Punir ou não punir, eis a questão — e a escola continua sem resposta
02 maio 2026 às 13h24

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Por Fernando Maciel Vieira
Há uma cena que se repete, todo dia, em milhares de salas de aula pelo Brasil afora. Um professor entra. A turma ferve. Ele espera. A turma continua a ferver. Ele pede silêncio. A turma diminui um grau no fogo, mas não apaga. Ele respira fundo — aquela respiração que não é de quem está calmo, mas de quem está ensaiando não explodir — e começa a aula. Assim vai, entre uma tentativa e outra de capturar a atenção de seres humanos de quinze anos que parecem ter feito um pacto silencioso com o caos.
Não é ficção. É dado.
A cada ano, os professores brasileiros perdem, em média, 35 dias inteiros de aula tentando controlar alunos bagunceiros — uma estimativa que veio da OCDE e que deveria causar o mesmo escândalo de qualquer outra tragédia nacional. Mas não causa. Talvez porque a escola seja um dos poucos lugares onde o caos virou rotina aceita, pauta recorrente de reunião pedagógica e tema de WhatsApp de professor às onze da noite.
O índice de indisciplina nas salas de aula do Brasil está entre os mais elevados de todos os países participantes do PISA, e essa questão aparece tanto nas pesquisas respondidas pelos alunos quanto nas respondidas por professores. Somos campeões em muita coisa. Indisciplina escolar, infelizmente, é uma delas.
E no meio desse cenário, o professor virou personagem de uma peça do absurdo: cobrado para ensinar, impedido de exigir, proibido de punir, mas também responsabilizado pelo fracasso dos alunos. Uma marionete com os fios puxados por todos — família, gestão, sistema, algoritmo — e que ainda precisa sorrir para a câmera quando a escola posta no Instagram.
O ringue das ideias: punitivismo contra permissivismo
O debate sobre disciplina escolar tem dois times que se enfrentam com a convicção de quem nunca pisou no vestiário do adversário.
Time 1 — Os punitivistas acreditam que consequência é o único idioma que o comportamento humano leva a sério. Não sem razão científica. B. F. Skinner, o behaviorista mais influente do século XX, construiu uma teoria inteira em torno do condicionamento operante: o comportamento é influenciado pelas suas consequências — as recompensas e punições que seguem uma determinada ação moldam a frequência e a probabilidade de ocorrência desses comportamentos. Em linguagem mais direta: se nada acontece quando a criança perturba, ela vai continuar perturbando. A lógica é quase matemática.
Os defensores de mais rigor apontam para um dado incômodo: as escolas privadas e federais, como as de modelo militar, além de não terem os mesmos índices de indisciplina, figuram positivamente em leitura, matemática e ciências, e poderiam, se analisadas isoladamente, ranquear o Brasil em ótimos patamares. Disciplina e aprendizagem, dizem eles, caminham juntas. Não é fascismo — é correlação.
Time 2 — Os não punitivistas entram em campo com Piaget na camisa. Para ele, a disciplina e o sentimento de responsabilidade podem se desenvolver sem nenhuma punição expiatória — as relações de cooperação bastam para provocar nas crianças um tal respeito à regra que a simples censura e um sentimento de responsabilidade são suficientes. Punição sem relação é vento. O que educa é o vínculo, a confiança, o sentido compartilhado.
Vygotsky acrescenta outra camada. Para a psicologia sócio-histórica, o comportamento indisciplinado dependerá de experiências e de relações com o grupo social e a época histórica. Ou seja, o aluno que bate o pé na carteira não nasceu sabotador — ele aprendeu, em algum lugar, que aquilo é o que se faz. A pergunta, então, não é “como punir?”, mas “de onde vem essa aprendizagem?”
O curioso — e aqui a ciência se recusa a ser maniqueia — é que nem Skinner era tão punitivista quanto o punitivismo supõe. Skinner argumentou que é favorável ao desenvolvimento de técnicas alternativas à punição, mas que a punição, quando utilizada em favor do indivíduo punido e de forma controlada em um ambiente pouco punitivo, é justificável, dada a rapidez com que seus efeitos são observados. Ou seja: a ciência diz “depende”. E o Brasil, como de costume, escolhe uma das pontas e ignora o meio.
A escola como campo de batalha existencial
A indisciplina raramente é um fenômeno simples. Ela é sintoma. De quê? Depende do aluno, da turma, da escola, do bairro, da família, do professor, do horário — se é segunda de manhã ou sexta à tarde muda tudo.
