Filho e neto de produtores rurais, Maurício Buffon deixou o Rio Grande do Sul ainda criança, acompanhou a mudança da família para Mato Grosso e, há 17 anos, escolheu o Tocantins para construir a própria trajetória. Em Porto Nacional, consolidou os negócios no campo, ajudou a fundar a Aprosoja Tocantins e, mais tarde, assumiu a presidência nacional da entidade que representa produtores de soja e milho em 16 estados brasileiros.

Licenciado da presidência da Aprosoja Brasil e suplente da senadora Dorinha Seabra, Buffon afirma que a experiência acumulada no setor o convenceu de que as principais decisões que afetam o agronegócio são tomadas na política. Agora, tenta transformar essa avaliação em projeto eleitoral e disputa espaço na corrida por uma vaga na Câmara dos Deputados.

Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, o produtor rural falou sobre a trajetória no estado, avaliou as políticas públicas voltadas ao agronegócio, criticou o modelo atual do Plano Safra e do programa Redd+, comentou a ausência de empresas na Agrotins e analisou o cenário político para as eleições de 2026. Também defendeu a candidatura da senadora Dorinha ao Palácio Araguaia e afirmou que o setor produtivo precisa ampliar sua representação no Congresso Nacional.

Quem é Maurício Buffon e como começou a sua trajetória no Tocantins?

Sou gaúcho, nascido no Rio Grande do Sul, em 1976. Minha família sempre foi produtora rural, vinda de pequenas propriedades de agricultura familiar. Em 1985, nós mudamos para Mato Grosso e construímos uma história ligada à produção de soja. Em 2009, eu migrei para o Tocantins e comecei a escrever a minha própria história.

Construí meus negócios, minha família, meus filhos nasceram aqui e escolhi viver neste estado porque acredito muito no Tocantins. É um lugar de muitas oportunidades e estamos nessa luta agora.

Em que momento o produtor rural decidiu entrar para a política?

A nossa aproximação com a política começou em 2013, quando fundamos a associação de produtores no Tocantins. Quanto mais você participa do associativismo, mais percebe que os grandes problemas das pessoas, especialmente daqueles que trabalham no campo, são definidos na política.

A vida de toda pessoa é definida pela política. Fomos entendendo que os principais desafios para facilitar a vida de quem trabalha passam pelas decisões tomadas nos parlamentos. Foi nesse momento que decidimos entrar.

A suplência da senadora Dorinha teve peso nessa decisão?

Eu recebi o convite para ser suplente da senadora Dorinha e aceitamos esse desafio junto com os nossos associados. A eleição foi vitoriosa e começamos a construir um caminho para ajudar ainda mais o setor produtivo.

Depois disso, assumi a presidência da Aprosoja Brasil e passei a frequentar mais Brasília. Quando você está dentro dos parlamentos, entende melhor como as decisões são tomadas e percebe que é preciso ter representantes que conheçam as dores de cada setor.

Isso me levou a tomar a decisão de ser pré-candidato a deputado federal. Acredito que tenho muito a contribuir não apenas com o setor produtivo, mas com todas as pessoas que dependem do próprio trabalho para viver.

Como o senhor avalia as políticas voltadas ao agronegócio no Tocantins e no Brasil?

Quando falamos em agricultura, estamos falando da produção de alimentos e da economia. O produtor rural facilita a vida do cidadão. Quanto maior a produção, menor tende a ser o preço dos alimentos no supermercado.

Mas, quando olhamos para a questão financeira, percebemos que as políticas públicas para o agro não estão funcionando como deveriam. Isso começa no governo federal e também passa por alguns pontos que poderiam ser melhorados no Tocantins.

Sempre mostramos aos governos que a agricultura precisa ser incentivada porque movimenta recursos importantes para o estado, mas nem sempre somos ouvidos. Esse foi um dos motivos que me levou a entrar na política.

Quais são os principais problemas enfrentados hoje pelo setor?

Toda vez que você deixa de incentivar ou de dar condições para o produtor trabalhar, a sociedade inteira paga essa conta com alimentos mais caros. O alimento precisa existir em abundância e com preço justo tanto para quem produz quanto para quem consome.

O mundo inteiro trata a agricultura como uma questão estratégica. Em vários países, ela é vista como parte da soberania alimentar. No Brasil, muitas vezes acontece o contrário: a atividade acaba sendo penalizada.

Quando você olha para as taxas de juros no exterior, elas ficam entre 2% e 3% ao ano. Aqui, chegam a 15% ou 20%. Hoje, produzir no Brasil se tornou muito difícil porque as políticas públicas não estão funcionando.

