“O Tocantins está abandonando uma condição histórica de vulnerabilidade”, diz economista sobre avanço do IDHM
08 junho 2026 às 15h48

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O Tocantins alcançou, em 2024, o maior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de sua história. O indicador passou de 0,731, em 2021, para 0,797, em 2024, um crescimento de 0,066 pontos em apenas três anos. O avanço foi significativamente superior ao registrado entre 2012 e 2021, quando o estado elevou o índice em apenas 0,010 ponto. Com o resultado, o Tocantins assumiu a liderança do ranking de desenvolvimento humano entre os estados das regiões Norte e Nordeste e se aproximou da faixa considerada de muito alto desenvolvimento humano.
Para o economista e doutor em Planejamento Urbano e Regional Autenir Carvalho de Rezende e diretor do Núcleo Aplicado de Estudos e Pesquisas Econômico-Sociais (Naepe), o resultado reflete uma evolução consistente nas condições de vida da população. Segundo ele, o desempenho está ligado principalmente à melhora dos indicadores de educação, ao aumento da longevidade e à recuperação da renda, em um contexto de retomada econômica após a pandemia da Covid-19. O especialista também destaca a influência de políticas públicas federais, como os programas de transferência de renda, e o fortalecimento de setores econômicos como serviços, turismo e agronegócio.
Apesar dos números positivos, Autenir pondera que o IDHM representa uma média e não retrata integralmente as diferenças existentes dentro do estado. Na avaliação dele, ainda persistem desafios relacionados à desigualdade territorial, à geração de emprego e renda nos municípios menores e à qualidade dos serviços públicos. Para manter a trajetória de crescimento e alcançar de forma consistente a faixa de muito alto desenvolvimento humano, o economista defende investimentos permanentes em educação, saúde, infraestrutura e inclusão produtiva.
Mas o que esse resultado revela sobre a evolução econômica e social do estado nos últimos anos?
Esse resultado revela uma trajetória consistente de amadurecimento econômico e social do Tocantins. O IDHM não mede exatamente o crescimento econômico; ele foca em outros fatores como renda, educação e longevidade. Portanto, quando o estado alcança o maior índice de sua história, isso indica que houve avanços simultâneos em condições de vida, acesso ao conhecimento, saúde e capacidade de geração de renda.
Também é importante destacar que esse resultado precisa ser lido dentro de um contexto nacional favorável no pós-pandemia. O Brasil viveu, nos últimos anos, um processo de recuperação do mercado de trabalho, queda expressiva do desemprego, crescimento da renda e fortalecimento de políticas públicas federais, especialmente as políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Em estados das regiões Norte e Nordeste, essas políticas têm peso ainda mais relevante, porque ajudam a proteger famílias vulneráveis, sustentam o consumo local e reduzem situações extremas de pobreza.
No caso do Tocantins, o resultado mostra que o estado está abandonando uma condição histórica de vulnerabilidade, típica de uma unidade federativa jovem, e passou a apresentar indicadores mais próximos à média nacional. O dado é positivo, mas deve ser lido com cautela: ele mostra avanço médio, não significa que todos os municípios e grupos sociais tenham avançado no mesmo ritmo.
Como explicar o rápido crescimento do IDHM do Tocantins de 0,731 em 2021 para 0,797 em 2024?
O crescimento do IDHM do Tocantins pode ser explicado pela combinação de três movimentos. O primeiro é a melhora educacional, que foi o componente que mais avançou no período. O segundo é a evolução da longevidade, associada à ampliação do acesso a serviços de saúde, melhores condições sanitárias e melhoria geral das condições de vida. O terceiro é a recuperação e mpliação da renda, ainda que essa dimensão seja mais sensível às crises econômicas, à informalidade e à desigualdade.
É importante observar que há uma intensificação deste avanço no período póspandemia. Entre 2012 e 2021, por exemplo, o crescimento foi mais lento; já entre 2021 e 2024, houve aceleração significativa. Isso coincide com a retomada da renda, a melhora do mercado de trabalho, o fortalecimento das transferências sociais e a recomposição de políticas públicas nacionais.
Além disso, o estado se beneficiou de fatores estruturais: consolidação regional de Palmas como centro administrativo, econômico e de serviços; crescimento de cidades médias como Araguaína, Gurupi e Porto Nacional; expansão do turismo e do agronegócio; fortalecimento do setor de serviços; investimentos públicos; maior integração logística; e ampliação da rede de saúde – com Palmas se consolidando como polo regional de atendimento, inclusive em serviços de maior complexidade. Esses elementos criaram uma base econômica, urbana e social mais dinâmica, capaz de repercutir nos indicadores de desenvolvimento humano.
