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez.

Uma tragédia humanitária de proporções imensuráveis, daquelas que deveriam despertar apenas compaixão, solidariedade e respeito às vítimas nos mais frios seres humanos parece, agora, se transformar em mais um argumento para quem passa seus dias espumando ódio na internet.

Aparentemente, nem a percepção de uma tragédia tão cruel como essa foi capaz de acender a sensatez de quem vive guiado pelo ódio da polarização política. Bastou que as notícias fossem publicadas para que as caixas de comentários das redes sociais fossem inundadas por manifestações que pouco, ou nada, tinham a ver com a dimensão humana do desastre.

Entre mensagens de apoio às famílias atingidas, surgiam frases como “isso é castigo contra o comunismo” e “já não basta o socialismo, agora mais essa tragédia”. Na descrição dos perfis dos donos desses comentários, invariavelmente alguma passagem bíblica.

A questão política da Venezuela perde absolutamente qualquer relevância diante de uma catástrofe natural que dizimou milhares de vidas. E quando uma pessoa comemora, relativiza ou transforma uma catástrofe como essa em punição divina contra adversários políticos, ela já não está defendendo princípios, mas alimentando um ódio que perdeu completamente o senso de proporção.

Há divergências que são legítimas e necessárias, isso é claro e notório. Mas nenhuma ideologia, de esquerda ou de direita, deveria ser grande o suficiente para impedir alguém de lamentar a morte de inocentes.