As práticas escolares funcionam tanto como promotoras quanto como agravantes dos episódios de indisciplina nas escolas e salas de aula. O papel desempenhado pelas ações pedagógicas dos professores se associa a uma maior ou menor eficácia em prevenir a indisciplina. O que é incômodo e libertador ao mesmo tempo: o professor importa. A forma como ele entra na sala, conduz a aula, responde ao aluno que provoca — isso tem efeito. Não é culpa só dele, mas também não é alheio a ele.
Ao comparar os sistemas educacionais de Brasil, Chile e Cuba, o pesquisador Martin Carnoy, da Universidade Stanford, identificou que os estudantes brasileiros eram menos engajados que os chilenos e cubanos, demonstrando mais vezes tédio ou desinteresse. Tédio é uma forma de indisciplina que usa roupas silenciosas. Não grita, não joga papel — mas também não aprende.
E a tecnologia chegou para embaralhar ainda mais esse jogo. Entre as mudanças recentes que os docentes apontam estão o uso excessivo de celulares e alterações comportamentais como desmotivação, ansiedade, hiperatividade, apatia e agressividade. Um docente observou nos estudantes dificuldade de concentração em qualquer coisa que ultrapasse o tempo de um vídeo. Como competir com um feed infinito de dopamina rápida quando você tem um capítulo de história para explicar? É uma pergunta honesta, sem resposta fácil.
O professor marionete — e o preço do caos
No centro dessa equação, existe um ser humano que foi para a universidade, sonhou com uma sala de aula, e encontrou algo para o qual nenhum estágio o preparou. 79,4% dos professores brasileiros já pensaram em desistir da carreira. Em relação ao futuro profissional, 67,6% se sentem inseguros, desanimados e frustrados.
Quase oito em cada dez professores já pensaram em ir embora. Não é fraqueza — é exaustão de quem trabalha numa estrutura que pede tudo e oferece pouco. A indisciplina e o desinteresse dos alunos ficaram em segundo lugar entre os principais desafios citados pelos docentes, só perdendo para a falta de valorização da carreira.
A Síndrome de Burnout assombra a categoria. A prevalência da síndrome entre professores brasileiros variou entre estudos de 1,85% a 85,52%, o que levanta preocupações sérias quanto às condições laborais e à saúde mental dos docentes. A variação é grande porque a realidade é grande — mas nenhum número desse intervalo é confortável.
O professor marionete não é metáfora poética. É a descrição exata de quem recebe ordens contraditórias: seja rígido, mas não puna; seja afetivo, mas mantenha autoridade; motive o aluno, mas não force o conteúdo; use tecnologia, mas proíba o celular. Os fios puxam para todo lado. A marionete dança. A plateia reclama do espetáculo.
E então, punimos ou não?
A resposta honesta é: as duas coisas, na medida certa, no momento certo, com propósito claro.
A ciência não apoia nem o chicote nem o abraço eterno. Apoia consequências consistentes, relações de confiança, aulas que façam sentido, professores que se sintam respeitados, alunos que se sintam vistos. Apoia, acima de tudo, que a escola seja tratada como o que é: um lugar de conflito e de crescimento, não uma linha de produção de comportamentos dóceis.
Quando questionados sobre quais colegas não gostariam de ter em classe, a resposta mais comum entre os jovens — 41% — foi “bagunceiros”. Os próprios alunos querem ordem. Não porque amem a disciplina pela disciplina, mas porque sabem, instintivamente, que o caos não ensina nada — exceto a sobreviver no caos.
A escola brasileira está encruzilhada, sim. Mas encruzilhada não é fim — é lugar onde se escolhe a direção. O problema é que, até agora, a escolha tem sido a paralisia: nem punitivismo consequente, nem humanismo estruturado. Apenas professores exaustos, alunos entediados e um sistema que debate o espetáculo enquanto o circo pega fogo.
O fio da meada não é punir ou não punir. É decidir, de uma vez, o que a escola brasileira quer ser — e quem ela está disposta a respeitar dentro dela. Professores inclusive.
Texto fundamentado em dados do PISA/OCDE, pesquisa do Instituto Semesp (2024), estudos publicados em periódicos nacionais de psicologia e educação, e nas teorias de B. F. Skinner, Jean Piaget e Lev Vygotsky.
