Brasil supera EUA em liberdade de imprensa, mas esse avanço é relativo
03 maio 2026 às 10h10

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O Brasil subiu 58 posições no ranking mundial de liberdade de imprensa, pela primeira vez, e ultrapassou os Estados Unidos. Esta declaração é importante e precisa ser mencionada, já que o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa se aproxima em 3 de maio. Mas transformar esse movimento em um marco de plena estabilidade democrática seria, no mínimo, prematuro.
Esta melhoria pode ser explicada em termos mais claros. O país saiu de um período recente em que a relação entre poder e imprensa era caracterizada por confronto constante e passou para um ambiente mais institucionalizado. Isso tem um efeito direto na avaliação internacional, pois o tom das autoridades importa e molda o espaço em que o jornalismo pode existir.
Há também ganhos práticos, já que o Brasil começou a formular políticas que protegem a atividade jornalística, incluindo o protocolo nacional para investigação de crimes contra jornalistas, assinado pelo Ministério da Justiça no mês passado. A medida estabelece padrões de comportamento para as forças de segurança, prevê atenção a fatores agravantes e organiza a resposta do Estado em caso de violência. É, portanto, um passo que importa, porque também entende que ataques à imprensa não são casos isolados, mas impactam diretamente a democracia.
Este movimento é então sobreposto a outros elementos, como a ausência de assassinatos de jornalistas nos últimos anos. O Brasil há muito tempo teve dezenas de mortes ligadas à profissão. De 2010 até 2022, ocorreram 35 casos.
Mas os dados mostram que o problema não desapareceu por completo; ele apenas mudou de forma. O Brasil relatou 66 incidentes, em 2025, de violência não letal contra jornalistas, atingindo 80 profissionais e veículos. Em termos práticos, isso significa que, a cada cinco dias, havia algum tipo de agressão à imprensa. O número é ligeiramente inferior ao do ano anterior, mas não é um quadro de calma.
No espaço digital, essas situações são ainda mais alarmantes. Os ataques online aumentaram 35% em relação a 2024. Foram cerca de 900 mil registros de agressão contra a imprensa nas redes sociais, quase 2.500 por dia. A escala é esmagadora e mostra uma nova dinâmica de pressão, mais difusa e mais difícil de conter. E a própria indústria da comunicação já está detectando a inteligência artificial como um instrumento para amplificar ataques e criar narrativas negativas sobre o jornalismo.
Este contexto ajuda a explicar por que o único fator brasileiro que caiu no ranking foi precisamente o que mede a percepção social. Desconfiança, campanhas de ódio e autocensura ainda estão presentes. O ambiente institucional melhora, mas o ambiente social ainda é tenso.
E há outro ponto que não pode ser negligenciado. Os avanços do Brasil estão ocorrendo em meio a um cenário global de deterioração da liberdade de imprensa. Hoje, mais da metade dos países do mundo vive em uma situação considerada difícil ou severa. A média global nunca foi tão baixa. Portanto, subir no ranking também corresponde à queda de outros países.
Os Estados Unidos são o exemplo perfeito dessa mudança. O país, que há muito se orgulha da liberdade de expressão, viu esse cenário se deteriorar, com ataques à imprensa sendo utilizados como táticas políticas. Este modelo torna-se aceito e influencia outras democracias, incluindo a América Latina.
O Brasil, portanto, emerge aqui como uma exceção relativa. Melhorou, mas ainda sofre de fraquezas estruturais. Entre elas, o uso do Judiciário e de ações judiciais para intimidar jornalistas, com processos que podem, na prática, ser ferramentas de pressão.
O país está, por essa razão, em um momento nebuloso. Ganha em indicadores formais, mas ainda sofre com dificuldades reais no dia a dia da profissão. Fortaleceu sua relação com o poder, mas deve reconstruir sua relação com a sociedade.
O ranking internacional mede tendências, mas não resolverá o problema. A liberdade de imprensa é mais do que a ausência de censura ou violência excessiva. É a garantia de que os jornalistas podem operar sem medo, contra pressões indevidas e com credibilidade perante o público.
O Brasil deu alguns passos importantes. Mas ainda não chegou ao ponto de estar preparado para tratar os problemas como se já estivessem resolvidos. Em um quadro de regressão global, manter o que foi alcançado pode ser tão difícil quanto avançar.
