Mesmo com a comercialização proibida no Brasil desde 2009 por resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os cigarros eletrônicos seguem despertando o interesse de adolescentes e jovens brasileiros. Coloridos, discretos, com design tecnológico e essências adocicadas que vão de chocolate e baunilha a manga, hortelã e chiclete, os chamados vapes ou pods ganharam espaço sobretudo entre estudantes, promovidos pela aparência moderna, pela ausência do cheiro forte do cigarro convencional e pela aceitação constante em ambientes sociais. No Tocantins, os números mais recentes mostram que o fenômeno já alcançou proporções alarmantes.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (|IBGE), apontam que o Tocantins ocupa a 7ª posição no ranking nacional de experimentação de cigarros eletrônicos entre adolescentes de 13 a 17 anos, com índice de 37%. Apenas Mato Grosso do Sul (48,2%), Paraná (44,9%), Distrito Federal (43,7%), Mato Grosso (41,4%), Goiás (39,2%) e Santa Catarina (38,7%) registraram percentuais superiores.

Entre as capitais brasileiras, Palmas aparece em posição ainda mais preocupante. A capital tocantinense ocupa o 8º lugar nacional, com 34,9% dos adolescentes afirmando já ter experimentado cigarros eletrônicos. O índice coloca a cidade atrás apenas de Brasília (43,7%), Campo Grande (43,5%), Cuiabá (42,3%), Goiânia (41%), Curitiba (40,2%), São Paulo (38,7%) e Florianópolis (36,8%).

Tanto no cenário estadual quanto em Palmas, os dados seguem a mesma tendência: as meninas aparecem entre as que mais já experimentaram cigarros eletrônicos em comparação aos meninos, enquanto a maior predominância de adolescentes que relataram uso está entre estudantes de escolas públicas.

Para o médico Cláudio Rychelm Carvalho de Jesus, residente do segundo ano de Clínica Médica da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e em preparação para a subespecialidade em pneumologia, o crescimento do uso dos dispositivos eletrônicos entre jovens exige atenção urgente das políticas públicas e da sociedade.

Cláudio Rychelm Carvalho de Jesus | Foto: Divulgação

Doenças, dependência, riscos de morte

Segundo ele, embora muitos adolescentes associem os cigarros eletrônicos a uma alternativa “menos nociva” ao cigarro convencional, os riscos já identificados pela literatura médica são consideráveis e incluem desde dependência severa até doenças respiratórias graves.

“Quando a gente fala dos dispositivos eletrônicos de vaporização, a gente pode considerar vários efeitos, dentre eles a exposição à nicotina, a mesma substância dos cigarros convencionais. Assim como ocorre com o tabagismo, isso pode aumentar a frequência cardíaca, produzir níveis elevados de cotinina no sangue e gerar aumento do risco cardiovascular”, explica.

O médico afirma que os impactos cardiovasculares associados ao uso incluem maior probabilidade de desenvolvimento de hipertensão, infarto agudo do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais ao longo do tempo. Apesar de os cigarros eletrônicos não funcionarem por combustão, como ocorre no cigarro convencional, Cláudio alerta que isso não significa ausência de toxicidade.

“Os cigarros eletrônicos fabricados comercialmente não expõem o usuário a muitos dos componentes da fumaça do cigarro convencional, porém a maioria contém uma série de substâncias químicas potencialmente tóxicas, algumas inclusive cancerígenas como propilenoglicol e glicerol”, ressalta.

A Evali

Outro ponto de alerta destacado pelo especialista é a Evali, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos e vaporizadores, identificada a partir de 2019, em meio ao crescimento do consumo desses dispositivos entre jovens: “É uma síndrome que causa uma doença respiratória aguda grave, frequentemente fatal, relacionada às substâncias tóxicas presentes nos cigarros eletrônicos, como o acetato de vitamina E e o THC”, explica.