O senhor citou problemas específicos no Tocantins. O que precisa mudar?

Um exemplo é o FET, o imposto sobre o transporte. Ele encarece a produção e penaliza bastante o produtor.

A agricultura atravessa um momento complicado, com juros elevados e margens apertadas. Se você olhasse apenas para a situação comercial atual, muitos produtores parariam de produzir.

Mas o agricultor trabalha com investimentos de longo prazo. Ele financiou máquinas, secadores, equipamentos e precisa continuar produzindo para honrar esses compromissos. Muitas vezes, é obrigado a reduzir custos e rever investimentos para atravessar esse período.

Por isso, a política precisa atuar com mais firmeza para equilibrar novamente a produção no Brasil.

Na sua avaliação, a bancada federal do Tocantins tem deixado de atuar mais diretamente em defesa do agronegócio?

Olha, a bancada federal do Tocantins até vota as matérias do agro da forma como muitas vezes precisam ser votadas, mas a grande verdade é que nós não temos hoje um parlamentar que pegue um projeto do agro e saia colhendo as 171 assinaturas necessárias para fazê-lo andar, que trabalhe essas pautas nas comissões e acompanhe a tramitação.

Esse é o nosso ponto de vista. O setor produtivo hoje está parcialmente representado. Basta olhar as votações e quem apresenta os projetos. Muitas vezes os parlamentares votam favoravelmente, mas não assumem a condução dessas propostas porque cada um acaba priorizando suas próprias bases políticas.

Se Deus quiser e esse mandato vier, teremos o compromisso de pegar projetos bem elaborados e fazer com que eles avancem. Essa é a diferença quando você tem alguém que conhece a realidade do setor. Assim acontece com médicos e outras categorias profissionais. Hoje, infelizmente, não temos um agricultor, alguém que nasceu e vive da agricultura, nos representando.

Recentemente, o senhor defendeu um Plano Safra mais acessível e inclusivo. O que isso significa, na prática?

Primeiro, nós precisamos enfrentar o problema do endividamento. A agricultura brasileira chegou a um nível de dívida muito acima da realidade. Isso começou na pandemia, quando os produtos agrícolas tiveram uma valorização expressiva e toda a cadeia produtiva aumentou os custos.

Só que, de lá para cá, os preços da soja, do milho, da pecuária e de outros produtos caíram, enquanto os custos de produção permaneceram elevados. Hoje, o produtor enfrenta juros altos e um nível de endividamento que dificulta o acesso ao crédito.

Precisamos de um Plano Safra capaz de tratar essa situação da forma necessária e, ao mesmo tempo, desburocratizar as linhas de financiamento.

O senhor costuma dizer que o crédito rural enfrenta barreiras que não existem em outros países. Quais são elas?

Nós temos muitas amarras ambientais travando o crédito agrícola, algo que praticamente nenhum outro país faz. O Brasil possui um Código Florestal muito bem definido. As propriedades são licenciadas e existe uma legislação clara sobre o que pode e o que não pode ser feito.

Mesmo assim, alguns decretos e exigências adicionais, vindos de órgãos ambientais e ministérios, acabam impondo obstáculos que vão além do que já está previsto na legislação.

Isso acabou travando o Plano Safra. O plano de 2025 e 2026, por exemplo, ainda possui recursos disponíveis, mas muitos produtores não conseguem acessar esse dinheiro.

Na sua visão, quais pontos ficaram de fora do novo Plano Safra?

O novo plano não tratou do endividamento e também não enfrentou a questão do seguro agrícola, que é fundamental.

Nós travamos uma batalha muito grande em torno do seguro porque ele daria segurança ao produtor e também ao próprio poder público. Com um seguro bem estruturado, o governo não precisaria intervir toda vez que houvesse um problema climático ou financeiro.

Hoje, quando existe uma quebra de safra ou uma crise provocada pelos juros, toda a cadeia sofre. O seguro rural serviria justamente para reduzir esse impacto.

Por que o seguro rural se tornou uma prioridade para o setor?

Porque ele protege quem produz e evita que o agricultor perca patrimônio ou seja obrigado a abandonar a atividade. Quando um produtor deixa o campo, toda a sociedade perde.

Esse é um problema crônico que precisa ser enfrentado com seriedade. Afinal, estamos falando de pessoas que produzem alimentos para o país.

Além disso, quando voltamos ao tema dos juros, vemos novamente a distância entre o Brasil e o restante do mundo. Em praticamente todos os países que financiam a agricultura, as taxas ficam entre 2% e 3% ao ano. No Brasil, nós estamos muito longe dessa realidade.

