Há quase três décadas instalada às margens do Ribeirão Taquaruçu Grande, a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Aureny, no setor Bertaville, na região sul de Palmas, convive com reclamações de moradores dos bairros do entorno relacionadas ao forte odor que, segundo os relatos, se espalha pela região. Uma pesquisa de mestrado defendida na Universidade Federal do Tocantins (UFT), somada a relatos colhidos diretamente com quem vive próximo à estação, revela um cenário de desconforto persistente, queda na valorização imobiliária e sensação de abandono por parte do poder público.

O estudo que deu origem à reportagem foi conduzido por Ricardo Duarte Bezerra, mestre em Geografia pela UFT e professor da rede municipal de educação de Palmas, sob orientação do professor Lucas Barbosa e Souza, doutor em Geografia e docente da universidade no campus de Porto Nacional. A pesquisa ouviu 24 pessoas, entre moradores dos bairros afetados, professores e funcionários da Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Anísio Spínola Teixeira, localizada a menos de um quilômetro da estação, e presidentes de associações de bairros do entorno.

Segundo Ricardo, o levantamento partiu diretamente da fala dos moradores: “Pelos relatos dos moradores, os odores não são constantes. Foi possível constatar, nas transcrições dos áudios e nas falas dos sujeitos, alguns elementos: os odores são intensificados em períodos chuvosos e eles vão além do bairro Bertaville, onde está situada a estação, abrangendo outros bairros do entorno.”

Ricardo Bezerra durante entrevista | Foto: Jornal Opção Tocantins

Os impactos identificados pela pesquisa não se restringem ao incômodo olfativo cotidiano, a rotina escolar e o mercado imobiliário da região também aparecem afetados nos relatos colhidos: “Dentro dos impactos da rotina, temos a reclamação na escola, o odor no ambiente escolar, e também a questão da desvalorização imobiliária. Inclusive, no entorno, União Sul, Irmã Dulce e Aureny III e IV as áreas e as quadras mais próximas da estação estão mais vazias devido a essa desvalorização. E também aqui nós temos próximo o Ribeirão Taquaruçu Grande, volta e meia é noticiado com manchas esverdeadas, né, de proliferação de algas.”

Entorno da ETE Aureny | Foto: Jornal Opção Tocantns
Leito do Ribeirão Taquaruçu Grande | Foto: Djavan Barbosa

Questionado sobre possíveis soluções, o pesquisador defendeu: “Em relação ao poder público, é preciso tomar providências relacionadas às formas de tratamento existentes, porque há tecnologias mais modernas que poderiam ser utilizadas. E em relação à população, existe a questão da conscientização sobre o uso correto do sistema de esgoto, porque a empresa alega que a população não está usando o sistema adequadamente, usando os quintais como escoamento das águas para o esgoto, o que não pode, já que existem as galerias de águas pluviais para isso. A ETE Aureny usa um sistema de baixo custo, e há tecnologias modernas que poderiam auxiliar para amenizar essa situação.”

O orientador da pesquisa, professor Lucas Barbosa e Souza, situou o trabalho dentro da tradição do programa de pós-graduação em Geografia da UFT, voltado a temas regionais e locais:

“Ricardo é um morador aqui próximo. Ele já convivia com essa questão e levou essa temática para a pesquisa dele. Entendemos que ele trouxe uma contribuição importante, especialmente para essa comunidade, porque é uma produção de conhecimento que pode, de algum modo, auxiliar essas comunidades do entorno na busca por direitos que elas têm, na busca por justiça ambiental, que é a tônica do trabalho.”

Lucas Barbosa durante entrevista | Jornal Opçao Tocantins

Ao aprofundar o conceito de justiça ambiental, ele explicou o raciocínio que sustenta essa leitura do problema:

“A ideia da justiça ambiental começou como movimento social, uma iniciativa que teve início nos Estados Unidos, especialmente na década de 80, e só depois virou teoria, virou conceito, e foi para dentro das universidades. Ela pressupõe o seguinte: pratica-se injustiça ambiental quando há uma distribuição desigual de ônus e de bônus, dos custos e dos benefícios de um empreendimento, de um modelo de desenvolvimento. E aqui temos exemplos disso, porque a estação de tratamento beneficia uma parte da cidade, especialmente a porção sul, atendendo muitos bairros, mas aqui próximo da estação existem vias e partes que não são atendidas pela rede.”

O professor também reconstituiu o histórico da ocupação urbana ao redor da estação, destacando uma lacuna na avaliação de riscos ambientais no momento da aprovação dos loteamentos:

“A estação já estava aqui antes da ocupação mais próxima, dos setores que se formaram no entorno. Porém, essa ocupação foi autorizada, o setor Bertaville, que é o mais próximo, tem autorização, é um loteamento regular, os lotes foram comercializados. Isso passou por um trâmite no poder público municipal de autorização do loteamento, sem que a questão do mau cheiro fosse problematizada. As pessoas adquiriram os terrenos e construíram suas casas com a melhor expectativa de todas, mas depois passaram a conviver com o problema, e em alguns casos sequer podem fazer uso da rede de esgoto.”

