A pressão por resultados, a rotina intensa e as relações interpessoais no ambiente profissional estão entre os fatores que contribuem para o aumento dos casos de estresse relacionados ao trabalho. Embora seja frequentemente associado ao cotidiano laboral, o problema pode afetar a saúde física e mental quando não há controle adequado dos sintomas.

O estresse no trabalho é vivenciado diariamente por um número crescente de pessoas. Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, a psicóloga e jornalista Raimara Lourenço destaca que o adoecimento mental no ambiente profissional deixou de ser algo pontual e passou a representar um risco epidemiológico. “Os dados mais recentes do Ministério da Previdência Social e do INSS mostram que o Brasil registrou cerca de 472 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais no último ano, o que representa um aumento de aproximadamente 68% em relação a 2023, quando houve cerca de 283 mil casos”, afirma.

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Psicóloga e jornalista, Raimara Lourenço | Foto: Arquivo pessoal

Segundo a especialista, entre os principais motivos dos afastamentos estão transtornos de ansiedade, episódios depressivos, depressão recorrente e casos relacionados ao esgotamento profissional, conhecido como burnout.

Raimara explica que os impactos do ambiente profissional vão além do expediente e podem atingir outras áreas da vida. “Todas as pessoas possuem outros papéis sociais além do trabalho. Por isso, os conflitos no ambiente profissional podem gerar sentimentos de injustiça, medo e desvalorização, além de afetarem diretamente o clima organizacional”, ressalta.

A psicóloga também alerta para os efeitos da pressão excessiva por metas e produtividade. “Muitos trabalhadores acabam ignorando os próprios limites físicos e emocionais, aumentando o risco de esgotamento”, pontua.

Pressão no trabalho levou jovem a pedir desligamento 

Para um jovem morador de Palmas, que preferiu não se identificar, a decisão de deixar o emprego aconteceu após perceber que o estresse começou a afetar a produtividade e a forma como enxergava o próprio desempenho profissional. “A decisão veio ao longo do tempo, conforme passei a sentir que o escopo do trabalho estava além da minha competência profissional, isso em decorrência do estresse que impactava negativamente a produtividade e a auto percepção do trabalho”, relata.

Segundo ele, o processo de desligamento ocorreu de forma tranquila, mas a principal preocupação esteve relacionada à estabilidade financeira após a saída do emprego. “Processualmente, foi bastante simples e direto. Eu informei o meu desligamento ao responsável administrativo, que me acompanhou ao longo do desligamento; o que foi com certeza mais difícil foi conciliar a decisão com o custo de vida, além do tempo necessário até ter novamente uma fonte de renda estável”, afirma.

O entrevistado relata que os sinais de desgaste emocional começaram a surgir quando as preocupações com o trabalho passaram a ultrapassar o horário do expediente e interferir na rotina diária. “Mesmo saindo do trabalho no final do dia, era natural continuar pensando sobre o que foi feito, em como melhorar processos ou encontrar formas mais fáceis de realizar as tarefas do cotidiano”, conta.

Ele afirma que a situação passou a preocupar quando começou a antecipar problemas e perceber mudanças no humor e no interesse pelas atividades profissionais. “Quando eu passei a ter essa sensação antecipando problemas que não haviam acontecido foi quando percebi que o trabalho estava afetando meu humor e cotidiano, me sentindo mais cansado, com menos interesse no trabalho e mais dúvidas sobre o quão bem eu estava me saindo a cada dia”, diz.

Segundo o jovem, as dificuldades no ambiente profissional passaram a interferir em outras áreas da vida, criando um ciclo de desgaste emocional e queda no rendimento. “Como está tudo bastante conectado, ter um dia particularmente difícil no trabalho afeta tudo o que vem adiante, e isso pode reforçar um ciclo em que o cansaço mental dificulta e piora a qualidade do trabalho executado”, relata.

Ele afirma ainda que a mudança de ambiente profissional ajudou a recuperar a confiança e a lidar melhor com situações comuns da rotina de trabalho.“Buscar outro ambiente ajudou a melhorar a confiança no meu trabalho, além de aprender a lidar melhor com questões que fazem parte do cotidiano profissional, como prazos, relações interpessoais e planejamento financeiro”, conclui.

Nova norma prevê medidas de prevenção

De acordo com Raimara Lourenço, a partir de 26 de maio deste ano, passa a ser obrigatória a adequação das empresas que possuem empregados no regime CLT à NR-01, norma que estabelece a construção e implementação do Plano de Gerenciamento de Risco em Adoecimento Ocupacional (PGR), incluindo riscos de adoecimento mental.

A atualização da norma prevê a identificação e o mapeamento de riscos psicossociais, ergonômicos e químicos dentro das organizações, além da elaboração de estratégias voltadas à prevenção de doenças ocupacionais. “O principal objetivo é reduzir os índices de adoecimento relacionados ao trabalho e criar ambientes mais saudáveis”, explica.

Medidas podem ajudar na saúde mental

A especialista destaca que algumas práticas podem contribuir para reduzir os impactos do estresse no ambiente profissional. Entre elas estão o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, a realização de pausas durante o expediente, a manutenção de hábitos saudáveis, a prática de atividades físicas e momentos de lazer.

Ela também defende a promoção de ambientes corporativos mais acolhedores, com incentivo à comunicação respeitosa, apoio entre colegas e conscientização sobre a importância da busca por ajuda psicológica quando os sinais de sofrimento emocional persistirem. “É fundamental que empresas promovam ações voltadas à saúde mental e à qualidade de vida dos trabalhadores”, conclui.