Muitos produtores têm demonstrado preocupação com o Redd+ e o mercado de crédito de carbono. Como o senhor avalia esse programa?

Hoje, o Redd+ é um programa que o governo do Tocantins busca implantar. Na nossa avaliação, da forma como está sendo conduzido, ele não atende ao estado e pode acabar travando o desenvolvimento.

A última informação que acompanhei mostrava que o Tocantins havia recebido cerca de 20 milhões de reais em adiantamento desse programa. Quando você olha para um estado que tem um PIB entre 70 e 80 bilhões de reais, sendo que 67% disso vêm da agricultura, é preciso discutir qual é o impacto real desse recurso diante das limitações que podem surgir.

Nós somos contrários ao modelo que está sendo apresentado hoje.

Por que o senhor entende que o programa pode trazer consequências negativas?

Porque ele não afeta apenas a agricultura. Isso alcança a mineração, a pecuária e até as cidades.

Nós temos problemas estruturais importantes, como lixões a céu aberto, e tudo isso acaba entrando nessa discussão. Antes de implantar um programa dessa magnitude, o governo precisa fazer o dever de casa.

Nós já temos um Código Florestal muito bem definido, que permite conciliar produção e sustentabilidade ambiental sem criar novas amarras ou deixar o estado dependente desse tipo de mecanismo.

A população quer renovação

O senhor tem percorrido o estado durante a pré-campanha. O que tem ouvido dos eleitores?

De fato, a pré-campanha está em ritmo acelerado e os candidatos que pretendem conquistar um mandato estão trabalhando intensamente.

O que temos ouvido da população são muitas reclamações sobre serviços que ainda não chegaram aos municípios. Ao mesmo tempo, existe um desejo por renovação.

As pessoas escutam, eleição após eleição, as mesmas promessas feitas por candidatos que estão há 15 ou 20 anos na política. O desafio é mostrar que existe uma proposta diferente, baseada em valores, em propósito e em resultados concretos para melhorar a vida das pessoas.

A disputa por uma vaga na Câmara ficou mais difícil?

Sem dúvida. Hoje, a campanha é muito cara. É difícil concorrer com candidatos que possuem grande poder econômico.

O que estamos fazendo é apresentar uma proposta baseada na nossa realidade e construir uma conversa mais próxima das pessoas, principalmente em regiões onde antes não tínhamos acesso. Queremos mostrar que é possível fazer algo diferente.”

Dorinha cumpriu os compromissos com o agro

Hoje, os nomes mais consolidados na disputa pelo governo são os da senadora Dorinha Seabra e do deputado federal Vicentinho Júnior. Como o senhor avalia essas candidaturas?

Temos também uma terceira candidatura, a do Laurez, mas é verdade que as pesquisas apontam a senadora Dorinha e o deputado Vicentinho como os nomes que lideram esse cenário.

Eu acredito que a senadora tem compromisso com o agronegócio. Nós conversamos bastante sobre as pautas do setor e, durante o período em que estivemos juntos na suplência, ela cumpriu os compromissos assumidos.

Isso é importante deixar claro. Eu acompanhei isso de perto e acredito que ela está preparada e sabe o que precisa ser feito no Tocantins.

Quais são os principais desafios para quem assumir o governo do estado?

O Tocantins é um estado grande, com muito a ser feito, principalmente na área de infraestrutura.

Hoje, temos sete, oito ou até nove pontos interditados, com grande impacto para a economia. Precisamos de pessoas com força política e compromisso para resolver esses problemas.

A senadora está preparada para isso. Nós estamos no PL, que compõe a chapa majoritária dela, e acreditamos muito nesse projeto.

O nome do PL para a Presidência é Flávio Bolsonaro

Recentemente, o senhor apareceu ao lado de Flávio Bolsonaro, apontado pelo PL como pré-candidato à Presidência. O partido manterá essa candidatura?

Eu acredito que sim. O nome escolhido pelo PL é o de Flávio Bolsonaro.

Esses desgastes internos que surgiram recentemente serão resolvidos. O Flávio tem demonstrado preparo, tem buscado conversar com diferentes setores da sociedade e acredito muito na candidatura dele.

O que sustenta essa avaliação?

Ele já possui uma longa trajetória no Legislativo, conhece os problemas do país e acompanhou de perto a gestão do pai quando Jair Bolsonaro foi presidente.

Flávio conhece o Brasil como poucas pessoas conhecem. Além disso, representa as bases com as quais nos identificamos: o setor produtivo, quem gera emprego, quem produz riqueza e quem trabalha.

