Com a aproximação do período de estiagem e a possibilidade de influência do El Niño sobre o clima no Brasil, o Tocantins intensifica as ações de prevenção e combate às queimadas florestais. O estado, que registrou um dos cenários mais críticos de incêndios em 2024, já iniciou o reforço no monitoramento ambiental, na formação de brigadistas e na estrutura operacional para enfrentar um possível aumento das ocorrências nos próximos meses.

Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, o segundo-tenente José Nilton Vieira Nunes, da Defesa Civil Estadual, explica que o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil realizam acompanhamento permanente das áreas de risco, monitoramento dos rios e análise de focos de calor por satélite. Segundo ele, apesar de o Tocantins ter reduzido em cerca de 33% a área queimada em 2025 em comparação ao ano anterior, a tendência para este ano é de maior preocupação devido à previsão de chuvas irregulares e ao acúmulo de vegetação seca, que funciona como combustível para os incêndios florestais.

De acordo com o tenente, o planejamento estadual inclui a instalação de bases temporárias em municípios historicamente mais afetados, como Lagoa da Confusão, Formoso do Araguaia, Mateiros, Paranã e regiões próximas à Ilha do Bananal, Jalapão e Cantão. O estado também mantém cursos de capacitação para brigadistas voluntários e municipais, que atuam diretamente no combate ao fogo durante o período crítico.

O militar destacou ainda que os brigadistas passam por treinamentos práticos e avaliações físicas e emocionais antes de serem incorporados às operações. Além da preparação operacional, a Defesa Civil também aposta em campanhas educativas, como a Foco no Fogo, realizada em parceria com órgãos ambientais e forças de segurança. A iniciativa percorre municípios tocantinenses orientando a população sobre os riscos das queimadas, principalmente em áreas urbanas e propriedades rurais, onde o hábito de colocar fogo em folhas e lixo ainda é recorrente.

Segundo o tenente Nunes, o estado também ampliou a aquisição de equipamentos para o combate aos incêndios, incluindo caminhonetes, sopradores, motosserras e equipamentos de proteção individual (EPIs). Caso as queimadas ultrapassem a capacidade operacional do Tocantins, o Governo Federal poderá ser acionado para envio da Força Nacional, composta por bombeiros de diversos estados.

Apesar da preocupação com a possibilidade de um período mais severo de seca, o militar afirma que, até o momento, não há municípios em situação alarmante de desabastecimento de água ou emergência climática. Ainda assim, o monitoramento segue diário e envolve acompanhamento do nível dos rios, índices de seca e relatórios meteorológicos nacionais.

O Tocantins possui um plano de preparação para possíveis impactos do El Niño ou outras crises climáticas?

Nós temos um planejamento, sim, da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros Militar. Todo ano passamos por essa época de estiagem, esse ciclo, correto? Então já temos um planejamento da corporação em relação ao número de ocorrências esperadas para cada ano.

Também temos um planejamento de quais municípios são mais afetados e de quantos militares iremos enviar. Antes mesmo da estiagem, fazemos a formação de brigadistas, tanto voluntários quanto municipais. Agora, por exemplo, temos uma formação de 112 brigadistas patrocinados pelo Estado, além dos brigadistas municipais que cada município forma com nosso apoio.

Também estamos adquirindo novos materiais para o combate aos incêndios florestais. Estão chegando caminhonetes, EPIs, sopradores, motosserras e outros equipamentos específicos para reforçar as operações deste ano.

Então, esse é o nosso planejamento para preparação desse período.

Quais regiões do Estado são consideradas mais vulneráveis à estiagem e às queimadas hoje?

Hoje nós temos a região de Lagoa da Confusão e Formoso do Araguaia, na Ilha do Bananal, que é uma área com grande incidência de queimadas. Temos também a região do Jalapão e áreas próximas às terras indígenas.

Aqui, por exemplo, este mapa mostra as áreas queimadas de 2025 no Tocantins. Temos a Ilha do Bananal, a região do Jalapão, a área de Goiatins e também terras indígenas, como a do povo Apinajé.

