Economista, especialista em finanças e mestre em Ciências Econômicas, Cristian Orlando Ávila construiu sua trajetória acadêmica no Tocantins. Colombiano, ele chegou ao estado para se especializar ainda mais na Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde realizou doutorado e pós-doutorado na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapt). Ao longo dos anos, além da carreira na pesquisa, criou vínculos pessoais com o estado, onde formou família e se estabeleceu.

Em seus estudos mais recentes, Cristian analisou o sistema industrial dos 139 municípios tocantinenses e os impactos da pandemia da Covid-19 sobre a economia local. Na entrevista, ele fala sobre os desafios enfrentados durante a pandemia e as diferenças nos efeitos econômicos entre as cidades do estado.

Durante esse estudo, quais setores mais avançaram ou cresceram no Tocantins? O governo tem promovido o crescimento industrial do estado?

Primeiro, é importante esclarecer que, historicamente, desde a constituição do Estado do Tocantins, na década de 1990, até 2019, antes da pandemia, o crescimento econômico foi significativo. Todos os setores econômicos cresceram em praticamente todos os municípios do estado.

Durante a pandemia, houve um decréscimo muito forte. Infelizmente, ela deixou muitos casos, óbitos e pessoas com sequelas. Isso afetou diretamente a força de trabalho e várias atividades econômicas importantes fecharam.

Depois da pandemia, especialmente em 2023 e 2024, os dados já mostram recuperação. Mas aquela tendência de crescimento forte foi interrompida. A pandemia foi muito mais grave economicamente do que as pessoas imaginam.

Outro ponto importante é que a indústria do Tocantins está concentrada em cinco municípios: Araguaína, Gurupi, Paraíso do Tocantins, Porto Nacional e Palmas. Esses cinco municípios concentram entre 70% e 80% das atividades econômicas do estado.

Porto Nacional, por exemplo, possui uma especialização industrial muito importante, especialmente na indústria química. Isso é fundamental porque, por meio da parceria entre universidades e setor produtivo, surgem patentes, a indústria cresce e o emprego é gerado.

Não estou dizendo que as outras atividades não sejam importantes, mas sem indústria química existe um problema estrutural grave. Porto Nacional vem se destacando principalmente pela questão dos combustíveis renováveis. O mundo está avançando nessa direção.

Os combustíveis fósseis continuam importantes, mas a indústria renovável cresce rapidamente. Por isso, é essencial fortalecer a indústria química no Tocantins e criar parcerias sólidas com universidades.
Hoje, por exemplo, não temos engenharia química consolidada aqui.

A UFT e outras instituições avançam muito em inteligência artificial, o que é importante, mas também precisamos de indústria química. A química é transversal. Estamos falando de cosméticos, medicamentos, alimentos, transformação industrial de praticamente tudo o que utilizamos no cotidiano. E nós ainda não temos essa estrutura consolidada.

E a infraestrutura do estado acompanha esse crescimento industrial? Quais seriam os principais gargalos?



Quando analisamos oportunidades, ameaças, fortalezas e fraquezas dos municípios, percebemos um problema comum: o Tocantins precisa urgentemente melhorar sua infraestrutura logística. A conexão entre os 139 municípios faz diferença diretamente no custo de vida da população.

Hoje, há uma inflação forte porque muitos produtos chegam mais caros aqui do que em outros estados. Às vezes, um produto aparece hoje no mercado e desaparece amanhã. Então, as pessoas compram antes da necessidade porque sabem que depois talvez não encontrem mais. Isso gera aumento de custos.

O transporte ainda é um grande problema para o desenvolvimento econômico do Tocantins. Se pensamos em crescimento sustentável, precisamos urgentemente de desenvolvimento viário e ferroviário. Quando observamos países desenvolvidos, percebemos que o sistema ferroviário é fundamental. Aqui ainda temos uma dependência excessiva do transporte rodoviário.

Além disso, apenas 21 dos 139 municípios possuem plano de desenvolvimento estruturado. Isso significa que muitas prefeituras ainda não possuem uma estratégia clara sobre para onde querem crescer.

Também precisamos investir fortemente em agroindústria, agricultura de precisão, inteligência artificial aplicada ao campo e sustentabilidade. A irrigação inteligente, por exemplo, pode reduzir custos de água e aumentar a produtividade. Mas isso depende de pesquisa, inovação e parceria entre universidades, governo e setor produtivo. Hoje ainda existe muita distância entre empresários, governo e universidades.