A educação foi o indicador que mais avançou no período. Como essa melhora pode repercutir sobre a economia e a qualidade de vida da população?
A melhora da educação tem impacto direto sobre a economia porque aumenta a capacidade produtiva da população. Pessoas com maior escolaridade tendem a ter mais oportunidades de trabalho, maior renda, maior capacidade de adaptação tecnológica e melhores condições de empreender. Para um estado jovem como o Tocantins, esse avanço é especialmente importante porque ajuda a formar capital humano local e reduz a dependência de mão de obra qualificada vinda de fora.
Do ponto de vista social, a educação também melhora a qualidade de vida de forma ampla. Ela influencia saúde, participação social, planejamento familiar, acesso à informação, cidadania e mobilidade social. Em outras palavras, quando a educação avança, ela não melhora apenas um indicador; ela cria condições para que a população viva mais, ganhe melhor e participe mais ativamente da vida econômica e social.
Também é preciso lembrar que a educação potencializa os efeitos das demais políticas públicas. Uma população mais escolarizada aproveita melhor as oportunidades abertas pelo crescimento econômico, pelos programas de qualificação, pela expansão do setor de serviços, pela digitalização e pelos investimentos em saúde e infraestrutura. Por isso, a educação deve ser vista como uma política social e, ao mesmo tempo, como uma política econômica estratégica.
Na cotidiano dos tocantinenses, o que esse aumento do IDHM significa?
O aumento do IDHM indica, sim, que houve melhora média nas condições de vida da população. Seria equivocado desconsiderar esse avanço. O Tocantins melhorou em educação, longevidade e renda, e isso reflete ganhos concretos na vida social. Mas o IDHM é uma média. Ele não mostra, sozinho, as desigualdades entre municípios, entre áreas urbanas e rurais, entre bairros de uma mesma cidade, nem entre grupos sociais. Uma família de Palmas pode viver uma realidade muito diferente de uma família em um município pequeno, distante dos principais eixos econômicos. Portanto, o IDHM mostra que o estado avançou, mas não elimina a necessidade de olhar para pobreza, informalidade, qualidade dos serviços públicos, saneamento, segurança alimentar, acesso à saúde especializada e desigualdades territoriais.
Além disso, parte importante da melhora recente está associada ao contexto de recuperação pós-pandemia e à ampliação da renda, inclusive por meio de políticas federais de transferência. Isso é positivo e necessário, mas também mostra que o desenvolvimento humano precisa ser sustentado por bases permanentes: emprego formal, produtividade, educação de qualidade, saúde regionalizada, infraestrutura urbana e capacidade de geração de renda nos municípios.
Palmas, a mais jovem das capitais brasileiras, tem apresentado crescimento populacional acima da média nacional, esse crescimento contribui de alguma forma para o desenvolvimento da cidade e do estado?
Sim, o crescimento populacional de Palmas contribui para o desenvolvimento humano quando ele vem acompanhado de planejamento urbano, oferta de serviços públicos e dinamismo econômico. A chegada de novos moradores amplia o mercado consumidor, estimula o comércio, aumenta a demanda por serviços, fortalece o setor imobiliário, cria oportunidades de trabalho e amplia a arrecadação pública.
Palmas também se consolidou como um polo regional de serviços, especialmente nas áreas de administração pública, comércio, educação superior e saúde. A expansão e modernização da rede de saúde, com destaque para serviços hospitalares e de maior complexidade, reforçou o papel da capital como referência para moradores de diferentes regiões do Tocantins e até para estados circunvizinhos. Isso impacta diretamente a longevidade e a qualidade de vida, porque o acesso a serviços de saúde é uma das bases
do desenvolvimento humano.
Mas o crescimento populacional também traz pressões. Palmas precisa expandir e democratizar infraestrutura, transporte, habitação, saúde, educação, saneamento e emprego na mesma velocidade em que cresce. Quando a cidade consegue transformar crescimento populacional em oportunidades, ela eleva o desenvolvimento humano. Quando não consegue, surgem problemas como periferização, desigualdade urbana, déficit habitacional e pressão sobre os serviços públicos. Portanto, a migração é uma oportunidade, mas exige planejamento.