Ano passado tivemos muitos incêndios também na região do Paranã. Esse relatório deve sair entre hoje e amanhã.

Na época dos incêndios florestais, o Corpo de Bombeiros estabelece pontos-base em alguns municípios, como Mateiros, Lagoa da Confusão e Formoso do Araguaia. Funcionam como quartéis provisórios, de onde os bombeiros atuam durante a temporada.

Também tivemos muitos incêndios na região sul do Estado no ano passado, inclusive um dos maiores incêndios do Brasil ocorreu na região do Cantão.

Comparamos dados de maio com os do mesmo período do ano passado, usando o BDQueimadas, do INPE. Até antes de ontem, havia menos queimadas do que no ano passado. Em 2025, entre 1º e 19 de maio, tivemos cerca de 900 focos de calor. Há uma redução? 

Mas hoje o foco de calor precisa ser interpretado com cuidado. O foco de calor é detectado por satélite. Como existem vários satélites monitorando a mesma área, o mesmo incêndio pode gerar múltiplos registros.

Por isso, normalmente usamos como referência os dados do satélite NOAA.

Outra questão importante é que nem todo foco de calor representa um incêndio florestal. Muitas vezes é MIF, que significa Manejo Integrado do Fogo.

Os parques utilizam bastante o MIF, especialmente antes do período de seca mais intensa. Eles avisam previamente onde o manejo será realizado, e nós registramos essas informações no banco de dados. Assim conseguimos diferenciar o que é incêndio florestal, manejo integrado do fogo, queima controlada e queima não autorizada.

Hoje conseguimos separar melhor essas categorias. Por exemplo, em 2025, cerca de 393 mil hectares queimados foram classificados como MIF. Já os incêndios florestais propriamente ditos representaram cerca de 1 milhão de hectares.

A queimada não autorizada é quando o proprietário realiza a queima sem autorização do órgão ambiental.

Como é feito esse monitoramento?

Esse trabalho é realizado em conjunto com a Secretaria do Meio Ambiente (Semarh). Tanto a Defesa Civil quanto a Semarh mantêm contato com as equipes que fazem o Manejo Integrado do Fogo. Eles informam previamente as áreas onde ocorrerá o manejo, e nós registramos tudo no banco de dados.

As imagens de satélite também ajudam nesse monitoramento, principalmente por meio do SIGMA. É um trabalho integrado entre os órgãos.

O Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil já reforçaram o monitoramento de incêndios?

Sim, diariamente. Aqui monitoramos o tempo todo, 24 horas por dia, acompanhando a quantidade de incêndios.

Quando alguma situação extrapola a capacidade de resposta do município, o Corpo de Bombeiros entra em ação. Nós formamos brigadistas municipais — alguns municípios têm 10 brigadistas, outros têm oito, depende da realidade local.

Quando o município informa que não está conseguindo controlar a situação, o Corpo de Bombeiros envia militares para auxiliar. Geralmente isso acontece em regiões como Lagoa da Confusão, Formoso do Araguaia e Mateiros, porque já sabemos que são áreas historicamente mais afetadas. Então já nos deslocamos para essas regiões e instalamos bases temporárias.

Mas também pode ocorrer em outros municípios. Paranã, por exemplo, pediu apoio no ano passado e enviamos militares para atuar lá.

O senhor vê o Estado mais preparado hoje do que em episódios anteriores?

Sim. Hoje temos um planejamento maior e mais estruturado. Também contamos com apoio tanto do Estado quanto de recursos federais.

Conseguimos reduzir a área queimada em 2025 em relação a 2024. Em 2024 foram cerca de 2,7 milhões de hectares queimados. Já em 2025, esse número caiu para aproximadamente 1,8 milhão de hectares.

Isso representa uma redução superior a 1 milhão de hectares, cerca de 33% em relação ao ano anterior.

A expectativa é manter essa redução, mas este ano pode ser mais difícil. Se o El Niño se confirmar, como mostram previsões da NOAA, a chuva pode ficar mais irregular e tardia, aumentando o período de estiagem e, consequentemente, o risco de incêndios florestais.