ETE Aureny | Foto: Jornal Opção Tocantins

Possíveis causas pontuadas na pesquisa

A pesquisa de Ricardo, concluída em 2024, também buscou identificar os fatores associados à ocorrência do mau cheiro na região. As observações feitas no trabalho ganharam novos elementos em um artigo publicado em agosto deste ano, que detalha os processos envolvidos na formação e na dispersão dos odores.

Artigo foi publicado dia 14 de agosto | Foto: Reprodução

Segundo esse material, o mau cheiro está relacionado à liberação de gases durante o tratamento do esgoto e também ao longo da própria rede sanitária. Esses gases são gerados pela decomposição da matéria presente nas águas residuais e incluem compostos de enxofre e nitrogênio, além de outros compostos orgânicos voláteis. Na região estudada, as fontes não estão concentradas apenas na ETE Aureny, a EEEB União Sul, as tubulações e outros pontos da rede coletora também integram o sistema que pode liberar ou transportar esses gases.

A presença desses compostos, no entanto, não explica sozinha por que o odor é percebido com maior intensidade em determinados momentos e locais. As condições meteorológicas interferem diretamente na dispersão, já que a direção e a velocidade dos ventos podem transportar os gases para os bairros do entorno, enquanto períodos de calmaria e determinadas condições de circulação do ar podem dificultar sua dissipação. Com isso, a intensidade do mau cheiro pode variar conforme o ponto da região e a proximidade em relação às diferentes fontes do sistema de esgoto.

A visão de quem mora na região

Se a pesquisa acadêmica apresenta os fatores associados ao fenômeno e permite compreender como ele se manifesta no espaço, os relatos de moradores mostram como esse problema aparece no cotidiano de quem vive na região. Professora da rede municipal e moradora do setor Bertaville desde 2016, Carol Nelson, em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, descreveu como o mau cheiro afeta seu bairro e as áreas vizinhas, variando conforme a estação do ano, especialmente no período chuvoso, quando o mau cheiro se intensifica.

Carol Nelson | Foto: Arquivo Pessoal

A professora também apontou o impacto do problema sobre um espaço de lazer da comunidade, inaugurado nas margens do rio, e sobre a reputação do bairro: “A gente tem uma área, uma prainha, que foi inaugurada aqui, e ninguém tem coragem de tomar banho nela, porque temos medo de que esteja contaminada. Os moradores são muito prejudicados, e ainda tem a má fama do bairro, que deveria ter um olhar da prefeitura, mas não tem.”

Para Carol, o problema é agravado pela sensação de descaso do poder público em relação à região ao longo dos anos: “Já teve várias manifestações sobre isso e nunca aconteceu nada. Dizem que está na Justiça há muitos anos, mas a providência nunca foi realmente tomada. O mau cheiro incomoda principalmente os moradores que moram perto daquela região, mas o odor vai para todos os bairros ao lado.”

Ela conta até que no próprio trabalho realiza projeto com os alunos abordando a temática.

Já o agente de trânsito Jurandir Oliveira, morador da região desde 1993, compartilhou a perspectiva de quem acompanha o problema há mais de três décadas: “Ultimamente, devido a muitas reclamações e muitas reportagens, tenho observado que diminuiu, não está mais como era antes. Aquele cheiro chegava até a parte que faz divisa com o Aureny 4, e também com o Aureny 3. Hoje não chega mais com a mesma frequência que tinha antes; a gente já passa mais tempo sem sentir esses odores.”

Jurandir Oliveira | Foto: Arquivo Pessoal

Apesar da melhora percebida, ele reconhece que conviver com o problema se tornou parte da rotina de quem mora na região há mais tempo: “A comunidade daqui da região, querendo ou não, tem que se acostumar a conviver com essa situação. O período que mais complica é o inverno, porque acredito que aumenta o mau cheiro devido às enchentes da chuva. Há dutos que estouram no percurso, na beira do córrego, por causa do acúmulo de água e da enxurrada, o que compromete ainda mais a situação.”

O morador também descreveu o efeito do odor sobre o comércio local e sobre a valorização dos imóveis mais próximos da estação:

“Quem trabalha no comércio dessa região é quem mais se preocupa, porque a pessoa não vai lanchar onde tem mais odor, mesmo morando ali por perto; ela procura um local mais distante para se afastar. Até eventos em casa, comemorações os moradores evitam fazer porque quem vem de fora não dá conta. O comércio, o mercado, tudo tem uma tendência de perder volume de venda devido a essa situação, e os terrenos ficam mais baratos, desvalorizados por causa disso.”

O Jornal Opção Tocantins entrou em contato com a BRK Ambiental, responsável pelo serviço de saneamento, para solicitar uma entrevista sobre as reclamações e os pontos levantados pela pesquisa. A concessionária informou que, no momento, não tinha disponibilidade para conceder entrevista sobre o assunto. A reportagem também procurou a Prefeitura de Palmas, que foi questionada sobre as medidas adotadas em relação ao problema e, até a publicação desta matéria, aguardava retorno.