O eleitor vota por amor ou por medo?
04 outubro 2026 às 09h34

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A resposta parece simples. Votamos em quem acreditamos, em quem representa nossas ideias, nossa visão de país e aquilo que desejamos para o futuro. Mas a política raramente é tão simples. Em muitas eleições, o eleitor não entra na cabine apenas pensando em quem gostaria de eleger. Pensa também em quem não quer ver eleito de jeito nenhum. É nesse espaço entre a preferência e a rejeição que nasce o voto útil.
O eleitor pode não considerar determinado candidato o ideal. Pode até ter críticas a ele. Ainda assim, decide votar naquele nome porque acredita que é a alternativa capaz de impedir a vitória de outro. Não é exatamente um voto de paixão. É um voto de consequência.
E talvez seja aí que esteja uma das características mais interessantes da democracia: nem sempre escolhemos aquilo que mais amamos. Às vezes escolhemos aquilo que menos tememos.
Existe uma ideia confortável de que eleições são movidas principalmente pela esperança. O eleitor encontra um candidato, identifica-se com suas propostas e decide apoiá-lo. Mas a história política recente mostra que a rejeição pode ser tão poderosa quanto a identificação.
O medo de um governo, de uma agenda ou de determinado grupo político pode levar milhões de pessoas às urnas. O candidato deixa de ser apenas alguém que representa um projeto e passa a ser visto como uma barreira contra outro projeto.
É assim que o adversário se transforma em ameaça.
As redes sociais aprofundaram esse fenômeno. A política passou a ser cada vez mais organizada pela lógica do confronto. O eleitor não é convencido apenas pelo que um candidato promete fazer, mas também pelo que acredita que o adversário fará se chegar ao poder.
O resultado é uma política em que o “contra” muitas vezes se torna tão importante quanto o “a favor”.
Goiás diante desse dilema
A eleição de 2026 em Goiás oferece um exemplo dessa dinâmica.
Na disputa pelo Senado, setores da centro e esquerda passaram a defender o voto útil contra Gustavo Gayer, buscando evitar sua eleição. A estratégia não significa necessariamente uma identificação com os candidatos que podem ser beneficiados.
Como o campo ideológico da esquerda ainda não tem tantos adeptos no Estado, a mesma estratégia pode ser usada na disputa ao governo de Goiás. Muitos eleitores tradicional e historicamente pedistas declararam apoio a Daniel Vilela para o bolsonarismo não ganhe força. O estado de Goiás nunca foi governado pela esquerda em toda a sua história. .
Votar contra Gayer não significa, necessariamente, votar a favor de alguém. Significa fazer uma escolha considerando o resultado que se deseja evitar.
No Senado, onde Goiás elegerá dois nomes, esse cálculo ganha ainda mais importância. O eleitor pode combinar votos: escolher um candidato por convicção e outro por estratégia. Pode votar em dois nomes que admira ou em um nome que prefere e outro que considera capaz de impedir determinado resultado.
A urna transforma essas escolhas individuais em uma decisão coletiva.
E ninguém sabe exatamente qual cálculo cada eleitor fez antes de apertar o botão.
A democracia do voto possível
Talvez o grande equívoco seja imaginar que o eleitor sempre escolhe entre o candidato dos sonhos e os demais. Na prática, muitas eleições oferecem escolhas imperfeitas.
O eleitor olha para as pesquisas, observa a competitividade dos candidatos, calcula as possibilidades e decide se mantém sua preferência ou se muda o voto para tentar influenciar o resultado. É o encontro entre convicção e estratégia.
Por isso, o voto útil não deveria ser tratado simplesmente como um voto certo ou errado. Ele revela uma sociedade tentando lidar com alternativas concretas, e não com escolhas ideais.
O problema começa quando a rejeição ocupa todo o espaço da política.
Quando o eleitor passa a votar exclusivamente para impedir alguém, o debate sobre projetos perde importância. A eleição deixa de ser uma disputa sobre o futuro e se transforma em uma batalha para evitar o passado — ou o futuro — que cada lado teme.
E talvez essa seja uma das maiores consequências da polarização.
Afinal, o que move o eleitor?
No fundo, toda eleição guarda uma pergunta que nenhuma pesquisa consegue responder completamente: o que pesa mais: o desejo de eleger alguém ou o medo de que alguém seja eleito?
As duas coisas podem coexistir. Alguém pode votar por convicção. Outro, por rejeição. Um terceiro pode abandonar sua primeira escolha para evitar um resultado que considera pior.
Nenhum desses votos é menos democrático. Mas eles contam histórias diferentes.
Por isso, antes de perguntar em quem o eleitor vai votar, talvez seja mais interessante perguntar o que ele está tentando construir — e o que está tentando impedir.
Porque uma democracia amadurece quando o voto nasce da esperança de construir um futuro. Mas ela revela suas feridas quando milhões de pessoas chegam à urna movidas apenas pelo medo de que o outro vença.
No fim, talvez a pergunta mais importante de uma eleição não seja quem ganhou. É descobrir se os eleitores escolheram um futuro ou apenas fugiram de um medo.
