Antes de aparecerem no escândalo do lixo hospitalar que atingiu a família do deputado estadual Olyntho Neto (MDB) em Araguaína, empresas e personagens investigados no caso já haviam passado pelos contratos públicos de Novo Repartimento, no sudeste do Pará. Na época, o atual deputado federal e candidato ao Senado pelo Tocantins Alexandre Guimarães (MDB) era vice-prefeito do município.

Em 2017, a prefeitura contratou primeiro a Sólida Construtora e Incorporadora para serviços de limpeza urbana e coleta de resíduos. Nos documentos do contrato, a empresa era representada por Luiz Olinto Rotoli Garcia de Oliveira, irmão de Olyntho. Meses depois, a Sancil Sanantonio venceu uma licitação para serviços que incluíam coleta, transporte, tratamento e destinação de resíduos. Os contratos decorrentes do procedimento somavam R$ 5,88 milhões.

Pouco mais de um ano depois, Sancil e Luiz Olinto voltariam a aparecer na mesma história, desta vez no Tocantins e em uma investigação policial. Em novembro de 2018, toneladas de resíduos hospitalares foram encontradas em um galpão no Distrito Agroindustrial de Araguaína. Outros resíduos apareceram enterrados em uma propriedade rural. A investigação avançou sobre a Sancil, empresas relacionadas à família Olinto e integrantes da família.

Alexandre continuava na vice-prefeitura de Novo Repartimento quando o caso estourou. Cinco meses depois, em 16 de abril de 2019, entregou sua renúncia à Câmara Municipal. Ele havia sido eleito para permanecer no cargo até o fim de 2020. O pedido foi lido aos vereadores e a notícia publicada naquele dia registrou que o motivo da saída não havia sido divulgado.

Antes de Araguaína

Natural de Araguaína, Alexandre construiu parte de sua primeira trajetória política no Pará. Presidiu a Associação Comercial de Novo Repartimento, disputou uma cadeira de deputado estadual paraense em 2014 e, dois anos depois, foi eleito vice-prefeito. Assumiu o cargo em janeiro de 2017 e passou a integrar uma administração que, já nos primeiros meses daquele ano, precisou contratar uma empresa para cuidar da limpeza urbana e da coleta de lixo.

A prefeitura recorreu inicialmente a uma contratação emergencial da Sólida Construtora e Incorporadora Ltda. O serviço incluía varrição, coleta regular de resíduos domiciliares e comerciais e transporte do material. Nos documentos da contratação, Luiz Olinto aparece como representante da empresa. Ele é advogado, irmão de Olyntho Neto e filho do ex-juiz eleitoral João Olinto, nomes que ainda não estavam associados publicamente ao caso que surgiria no Tocantins no ano seguinte.

Meses depois, a Prefeitura de Novo Repartimento abriu o Pregão Presencial nº 9/2017-028 para substituir a contratação emergencial por um serviço mais amplo. O edital abrangia coleta e transporte de lixo domiciliar e comercial, conservação de vias e também coleta, transporte, tratamento e destinação final de resíduos dos serviços de saúde. A vencedora dos seis itens foi outra empresa tocantinense, a Sancil Sanantonio.

Do procedimento saíram dois contratos com valor total de R$ 5,88 milhões. O maior, de R$ 5,7 milhões, abrangia os serviços gerais de limpeza e resíduos. Outro, de R$ 180 mil, foi firmado pelo Fundo Municipal de Saúde especificamente para coleta, transporte, tratamento e destinação final do material produzido pelas unidades de saúde. Ambos começaram a vigorar em 14 de julho de 2017, quando Alexandre ocupava a vice-prefeitura.

A atuação de Alexandre naquele período não ficou restrita à condição formal de vice. Em momentos de afastamento do titular, ele assumiu o comando do município. Documentos oficiais de Novo Repartimento registram atos assinados por Alexandre como prefeito em exercício, inclusive no segundo semestre de 2017, período em que os contratos da Sancil estavam vigentes.

