Por Fernando Maciel Vieira 

Há uma crença quase religiosa em nossa época: a de que tudo avança. Os celulares ficam mais finos, as cidades ficam mais iluminadas, os discursos ficam mais sofisticados. E nós, imersos nesse movimento perpétuo de superfícies que se renovam, raramente paramos para perguntar se aquilo que se move para frente é, de fato, o que importa. Ou se, no fundo, somos como o hamster na roda — ágeis, esforçados e absolutamente estáticos.

Permita-me começar com uma provocação honesta: você acredita que o Brasil de hoje é melhor do que o Brasil de trinta anos atrás? A resposta, claro, depende de quem você pergunta, de onde essa pessoa mora e se ela ainda tem esperança suficiente para acreditar em qualquer coisa. Mas deixe de lado a política — esse campo minado onde até o consenso explode — e observe os dados com a fria elegância que eles merecem.

“O progresso é a realização de utopias.”

— Oscar Wilde, A Alma do Homem sob o Socialismo, 1891

Wilde era irônico, claro. Como todo grande escritor, ele sabia que a ironia é o único instrumento capaz de cortar a mentira sem fazer sangue visível. E a grande mentira de nosso tempo é exatamente esta: confundimos velocidade com direção. Confundimos acúmulo com crescimento. Confundimos barulho com pensamento.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu inquietante A Sociedade do Cansaço (2010), descreve nossa era como dominada por uma positividade excessiva — não a positividade de quem é feliz, mas a de quem está permanentemente ocupado. “A sociedade do desempenho”, escreve Han, “produz depressivos e fracassados.” Não porque as pessoas sejam fracas, mas porque a máquina de produzir tarefas nunca para — e ninguém ousou perguntar se as tarefas valiam alguma coisa.

Aplique isso à realidade brasileira com o rigor que ela exige. O Brasil aprovou, em 2014, o Plano Nacional de Educação — vinte metas, dez anos, uma promessa de transformação. Uma década depois, o que temos? Segundo o próprio Ministério da Educação, em 2023, apenas 3 das 20 metas foram cumpridas integralmente. Três. Em dez anos. Se isso é progresso, confesso que minha régua está calibrada diferente da de quem elaborou o plano.

“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem.”

— Paulo Freire, Educação como Prática da Liberdade, 1967

Freire não falava de metas. Falava de gente. E talvez aí esteja o problema central da ilusão do progresso: nós aprendemos a medir tudo, menos o que realmente muda uma vida. Medimos o IDEB, esquecemos o professor que tem três empregos para pagar o aluguel. Medimos o PIB, esquecemos a criança que entra na escola com fome e sai dela sem saber ler.

“Medimos o IDEB, esquecemos o professor. Medimos o PIB, esquecemos a criança com fome. A estagnação, quando bem maquiada, parece muito com movimento.”

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman chamou nossa atenção, em Modernidade Líquida (2001), para a dissolução das estruturas sólidas que davam sentido à vida coletiva. Tudo flui, tudo muda de forma — mas a substância, essa permanece espantosamente igual. A desigualdade que Bauman descrevia no alvorecer do milênio segue aqui, apenas com uma interface mais moderna. Hoje ela tem stories e algoritmo.

Mas vamos ser justos — porque a ironia sem justiça é apenas crueldade bem-vestida. O Brasil fez avanços reais. A mortalidade infantil caiu. O acesso ao ensino superior cresceu. Milhões saíram da extrema pobreza na primeira década deste século. Isso não é pouco, e seria desonesto fingir o contrário. O problema não é negar o que melhorou. O problema é o que fazemos com o que melhorou — se celebramos e paramos, ou se compreendemos que um passo dado não é o destino alcançado.

O economista Albert O. Hirschman, em sua teoria das “ilusões progressistas”, alertava que as sociedades tendem a superestimar reformas parciais como se fossem revoluções completas. Ganhamos um programa social e proclamamos o fim da pobreza. Construímos uma escola e proclamamos o fim do analfabetismo. A narrativa do progresso tem essa função específica: legitimar a pausa. Dizer que chegamos quando ainda estamos no meio do caminho.