Segundo ele, os sintomas podem incluir tosse, falta de ar, dor no peito, febre, calafrios, vômitos e diarreia e em casos mais severos, há queda na saturação de oxigênio e necessidade de internação hospitalar.

Embora muitos usuários considerem o vape uma opção “mais leve” que o cigarro tradicional, Cláudio ressalta que os dois produtos atuam de formas diferentes, mas ambos apresentam potencial de causar danos importantes: “No cigarro convencional nós temos combustão de produtos à base de nicotina e alcatrão que tendem a causar efeitos progressivos e permanentes, como doença pulmonar obstrutiva crônica, aumento significativo do risco cardiovascular e neoplasias pulmonares. Os dispositivos eletrônicos funcionam por aquecimento de compostos à base de nicotina e outros produtos químicos. A longo prazo ainda não temos estudos conclusivos, mas já temos a presença da Evali como eu disse, da dependência e do aumento do risco cardiovascular relatado na literatura”, pontua.

O médico também rebate a ideia de que o uso esporádico não oferece riscos aos adolescentes. Para ele, mesmo o consumo ocasional já representa ameaça ao desenvolvimento dos jovens, os adolescentes passam a adquirir fatores de risco para doenças graves mesmo sem histórico prévio de problemas de saúde.

Os sintomas iniciais do uso podem parecer discretos, o que contribui para a banalização do consumo entre os jovens. Segundo Cláudio Michel, irritabilidade, tosse persistente, falta de ar progressiva, chiado no peito e sensação de aperto torácico estão entre os sinais mais comuns, que também servem de alerta para os pais.

Outro aspecto apontado pelo especialista é o alto potencial de dependência química provocado pelos dispositivos eletrônicos: “O vape pode causar dependência porque tem uma concentração de nicotina até muito mais alta do que o cigarro convencional, podendo chegar a até 80 vezes mais. Isso está relacionado a quadros de dependência rápida, severa e muitas vezes até mais intensa que a do cigarro convencional”, afirma.

Para o médico, o enfrentamento do problema passa necessariamente por campanhas de conscientização e políticas públicas voltadas aos adolescentes.

“Fortalecer campanhas públicas e campanhas de saúde pública é fundamental, deixando muito bem claros os efeitos relacionados principalmente aos jovens. Na minha opinião, as nossas políticas de saúde pública continuam deficitárias e precisam voltar um olhar para esses usuários”, diz.

Portas abertas para outros vícios nocivos

O especialista também destaca que o uso de cigarros eletrônicos costuma aparecer associado a outros comportamentos de risco, especialmente o consumo de álcool.

“Tem que ter um olhar muito abrangente em relação à qualidade de vida do jovem. Geralmente existe forte associação entre o uso do álcool e o cigarro eletrônico. Nunca o problema mora somente no cigarro. O paciente que usa um dispositivo desse geralmente vem com outros problemas abrangentes e a gente precisa tratar o jovem como um todo”, afirma.

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins informou que, em 2025, 877 tabagistas foram atendidos em todo o estado por meio de ações de promoção à saúde e apoio à cessação do tabagismo. Já entre janeiro e abril de 2026, foram registrados 143 atendimentos em dados parciais de 10 municípios.

A pasta esclareceu, porém, que ainda não existem dados específicos relacionados exclusivamente ao uso de cigarros eletrônicos. Segundo a secretaria, os registros disponíveis abrangem, de forma geral, usuários que procuram os serviços de saúde para interromper o uso do tabaco.

A SES-TO também reconheceu que grande parte dos usuários de dispositivos eletrônicos é formada por adolescentes, público que ainda demonstra baixa procura pelos serviços de cessação.

No posicionamento, a secretaria reforça que o tabaco segue como a principal causa evitável de mortes no mundo, conforme dados da Organização Mundial da Saúde, sendo responsável por mais de 8 milhões de óbitos anuais. A interrupção do uso traz benefícios importantes, como melhora da capacidade pulmonar, aumento da disposição e redução progressiva do risco de doenças cardiovasculares e pulmonares, incluindo a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).