Advogado pai de menino morto em Palmas é investigado por suspeita de falsificar documentos em ações judiciais
11 setembro 2026 às 17h27

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Preso na investigação sobre a morte do filho Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, em Palmas, o advogado Igor Gustavo Veloso de Souza também é investigado pela Polícia Civil por suspeita de falsificação de documentos usados em ações judiciais. Um inquérito policial ao qual o Jornal Opção Tocantins teve acesso mostra que a apuração foi aberta no dia 25 de agosto pela 22ª Delegacia de Polícia de Xambioá.
A investigação nasceu de informações levantadas pelo Centro de Inteligência do Núcleo de Gerenciamento de Precedentes (Cinugep), do Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO), que identificou possíveis irregularidades na atuação profissional de Igor. O material chegou ao Ministério Público, que apontou “graves indícios de irregularidades reiteradas”, acionou a Polícia Civil e, meses depois, cobrou a abertura da investigação.
O procedimento não tem relação com a morte de Gustavo. Os fatos analisados pelo TJTO e pelo MP são anteriores ao caso da criança e dizem respeito à atuação de Igor como advogado. A Polícia Civil instaurou o inquérito por suspeita de falsificação de documento particular, crime previsto no artigo 298 do Código Penal, e determinou perícias, consultas a bancos de dados e depoimentos.
Mais de 4 mil processos
O levantamento do Cinugep identificou Igor como advogado em mais de 4.319 processos no estado e apontou concentração considerada atípica em demandas envolvendo empréstimos consignados. O relatório classificou o padrão encontrado como possível litigância predatória.
O volume de ações foi apenas uma parte da análise. O Tribunal encontrou processos sem procuração, ausência de comprovantes de endereço, documentos em nome de terceiros e divergências entre os endereços apresentados nas ações e aqueles encontrados no Infojud.
Também foram apontados indícios de uso indevido de dados e documentos sigilosos do INSS. O relatório chamou atenção ainda para endereços eletrônicos padronizados atribuídos a supostos clientes — contas Hotmail terminadas em “2024” ou “123” — e levantou a possibilidade de que os e-mails tenham sido criados para simular contatos dos clientes com instituições bancárias.
Outro ponto observado foi a ausência de autores em audiências de conciliação. Para o Cinugep, o conjunto de situações levantou dúvidas sobre a ciência de algumas partes a respeito das ações ajuizadas em seus nomes.
Alvarás para o escritório
O TJTO analisou ainda a destinação dos valores liberados nos processos. Segundo o relatório, havia pedidos de expedição de alvarás com indicação da conta bancária do escritório.
O próprio documento ressalva que o recebimento pelo advogado é permitido quando há poderes específicos concedidos pelo cliente. A preocupação registrada pelo Cinugep decorreu das dúvidas sobre a participação efetiva das partes e sobre o conhecimento delas acerca das demandas.
Em um dos recortes examinados, o Tribunal identificou 1.569 processos contra instituições bancárias e outros 285 contra o INSS, somando 1.854 ações com padrão considerado repetitivo.
Grande parte das ações buscava declarar inexistentes relações jurídicas com bancos. Em processos analisados pelo Cinugep, porém, instituições financeiras apresentaram contratos assinados pelos próprios autores que contestavam judicialmente as contratações.
O relatório também registra ações de autores recorrentes e sentenças com condenação por litigância de má-fé, além de processos extintos por ausência de pressuposto processual diante de suspeita de litigância abusiva.
MP acionou Polícia Civil
As informações foram encaminhadas pelo TJTO ao Ministério Público. Em 31 de março de 2026, a Promotoria de Justiça de Xambioá abriu uma notícia de fato.
No documento, o MP afirmou terem chegado ao órgão “graves indícios de irregularidades reiteradas” na atuação de Igor. A manifestação reproduziu os principais pontos encontrados pelo Judiciário e afirmou que o padrão observado sugeria possível fraude processual.
Em 7 de abril, o Ministério Público acionou formalmente a Polícia Civil e pediu à Delegacia de Xambioá a instauração de investigação sobre os fatos envolvendo a atuação do advogado.
A investigação, porém, não foi aberta naquele momento. Em agosto, o MP voltou a cobrar informações da Polícia Civil. Em ofício de 14 de agosto, estabeleceu prazo de cinco dias para que a delegacia informasse se o inquérito havia sido efetivamente instaurado.
A Polícia Civil formalizou a investigação em 25 de agosto.
Polícia apura falsificação
No boletim de ocorrência que integra o inquérito, a comunicação feita pelo Ministério Público menciona suspeita de “estelionato judicial” relacionada a processos ajuizados em massa em Xambioá e em outras comarcas.
Apesar dessa referência, esse não é o enquadramento formal da investigação policial. O inquérito foi instaurado para apurar suspeita de falsificação de documento particular.
A apuração deverá verificar, entre outros pontos, a autenticidade de documentos e as circunstâncias dos processos apontados no material encaminhado pelo Ministério Público. A abertura do inquérito não significa que Igor tenha cometido o crime investigado.
TJ já acompanhava atuação de Igor
O material mostra ainda que essa não foi a primeira análise do Cinugep sobre a atuação profissional do advogado.
Em levantamento anterior, o Centro de Inteligência havia identificado concentração de processos envolvendo empréstimos consignados, fracionamento de pedidos e procurações anteriores às datas de protocolo. O relatório registra que, em parte das ações analisadas, os bancos juntaram contratos assinados pelos autores, situação que, na avaliação técnica, sugeria litigância de má-fé.
Na análise mais recente, o Cinugep afirmou que o padrão anteriormente identificado não havia mudado. O Tribunal recomendou a adoção de medidas de enfrentamento à litigância predatória e o encaminhamento das informações a outros órgãos, entre eles Ministério Público e OAB.
OAB suspendeu Igor em agosto
Igor teve a inscrição profissional suspensa cautelarmente pela OAB Tocantins em 5 de agosto, quando já estava preso na investigação sobre a morte de Gustavo. A medida foi tomada no contexto do caso envolvendo a criança e não em razão das suspeitas de irregularidades nas ações judiciais tratadas nesta reportagem.
Na ocasião, a Ordem informou que a suspensão permaneceria até a instauração e análise do procedimento disciplinar, com garantia do contraditório e da ampla defesa. A reportagem solicitou à OAB-TO informação sobre a situação atual da suspensão e questionou se a entidade recebeu os apontamentos feitos pelo TJTO e abriu procedimento específico para analisar a atuação profissional descrita pelo Cinugep.
Em nota, a entidade informou que a suspensão cautelar aplicada contra o advogado Igor Gustavo Veloso de Souza encontra-se em vigor. No entanto, esclareceu que em razão do sigilo que rege os processos ético-disciplinares, nos termos do Estatuto da Advocacia e da OAB, não pode confirmar ou fornecer outras informações relacionadas ao procedimento.
Igor está preso no Caso Gustavo
Igor está preso desde 5 de agosto no caso que apura a morte de Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, em Palmas. Ele e a madrasta da criança, Kathellen Moreira, são investigados por homicídio duplamente qualificado e tortura.
As duas investigações tratam de fatos distintos. Os primeiros levantamentos sobre a atuação profissional de Igor são anteriores à morte da criança e não integram o inquérito do Caso Gustavo.
A investigação sobre falsificação também está em fase de apuração. A instauração do inquérito não representa conclusão sobre a responsabilidade do advogado pelos fatos apontados pelo TJTO e pelo Ministério Público.