Existe risco de falta de água em municípios tocantinenses durante o período mais crítico, especialmente no Sudeste do Estado?

Risco existe, mas nós também fazemos esse monitoramento. O Centro de Monitoramento acompanha diariamente o nível dos rios em todo o Tocantins e emite alertas aos municípios quando necessário.

Além do monitoramento local, recebemos relatórios de órgãos federais e utilizamos nossas próprias estações espalhadas pelo Estado.

No início do ano, por exemplo, o nível dos rios estava abaixo da média esperada para o período. Foi emitido um relatório orientando os municípios a acompanharem a situação. Não era algo alarmante, mas já indicava atenção.

Então, o risco sempre existe, principalmente com a possibilidade de influência do El Niño. Mas, até agora, não há nada alarmante nem necessidade de alerta para a população ou para as prefeituras.

Também participamos do Monitor de Secas do Brasil, um sistema nacional que avalia a situação da seca em todos os estados. Hoje, o Tocantins apresenta uma seca leve em parte da região leste, mas ainda sem gravidade.

Essa validação é feita com base em diversos dados, como volume de chuva e nível dos rios. Caso os indicadores avancem para um cenário mais crítico, o primeiro passo é emitir alertas às autoridades locais para que os municípios façam as verificações e adotem as medidas necessárias.

A Defesa Civil já observa algum município em risco hoje?

Hoje não. Neste momento, até agora, não temos nenhum município em situação de risco.

Como funciona, na prática, essa atuação conjunta entre Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e brigadistas?

Hoje, o Corpo de Bombeiros participa da seleção de brigadistas voluntários. São 112 voluntários espalhados pelo Estado para atuar durante o período de incêndios florestais.

Esses brigadistas recebem diárias de R$ 180 pagas pelo Governo do Estado. Eles trabalham em conjunto com o Corpo de Bombeiros. Quando há um incêndio florestal, acabam sendo incorporados às ocorrências e atuando junto com os bombeiros militares.

O período de inscrição para esses brigadistas acabou recentemente. Agora eles passam por um curso de formação, que dura cerca de três ou quatro dias, com parte teórica e prática.

Depois disso, fazem testes físicos, o TAF (Teste de Aptidão Física). Nem todos conseguem passar. Um dos testes, por exemplo, exige percorrer cerca de 2,4 quilômetros carregando uma bomba costal de 24 litros, aquela mochila de água usada no combate aos incêndios.

É uma atividade extremamente exaustiva, então eles precisam comprovar capacidade física para atuar.

Após a aprovação, os brigadistas passam a trabalhar nos quartéis junto com as equipes do Corpo de Bombeiros, mas exclusivamente em ocorrências de incêndios florestais.

Além disso, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros também oferecem cursos para brigadas municipais.

Funciona assim: quando um município tem interesse em criar uma brigada, ele solicita apoio ao Corpo de Bombeiros e à Defesa Civil. Nós vamos até o município e realizamos o treinamento dos brigadistas locais.

Nesses casos, os brigadistas passam a ser vinculados ao município. O Estado oferece a capacitação, mas a estrutura e a atuação ficam sob responsabilidade municipal.

Semana que vem, por exemplo, uma equipe vai para Mateiros realizar um curso de brigada municipal. Jalapão também recebeu treinamento recentemente. No dia 15, vou para Caseara, na região do Cantão, capacitar 28 brigadistas.

Essas equipes fazem o primeiro atendimento. Quando o incêndio é pequeno ou médio, geralmente conseguem controlar. Mas, se a situação foge da capacidade do município, o Corpo de Bombeiros é acionado.

Foi o que aconteceu em Paranã no ano passado. O incêndio tomou grandes proporções e o município não tinha estrutura suficiente. Então, pediram apoio ao Corpo de Bombeiros, que enviou militares para auxiliar no combate.

Existe também uma preparação mental para lidar com incêndios de grandes proporções?

Sim. Durante o curso existe a parte prática, não é apenas teoria. Fazemos treinamentos simulados, com fogo real, dentro de todas as condições de segurança necessárias.