E o crescimento econômico do Tocantins acontece de forma sustentável em relação ao meio ambiente?


Ainda não plenamente. A sustentabilidade depende diretamente de educação e transformação tecnológica.
O Tocantins é o estado mais jovem do Brasil, mas também é o que possui maior potencial de crescimento, ou de fracasso, se não fizer as escolhas corretas. Aqui, qualquer investimento pode ter um retorno muito maior do que em estados já consolidados, justamente porque ainda existe muito espaço para crescimento. Mas isso exige infraestrutura, educação e qualificação profissional.

O grande problema hoje é o capital humano. Os jovens muitas vezes precisam trabalhar em vez de estudar. Isso faz com que a formação profissional aconteça tarde. Em muitos casos, as pessoas levam 30 anos para concluir sua formação.
Nos países desenvolvidos existe continuidade educacional. Aqui ainda temos muitas rupturas. Outro problema é o êxodo populacional. Muitos municípios estão perdendo habitantes.

Se isso continuar, alguns municípios podem enfrentar esvaziamento populacional nas próximas décadas. Isso afeta cultura, economia e desenvolvimento social.

Você também fala muito sobre idiomas e qualificação profissional. Por quê?

Porque o desenvolvimento também depende de comunicação internacional. No Tocantins ainda existe uma barreira muito grande em relação ao espanhol e ao inglês. Quando você fala na língua materna de outra pessoa, a conexão comercial e cultural muda completamente. Hoje, praticamente toda a América Latina fala espanhol.

Então, por que não incentivar isso no Tocantins?

As crianças que aprendem mais de um idioma desde cedo desenvolvem habilidades cognitivas importantes.
Além disso, o comércio internacional exige isso.

A China, por exemplo, já incentiva o ensino de espanhol nas escolas. Eles entendem que precisam dialogar com o mundo.
O Tocantins precisa urgentemente de políticas públicas voltadas para idiomas, comércio internacional e cooperação acadêmica.

E como você vê o futuro econômico do Tocantins?


Vejo o Tocantins como uma grande oportunidade. Minha pesquisa durou três anos e trabalhou com cerca de 70 mil dados. Então, hoje existe base estatística, metodológica e científica para compreender os desafios do estado. Mas é necessário que os governos utilizem essas pesquisas nos planos de desenvolvimento.

Se o estado não avançar rapidamente, outros estados avançarão primeiro. Além disso, existem fatores externos que também influenciam o desenvolvimento. O Tocantins possui uma posição estratégica no centro do Brasil. Palmas poderia se tornar um grande centro logístico nacional.

Mas isso depende de planejamento, infraestrutura e integração regional. Hoje, apenas cinco municípios concentram o crescimento econômico do estado. Se tivéssemos dez ou quinze polos fortes, a realidade seria completamente diferente. Também é importante compreender a vocação de cada município. O governo precisa saber claramente em que cada município pode se especializar.

Você acredita que existe desinteresse político nesse processo?


Não necessariamente desinteresse. O problema também é estrutural. São muitos municípios, muita burocracia e uma comunicação difícil entre todas as esferas. Em vários países houve reorganização territorial justamente para reduzir custos administrativos e melhorar a gestão.

Aqui ainda é muito difícil articular os 139 municípios de forma integrada. Além disso, existe excesso de burocracia e descontinuidade administrativa. Muitas vezes, quando um projeto começa a avançar, entra um novo governo e tudo muda. O desenvolvimento exige continuidade.

Para finalizar, quais seriam os pontos mais urgentes para o Tocantins?


Primeiro: investimento em engenharia química e tecnologia industrial. A engenharia química é fundamental para praticamente todos os setores modernos. Segundo: fortalecimento do ensino de idiomas, especialmente inglês e espanhol. Terceiro: desenvolvimento ferroviário. Isso é indispensável para reduzir custos logísticos e aumentar competitividade. Quarto: agregar valor à produção agrícola.

O Tocantins não pode continuar apenas exportando matéria-prima. É preciso industrializar, transformar e agregar valor.
Quando você transforma um produto, automaticamente aumenta seu valor econômico.

Mas isso só acontece com pesquisa, inovação e educação. O potencial agrícola e industrial do Tocantins é enorme. O estado pode crescer muito. Mas precisa agir rápido.