A Sancil atravessa a divisa

A relação da Sancil com o poder público não ficou restrita ao Pará. Em 2018, a empresa foi contratada emergencialmente pela Secretaria da Saúde do Tocantins para recolher resíduos de hospitais estaduais. O acordo previa pagamentos de R$ 557 mil mensais e poderia superar R$ 6 milhões em um ano. A Secretaria da Saúde afirmou posteriormente que a empresa não chegou a receber porque não comprovou a destinação adequada do material.

Em 7 de novembro daquele ano, fiscais encontraram toneladas de lixo hospitalar armazenadas em um galpão no Distrito Agroindustrial de Araguaína. Os resíduos haviam saído de hospitais públicos e estavam sob responsabilidade da Sancil. A descoberta abriu uma investigação que passou a apurar a destinação do material, a contratação da empresa pelo governo estadual e as pessoas e companhias relacionadas ao negócio.

O galpão onde parte do lixo estava armazenada pertencia à Agromaster. A investigação identificou relações societárias envolvendo a empresa, a Pronorte Empreendimentos Rurais e outras companhias associadas a integrantes da família Olinto. A Polícia Civil também encontrou um caminhão que teria sido utilizado no transporte dos resíduos e avançou sobre outros endereços relacionados ao caso.

Dias depois, a investigação chegou à Fazenda Caité, entre Araguaína e Wanderlândia, onde policiais encontraram resíduos hospitalares enterrados. O Naturatins constatou a presença de material biológico contaminante depositado irregularmente no solo e aplicou quatro multas à Pronorte, que somaram R$ 3,275 milhões. A propriedade e as relações empresariais identificadas durante as diligências levaram os investigadores novamente à família Olinto.

Luiz Olinto, que no ano anterior aparecia como representante da Sólida no contrato de Novo Repartimento, foi preso durante as investigações. Seu pai, João Olinto, chegou a ser considerado foragido antes de se apresentar à polícia. A apuração policial examinou a participação dos dois e as relações que mantinham com as empresas envolvidas na coleta e na destinação dos resíduos.

Olyntho Neto, então deputado estadual e líder do governo na Assembleia Legislativa, também passou a ser investigado em inquéritos relacionados ao episódio. Um deles apurava suas relações com empresas vinculadas aos locais onde os resíduos foram encontrados. Outro surgiu depois que um documento encontrado em cartório indicou que um assessor parlamentar tinha autorização da Sancil para representá-la em contratações com o poder público. Olyntho negou envolvimento nas irregularidades, afirmou que prestaria os esclarecimentos solicitados e deixou a liderança do governo durante a crise.

As investigações aproximavam, assim, nomes que já haviam aparecido nos contratos de Novo Repartimento. Em 2017, Luiz Olinto representava a Sólida na contratação emergencial para trabalhar com resíduos no município. Depois, a Sancil venceu a licitação que substituiu aquele serviço. Em 2018, Luiz e a Sancil apareceriam novamente, agora no mesmo inquérito policial aberto no Tocantins.

Os contratos chegaram a 2018

A relação entre Novo Repartimento e a Sancil não terminou em dezembro de 2017. Registros do Tribunal de Contas dos Municípios do Pará mostram que os contratos receberam termos aditivos e permaneceram vigentes em 2018. A empresa continuou vinculada ao município para serviços que incluíam coleta e tratamento de resíduos justamente no ano em que seu nome apareceria no centro da investigação em Araguaína.

Alexandre também continuava vice-prefeito. Além de ocupar o cargo durante o período das contratações, ele havia assumido temporariamente a prefeitura. Os documentos localizados pela reportagem até agora não atribuem a ele a assinatura dos contratos originais da Sólida ou da Sancil, mas mostram que as duas empresas passaram pela administração municipal durante seu mandato e que a Sancil continuou contratada no ano seguinte.