Quais fatores colocam o Tocantins na liderança do ranking de IDHM entre todos os estados das regiões Norte e Nordeste?
O Tocantins tem algumas características que ajudam a explicar parte deste desempenho. É um estado jovem, com uma capital planejada, uma população relativamente pequena e uma rede urbana conectada a polos regionais pelo chamado Eixo Norte-Sul (conjunto logístico formado por BR-153, BR-010, Ferrovia Norte Sul e rios Araguaia e Tocantins). Isso facilita a organização de serviços públicos e a difusão de investimentos quando comparado a estados com populações maiores, territórios mais complexos e isolados ou maiores bolsões históricos de pobreza.
Estes fatores estruturais combinados às políticas públicas resultaram em melhora da renda, acesso a serviços e melhora de indicadores sociais. Ainda assim, liderança regional não significa ausência de problemas. Significa que, comparativamente, o
Tocantins conseguiu avançar mais ou manter indicadores melhores que os demais estados dessas regiões.
Quais os principais obstáculos que podem impedir o Tocantins de seguir melhorando seu desenvolvimento humano?
O Tocantins está muito próximo da faixa de muito alto desenvolvimento humano, mas alguns obstáculos ainda precisam ser enfrentados. O primeiro é a renda. Entre as três dimensões do IDHM, a renda tende a ser a mais instável, porque depende do inamismo econômico, de sazonalidades, da formalização do trabalho, da produtividade e da redução das desigualdades.
O segundo obstáculo é a desigualdade territorial. O desenvolvimento ainda é muito concentrado em Palmas e nos principais polos regionais. Muitos municípios pequenos enfrentam baixa capacidade fiscal, menor oferta de empregos qualificados e maior dependência de transferências públicas. As políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, são fundamentais para proteger a população mais vulnerável e movimentar as economias locais, mas precisam caminhar junto com políticas de
inclusão produtiva, qualificação profissional e geração local de trabalho.
O terceiro desafio é melhorar a qualidade dos serviços, não apenas o acesso. Na educação, por exemplo, não basta ampliar matrícula; é preciso melhorar aprendizagem, permanência escolar, ensino médio, educação profissional e conexão com o mercado de trabalho. Na saúde, é preciso continuar fortalecendo a regionalização, reduzir filas, ampliar atendimento especializado e evitar que o acesso aos serviços de maior complexidade fique excessivamente concentrado na capital.
Também entram nessa agenda saneamento, saúde especializada, infraestrutura urbana, conectividade digital, segurança alimentar e diversificação produtiva. São esses fatores que podem transformar avanço estatístico em desenvolvimento inclusivo e sustentável.
Neste sentido, quais áreas devem receber mais atenção e investimentos para que o estado continue avançando nos próximos anos?
A prioridade deve ser investir em educação de qualidade, especialmente na primeira infância, no ensino fundamental, no ensino médio e na qualificação para o mercado de trabalho. A educação foi o motor do avanço recente e precisa continuar sendo tratada
como política econômica, não apenas social.
A segunda prioridade é geração de renda com inclusão produtiva. O Tocantins precisa fortalecer cadeias produtivas locais, apoiar pequenos negócios, ampliar a formalização, estimular inovação, a bioeconomia, qualificação profissional e interiorização das
oportunidades. O desenvolvimento precisa chegar aos municípios menores e à população mais vulnerável. Nesse ponto, é fundamental combinar políticas federais de transferência de renda, que protegem as famílias e sustentam o consumo, com
estratégias estaduais e municipais de geração de emprego, qualificação e desenvolvimento local.
A terceira frente é infraestrutura social e urbana: saúde regionalizada, saneamento, habitação, mobilidade, conectividade e planejamento das cidades. Palmas precisa rever sua política urbana, seu padrão de uso do solo, e deve continuar sendo fortalecida como polo regional da saúde, mas o estado também precisa ampliar a capacidade de atendimento no interior, para reduzir desigualdades territoriais.
Por fim, é fundamental produzir e usar dados de forma mais inteligente. O estado precisa investir em inteligência territorial e monitorar seus indicadores socioeconômicos. O próximo salto do Tocantins dependerá menos de crescer na média e mais de reduzir desigualdades internas. Para alcançar a faixa de muito alto desenvolvimento humano de forma consistente, o Tocantins precisará sustentar o avanço pós-pandemia com políticas permanentes de educação, renda, saúde, infraestrutura e inclusão produtiva