“Toda sociedade que para de questionar seu próprio avanço começa, silenciosamente, a retroceder.”

— Adaptado de Immanuel Kant, Ideia de uma História Universal com um Propósito Cosmopolita, 1784

E é aqui que o sarcasmo encontra a seriedade — porque eles, ao contrário do que parece, não são opostos. São complementares. O sarcasmo é o grito do sujeito que percebeu a distância entre o discurso e a realidade e não sabe mais como chorar. Quando um professor do interior do Tocantins recebe uma formação continuada via PowerPoint de trinta slides sobre “inovação pedagógica” sem nunca ter tido acesso a um laboratório de ciências, ele não ri por ser frívolo. Ele ri porque a alternativa — levar a sério tudo aquilo — seria insuportável.

Neil Postman, em Tecnopólio (1992), escreveu que toda tecnologia é simultaneamente um dádiva e um fardo — e que a sociedade, entusiasmada com a dádiva, raramente lê as letras miúdas do fardo. Hoje navegamos em algoritmos que nos oferecem o conforto de parecer informados sem o trabalho de pensar. Recebemos notícias em doses homeopáticas de indignação, esquecemos em vinte e quatro horas, recebemos novas doses. Chamamos isso de estar conectados. Postman chamaria de estar anestesiados com estilo.

A estagnação, perceba, é muito mais sofisticada do que o simples não-movimento. Ela se disfarça de dinamismo. Ela produz relatórios, cria comissões, lança programas com nomes em inglês, abre consultas públicas que ninguém lê, publica portarias que ninguém cumpre — e no final de tudo, sorri para a câmera com a satisfação de quem plantou uma floresta. Quando, na verdade, apenas trocou as flores de vaso.

Pierre Bourdieu, o sociólogo francês que passou a vida desmontando a naturalização das desigualdades, diria que o progresso como ilusão cumpre uma função social precisa: reproduzir o campo tal como ele é, apenas com outra linguagem. Muda o nome do problema, mantém o problema. Cria-se o Ministério do Futuro sem mudar o presente de ninguém.

Então, voltemos ao começo — porque todo bom diálogo é circular, e você, leitor, merece mais do que uma lista de problemas sem uma pergunta honesta ao final. Estamos estagnados? Em partes, sim. Em partes fundamentais, profundas, estruturais — a desigualdade, o analfabetismo funcional, a precarização do trabalho, a erosão da autonomia docente, a distância entre quem faz as políticas e quem as vive — estamos, no mínimo, correndo numa esteira muito veloz para ficar no mesmo lugar.

Mas a estagnação não é destino. É escolha — ou melhor, é a soma de muitas escolhas pequenas que ninguém admite ter feito. E o primeiro passo para sair dela, curiosamente, não é agir mais. É parar. Olhar. Perguntar com seriedade o que chamamos de progresso e por que insistimos em celebrá-lo quando os dados nos dizem outra coisa.

Talvez o verdadeiro progresso comece exatamente aí: no desconforto de quem recusou a ilusão. No professor que questiona a formação que recebe. No cidadão que lê o relatório além do título. Na criança que ainda não sabe que deveria ter desistido — e por isso, felizmente, ainda não desistiu.

“Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.”

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, 1968

O hamster na roda, afinal, não é burro. Ele apenas nunca teve quem lhe mostrasse a porta da gaiola. E a porta, você sabia? Está aberta há muito tempo. Só falta alguém parar de correr tempo suficiente para vê-la.

Referências
Han, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Vozes, 2017 [2010]. · Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida. Zahar, 2001. · Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra, 1968. · Postman, Neil. Tecnopólio. Nobel, 1994 [1992]. · Bourdieu, Pierre. A Reprodução. Vozes, 2013. · Wilde, Oscar. A Alma do Homem sob o Socialismo. 1891. · MEC/INEP. Relatório de Monitoramento do PNE 2014–2024. Brasília, 2023.