A sequência dos contratos chama atenção também pela repetição dos personagens. Primeiro aparece a Sólida, representada por Luiz Olinto, numa contratação emergencial. Depois, a Sancil vence a licitação definitiva. No ano seguinte, Luiz Olinto e a Sancil passam a figurar na investigação sobre o lixo hospitalar no Tocantins, ao lado de outros integrantes e empresas relacionados à família Olinto.

Cinco meses depois, a renúncia

O caso do lixo hospitalar veio a público em novembro de 2018, quando Alexandre ainda exercia a vice-prefeitura de Novo Repartimento. Nos meses seguintes, a Polícia Civil ampliou as diligências, realizou prisões, apreendeu documentos e aprofundou a apuração sobre empresas e pessoas relacionadas à destinação dos resíduos. Em janeiro de 2019, parte das investigações da Operação Expurgo foi concluída com o indiciamento de João Olinto, Luiz Olinto e outras pessoas, além de empresas citadas no inquérito.

Três meses depois, Alexandre decidiu interromper o mandato para o qual havia sido eleito até dezembro de 2020. Em 16 de abril de 2019, encaminhou à Câmara Municipal uma carta de renúncia à vice-prefeitura. O documento foi protocolado pela manhã e lido durante a sessão dos vereadores. Alexandre deixou o cargo um ano e oito meses antes do término previsto do mandato.

A notícia publicada em Novo Repartimento naquele mesmo dia informou que o motivo da renúncia não havia sido divulgado. A saída ocorreu cinco meses depois da descoberta do lixo hospitalar em Araguaína e cerca de três meses depois da conclusão de parte da investigação policial que alcançou Luiz Olinto, representante da empresa contratada pelo município paraense em 2017, e a Sancil, que a sucedeu nos serviços de resíduos.

A cronologia começa, portanto, dois anos antes da saída de Alexandre. Em 2017, a Sólida, representada por Luiz Olinto, foi contratada emergencialmente em Novo Repartimento. Ainda naquele ano, a Sancil venceu a licitação e recebeu contratos que somavam R$ 5,88 milhões. Os vínculos contratuais chegaram a 2018. Em novembro, a investigação do lixo hospitalar alcançou a Sancil e integrantes da família Olinto no Tocantins. Em janeiro de 2019, a Polícia Civil concluiu parte do inquérito. Em abril, Alexandre renunciou à vice-prefeitura.

Do Pará de volta a Araguaína

A renúncia encerrou a passagem de Alexandre pela política municipal de Novo Repartimento, mas não sua carreira eleitoral. Três anos depois, ele voltou às urnas pelo estado onde nasceu. Em 2022, foi eleito deputado federal pelo Tocantins e tomou posse na Câmara em fevereiro de 2023. Mais tarde, filiou-se ao MDB, partido pelo qual disputa agora uma das duas cadeiras do estado no Senado.

Olyntho Neto também está no MDB e tenta renovar o mandato de deputado estadual. Os dois têm em Araguaína uma de suas principais bases políticas e hoje dividem atos da campanha eleitoral. A proximidade partidária coloca no mesmo grupo dois políticos cujas trajetórias já haviam aparecido, anos antes, em pontos distintos dos documentos e das investigações relacionadas ao lixo hospitalar.

Quando Alexandre era vice-prefeito no Pará, Novo Repartimento contratou primeiro a empresa representada por Luiz Olinto, irmão de Olyntho, e depois a Sancil. Quando o caso chegou às páginas policiais do Tocantins, Olyntho e integrantes de sua família passaram a aparecer nas investigações sobre empresas e o destino dado aos resíduos hospitalares. Cinco meses depois do início do escândalo, Alexandre encerrou antecipadamente seu mandato no Pará.

Sete anos depois, Alexandre e Olyntho estão no mesmo partido e novamente têm Araguaína como ponto de encontro. O primeiro tenta deixar a Câmara dos Deputados para chegar ao Senado. O segundo busca permanecer na Assembleia Legislativa. A história dos dois, hoje reunida pela política tocantinense, já havia passado pelos mesmos nomes empresariais muito antes da campanha de 2026.