Os brigadistas aprendem técnicas de combate ao fogo, manejo de equipamentos e enfrentam situações semelhantes às de um incêndio florestal verdadeiro. O Corpo de Bombeiros monta toda a estrutura de segurança e os participantes precisam atuar na prática.

Durante esse processo, os instrutores avaliam se a pessoa está apta ou inapta, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Nem todo mundo consegue lidar com esse tipo de atividade, e isso não é um demérito.

Tem gente que não suporta a fumaça, o calor ou a pressão da situação. É uma atividade extremamente exaustiva. Então, quando a pessoa não consegue se adaptar, ela é considerada inapta e não se torna brigadista.

É obrigatório que cada Defesa Civil municipal capacite seus brigadistas junto ao Corpo de Bombeiros?

Não é obrigatório, mas existe um incentivo para isso. O Estado possui o chamado ICMS Ecológico, que prevê incentivos para os municípios que investem em ações ambientais, incluindo a capacitação de brigadistas.

Então, quando o município realiza essa capacitação conosco, ele acaba tendo acesso a esse incentivo financeiro do Estado.

Ou seja, não é uma obrigação, mas o município é incentivado a manter brigadistas capacitados.

Existe alguma campanha de conscientização para a população sobre queimadas?

Sim. Existe a campanha “Foco no Fogo”, realizada pela Secretaria do Meio Ambiente (Semarh), Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar Ambiental e outros órgãos.

A campanha acontece antes do período crítico das queimadas. As equipes percorrem o Estado inteiro, visitando escolas e regiões com histórico de incêndios para orientar a população.

Eles conversam sobre os riscos das queimadas, explicam o que pode ou não ser feito, falam sobre multas e reforçam as ações preventivas.

Em anos anteriores, o Governo Federal já precisou ser acionado para apoiar o Tocantins no combate às queimadas?

Sim, já houve necessidade, mas neste momento ainda não.

Hoje existem recursos federais destinados ao Corpo de Bombeiros para aquisição de equipamentos e estruturação das equipes. Também há programas e linhas de apoio do Governo Federal.

Quando o Estado percebe que a situação extrapolou sua capacidade operacional, pode solicitar apoio da Força Nacional.

A Força Nacional também possui bombeiros militares de vários estados. Então, quando os incêndios são muito grandes e o efetivo local não consegue atender sozinho, equipes de outros estados vêm auxiliar no combate.

Então o Tocantins está preparado para enfrentar os possíveis impactos do El Niño?

Sim. Apesar de estarmos esperando um ano mais difícil, o Estado está se preparando.

Historicamente, existe um ciclo. Em anos em que a vegetação queimou muito, no ano seguinte costuma haver menos material combustível disponível. Já quando o período chuvoso é mais prolongado, cresce mais vegetação e aumenta a quantidade de material seco disponível para queimadas futuras.

Em 2024 tivemos um ano muito crítico. Em 2025 houve redução. Agora, com a possibilidade de influência do El Niño, existe expectativa de aumento das queimadas novamente, porque houve maior crescimento de vegetação.

Por isso estamos ampliando o planejamento, reforçando equipes e preparando o efetivo para tentar manter os números abaixo do registrado em 2024, que foi um ano fora do padrão esperado.

Qual orientação o senhor deixa para a população diante das previsões do El Niño?

A principal orientação é não colocar fogo, especialmente em quintais e áreas urbanas.

Existe um decreto estadual que estabelece o período proibitivo do fogo, normalmente entre junho e outubro ou novembro.

Nas cidades do interior ainda existe o costume de queimar folhas e lixo no quintal, mas qualquer faísca, principalmente em períodos de vento forte, pode provocar um incêndio florestal.

Também é importante manter a hidratação e usar protetor solar, porque o índice de radiação UV costuma ficar muito alto nesse período.

E, em caso de incêndio, a orientação é não tentar combater sozinho. O incêndio florestal é muito dinâmico. O vento pode mudar rapidamente a direção das chamas e colocar a pessoa em risco.

O correto é acionar imediatamente os brigadistas ou o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.