Sempre que vejo a imagem de um candidato à Presidência da República completamente ofuscado em seu próprio palanque, vejo uma confissão pública de fraqueza. A convenção nacional do PL que oficializou o senador Flávio Bolsonaro como nome do partido para as eleições de 2026 transformou-se em um ato de campanha do presidente argentino Javier Milei em solo brasileiro. 

Diante de um anfitrião fraco e sem discurso próprio, Milei ocupou o microfone por quase meia hora, chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário” e “ladrão”, classificou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, como “lixo careca” e gritou que “esquerdistas de merda” quebraram a Argentina. Flávio assistiu a tudo com uma aprovação de quem não tem intelecto capaz de ver que está entregando ao estrangeiro aquilo que deveria ser a sua vitrine: o respeito à nossa soberania.

Milei não desembarcou em São Paulo para fortalecer a oposição brasileira, ele atravessou a fronteira porque está encurralado em casa. Uma pesquisa divulgada em 16 de abril pelo instituto Opina Argentina revela que a desaprovação ao seu governo já atinge 63%. Dentro desse índice de rejeição, 58% dos entrevistados manifestaram uma percepção “muito negativa” da administração. A dureza das medidas econômicas, a precarização do trabalho, a alta no custo de vida e um escândalo de corrupção que ronda o núcleo do poder corroeram a popularidade do presidente argentino. Isolado, ele enxergou na mídia brasileira uma tábua de salvação, e encontrou em Flávio um bobo da corte pronto para ser usado.

O senador não dispõe de força política própria. Sem o apoio orgânico dos principais partidos do Centrão, sem base parlamentar sólida e sem nenhuma bandeira que ultrapasse o sobrenome do pai, Flávio escorou-se naquilo que sua campanha chama de “direita internacional”. Reuniu ali o argentino impopular, acenos ao americano Donald Trump, referências ao israelense Benjamin Netanyahu e, como símbolo máximo da dependência afetiva e política, um avatar de Jair Bolsonaro gerado por inteligência artificial. 

Nesse gesto, admitiu o óbvio: sua candidatura não se sustenta com ideias, mas com a importação desesperada de influências externas que, no fundo, perseguem os próprios holofotes.

Enquanto isso, Milei está abusando da fraqueza alheia. Durante a convenção, ele ignorou solenemente os protocolos diplomáticos, recusou-se a encontrar o presidente Lula e ainda lamentou, do palco, a proibição de visitar Jair Bolsonaro, a quem se referiu como “grande amigo” e para quem mandou um “abraço a distância”. Acusou o Brasil de liderar uma “campanha antiargentina” e reclamou da atuação do Judiciário brasileiro como se estivesse discursando em um comício portenho. 

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, resumiu o espanto da diplomacia brasileira ao afirmar: “É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial”.

Flávio Bolsonaro não se importa com a soberania do país que diz querer governar; importa-se com a própria sobrevivência política. Por isso, entrega de bandeja o nosso território eleitoral a uma extrema direita estrangeira que, de forma oportunista, testa no Brasil um projeto de neocolonização midiática. Milei não está sozinho nesse movimento, mas simboliza seu estágio mais caricato: rejeitado em casa, tenta governar a partir do noticiário alheio. 

E Flávio, minúsculo em seu próprio evento, ofereceu o palco porque não tem mais nada a oferecer. Quem deseja presidir uma nação precisa, antes de tudo, defendê-la. E o que vimos no sábado foi exatamente o contrário.