Durante o mês de setembro, a campanha Setembro Amarelo chama a atenção para a importância dos cuidados com a saúde mental e da prevenção do suicídio. A iniciativa busca ampliar o debate sobre sofrimento emocional, incentivar a busca por ajuda e reforçar a importância de uma rede de apoio atenta aos sinais de alerta.

Mais do que concentrar a discussão em um único período do ano, a campanha destaca a necessidade de falar sobre saúde mental de forma contínua, especialmente diante de mudanças de comportamento, isolamento, alterações de humor e outros sinais que podem indicar que uma pessoa precisa de acolhimento e acompanhamento profissional.

Na entrevista da semana do Jornal Opção Tocantins, a psicóloga Raimara Lourenço aborda a importância da saúde mental e da prevenção ao suicídio no contexto do Setembro Amarelo, campanha que busca ampliar o diálogo sobre o sofrimento emocional, identificar sinais de alerta e incentivar a busca por ajuda. Graduada em Jornalismo e em Psicologia pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-graduada em Análise do Comportamento Aplicada, Raimara atua nas áreas clínicas de desenvolvimento pessoal, psicologia jurídica e educação, além de desenvolver pesquisas sobre infâncias, adolescências, políticas públicas e Direitos Humanos.

Qual é a importância de falar sobre saúde mental durante todo o ano, e não apenas no Setembro Amarelo?

Estimular o cuidado da saúde mental durante todo o ano é importante porque o risco de suicídio é epidemiológico, e tem ocorrências em qualquer época do ano. Ainda é necessário tornar uma pauta em evidência até que se diminua os episódios.

Quais sinais podem indicar que uma pessoa está enfrentando um sofrimento emocional que precisa de atenção?

Não há um padrão específico que identifique quem esteja em sofrimento psíquico. Porém, há alguns sinais típicos e comuns que podem sinalizar o risco à vida por adoecimento psicológico, como por exemplo: Falta de apetite, indisposição recorrente, ausência de projeto de vida, insônia ou sonolência exagerada, falas com teor negativo.

Como diferenciar uma tristeza ou fase difícil de um quadro que exige acompanhamento psicológico?

Ficar triste é natural e faz parte do processo de regulação das emoções. No entanto se a tristeza for persistente, a ponto de afetar a pessoa e impedi-la de realizar tarefas básicas, pode sinalizar a existência de algum transtorno mental de sintomas depressivos, o que exige acompanhamento psicológico especializado.

De que forma familiares e amigos podem perceber mudanças no comportamento de alguém que está passando por sofrimento emocional?

Quando houver mudanças bruscas no humor, como isolamento, silêncios, choros involuntários, se a pessoa nega tomar medicação recomendada, as vezes até comportamentos de fúria injustificada são típicos de quem está em risco de suicidar-se.

Como abordar uma pessoa que demonstra sinais de sofrimento sem fazer julgamentos ou aumentar a pressão sobre ela?

O acolhimento é e sempre será a principal estratégia de fortalecimento nos recursos psicológicos de alguém, até porque quando a dor de alguém é compreendida em sua complexidade, sem estigmas reducionistas, a chance de promover a melhoria no quadro de saúde mental da pessoa é bem maior, frases como “isso é falta de Deus” ou “Você tem a mente fraca” precisam ser evitadas.

Quais são os principais fatores que podem afetar a saúde mental atualmente, especialmente entre jovens e adolescentes?

Vários fatores interferem para risco de adoecimento mental. Porém em pessoas mais jovens ficam mais vulneráveis a isso quando fazem uso abusivo de substâncias químicas, quando enfrentam a fragilidade no núcleo familiar, bem como estão implicados em situações socioeconômicas, tal como extrema pobreza e contextos violentos.

Qual é o impacto das redes sociais na saúde mental dos adolescentes?

O uso das redes sociais em si não é um problema absoluto, pois possibilita conexões culturais, interação social e aquisição de informações diversas.

Porém, o uso excessivo ou experiências negativas online podem contribuir para o surgimento de alguns problemas que os pais ou responsáveis precisam ficar atentos, tais como de ansiedade, tristeza, comparação social, distorção de autoimagem,baixa autoestima, alterações do sono, isolamento e dificuldade de concentração.

Por que ainda existe dificuldade em procurar ajuda psicológica?

Falas estigmatizantes, tais como “psicólogo é coisa de doido”, além da negação cultural aos problemas mentais desencadeiam medo de julgamento e vergonha na busca por acompanhamento profissional, mas há outras questões que afetam tais como dificuldade financeira, falta de informação sobre onde buscar atendimento e experiências anteriores negativas.

Em uma crise emocional, o que fazer e o que evitar?

Permanecer por perto com escuta ativa, demonstrar disponibilidade em ajudar principalmente pra procurar ajuda profissional para tratamento quando for o caso.

Qual é a importância do acompanhamento profissional?

A situações que podem se resolver apenas com uma boa rede de apoio. Porém, acompanhamento com psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de saúde qualificado permite compreender melhor o que está acontecendo, identificar fatores que contribuem para o sofrimento e construir tratamento adequado.

Como trabalho, sobrecarga e estresse afetam a saúde mental?

Quando há demandas excessivas e inatingíveis, pode causar o aumento no nível de estresse o problema aparece quando as demandas se tornam constantes e os períodos de pausas são insuficientes. A ausência de reconhecimento profissional, a falta de autonomia, além de problemas externos ao trabalho podem causar adoecimento neste contexto também.

Que mensagem deixaria para uma pessoa que está por um momento de sofrimento emocional e não sabe como pedir ajuda?

A melhor forma de ajudar uma pessoa que está em adoecimento mental grave, onde essa pessoa não consegue de fato pedir ajuda, é oferecê-la suporte de forma que ela compreenda que merece cuidar da sua vida bem como merece viver novos sonhos novos projetos, desde que ela entenda que está tudo bem, caso precise de pausas com vistas ao tempo necessário para sua recuperação.

Então, eu diria que a vida desta pessoa é o principal motivo para estarmos juntos falando sobre o amor que ela precisa sentir no presente, para viver o futuro.