Também existe uma identificação com pautas ligadas à família e a outros valores que consideramos importantes. Por isso, acreditamos muito nessa candidatura.

Algumas empresas deixaram de participar da Agrotins neste ano e também reduziram presença em outras feiras. O que explica esse movimento?

Eu acho que a Agrotins vive um momento de reflexão. A feira cresceu muito ao longo dessas 26 edições, cumpriu um papel importante para o Tocantins, mas chegou a hora de dar um novo passo.

Hoje, precisamos pensar a Agrotins de uma forma mais preparada para o estado. Ela precisa entrar em uma nova fase, como aconteceu com outras grandes feiras do agronegócio no Brasil.

O que levou parte das empresas a não participar do evento?

Há uma série de fatores, mas o principal deles é a questão financeira. O agronegócio atravessa um momento difícil, e participar de uma feira desse porte exige investimentos elevados.

Toda empresa precisa de retorno. Não existe almoço grátis. Se alguém está oferecendo alguma coisa, alguém está pagando a conta. As empresas trabalham com resultado, e isso precisa ser levado em consideração.

Além da questão econômica, existe outro motivo para esse distanciamento?

Existe também um desgaste provocado pela forma como a feira acabou ficando muito ligada ao governo. Na minha avaliação, a Agrotins precisa evoluir para um modelo de parceria público-privada, como acontece nas principais feiras do país.

Quando olhamos para a Agrishow, em Ribeirão Preto, para a Bahia Farm Show ou para a feira da Coopavel, no Paraná, vemos que a iniciativa privada participa da organização em igualdade de condições com o poder público.

No Tocantins, nós precisamos construir exatamente isso.

Como funcionaria esse novo modelo?

Se as empresas participassem da organização da feira, seria muito difícil que deixassem de comparecer. Afinal, elas fariam parte da construção do evento e teriam interesse direto no seu fortalecimento.

Se esse modelo tivesse sido implantado há três ou quatro anos, por exemplo, talvez a situação fosse diferente. Quem ajuda a organizar e investir em uma feira não abandona o próprio negócio; ao contrário, procura aperfeiçoá-lo.

O que falta para a Agrotins alcançar um novo patamar?

Além de uma participação maior da iniciativa privada, a feira precisa de mais infraestrutura para continuar crescendo.

A Agrotins já é uma referência no Norte do Brasil, mas chegou a hora de dar um salto. Ela precisa ganhar vida própria, deixar de depender exclusivamente do orçamento do governo e contar com a participação do setor privado tanto nos momentos bons quanto nos períodos mais difíceis.

É necessário chamar todos à responsabilidade e construir uma feira ainda maior do que ela já é.

O dinheiro público precisa ser valorizado

Para encerrar: que mensagem o senhor gostaria de deixar ao eleitor?

Eu peço que as pessoas acompanhem o trabalho que realizamos ao longo desses 13 ou 14 anos no associativismo, observem as propostas que vamos apresentar e avaliem aquilo que defendemos para o futuro.

O papel do Legislativo não é apenas destinar emendas. Também é fiscalizar e garantir que os recursos públicos sejam aplicados corretamente.

Qual será o principal compromisso caso chegue à Câmara dos Deputados?

Acima de tudo, valorizar o dinheiro público. Hoje, vemos recursos sendo destinados para diferentes áreas, mas é preciso verificar se eles estão chegando aonde realmente deveriam chegar.

Esse será um compromisso do nosso mandato: não permitir desperdícios. O dinheiro público não pertence ao governo; ele pertence ao cidadão, que paga impostos e financia toda a estrutura do Estado.

Cada pessoa que vai ao supermercado, que trabalha e contribui com tributos participa desse esforço coletivo. Por isso, é fundamental que esses recursos sejam tratados com responsabilidade.

O senhor costuma dizer que Brasília o impressiona. Por quê?

Tenho ido com frequência a Brasília e, sinceramente, às vezes me assusto com o tamanho da estrutura que é sustentada pela população.

Se ela fosse grande e funcionasse plenamente, tudo bem. Mas hoje nós temos uma máquina enorme e serviços de saúde e educação que ainda estão muito distantes do que a sociedade precisa.

Nosso compromisso é trabalhar para melhorar esses serviços, fiscalizar a aplicação dos recursos e dedicar o mandato a esse objetivo.

Quero pedir às pessoas que observem, na hora de votar, quem realmente tem compromisso com o estado e condições de entregar um serviço público de qualidade.