A Justiça do Tocantins aceitou a denúncia apresentada pelo Ministério Público Estadual (MPTO) contra o advogado Igor Veloso de Sousa e Kathellen Moreira da Silva, pai e madrasta de Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, encontrado morto em uma residência de Palmas. Com a decisão do juiz Cledson José Dias, da 1ª Vara Criminal da capital, os dois passaram à condição de réus no processo que apura a morte da criança, ocorrida em 2 de agosto de 2026.

O advogado responderá pelos crimes de vicaricídio, estupro de vulnerável, tortura e fraude processual. Já Kathellen é acusada de vicaricídio, por suposta omissão diante das agressões praticadas contra o enteado, além de fraude processual. Ambos permanecem presos desde, 6 de agosto.

Na denúncia, o MPTO também solicitou que os acusados sejam submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri e condenados ao pagamento de R$ 100 mil como reparação pelos danos causados à família da vítima. O recebimento da denúncia representa o início da ação penal, mas não significa condenação nem determina, por si só, que os réus serão levados a júri.

A investigação conduzida pela Polícia Civil foi concluída no fim de setembro, com o indiciamento do casal. Durante a apuração, os investigadores identificaram indícios de agressões físicas e violência sexual contra a criança, além de alterações no local onde o corpo foi encontrado.
Versão de afogamento foi descartada pela perícia
Gustavo morreu enquanto passava o fim de semana na residência do pai, em Palmas. Segundo a investigação, Igor procurou a polícia somente no fim da tarde do dia seguinte à morte e relatou que o menino havia se afogado na piscina, expelido água e, posteriormente, morrido enquanto dormia.

A versão apresentada pelo advogado, entretanto, não foi confirmada pelos exames periciais. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) descartou sinais de afogamento, enquanto as investigações apontaram que o corpo da criança apresentava marcas de violência.

A Polícia Civil também constatou que o ambiente havia sido modificado antes da chegada das autoridades. Conforme a apuração, o corpo de Gustavo foi higienizado, teve as roupas substituídas e foi colocado sobre uma cama, envolto em um edredom. Para os investigadores, as alterações tinham o objetivo de simular uma morte natural durante o sono.

Em depoimento à polícia, Igor admitiu ter agredido o filho no dia da morte. Segundo o delegado responsável pelo caso, o advogado relatou que ficou irritado após Gustavo afirmar que a mãe havia permitido que ele entrasse na piscina.
Histórico de agressões e investigação por vicaricídio
As investigações também consideraram registros anteriores à morte da criança. Desde 2024, a mãe de Gustavo, Sabrina Feitosa, havia identificado lesões, hematomas e arranhões no filho após períodos de convivência com o pai.

Em um dos episódios, Sabrina gravou vídeos nos quais o menino aparecia chorando e resistindo a retornar à residência paterna. Nas imagens, Gustavo dizia: “Ele me bate”.

Para fundamentar o indiciamento por vicaricídio, a Polícia Civil analisou ainda o histórico do relacionamento entre Igor e Sabrina. Conforme os investigadores, a relação foi marcada por ameaças de morte e situações de desamparo financeiro atribuídas ao advogado contra a ex-companheira.

A apuração considerou a possibilidade de que a violência contra Gustavo estivesse relacionada à intenção de atingir emocionalmente a mãe da criança, hipótese que integra a acusação apresentada à Justiça.
Madrasta teve pedidos de prisão domiciliar negados
Kathellen Moreira da Silva tentou obter autorização judicial para cumprir a prisão preventiva em casa, mas o pedido foi rejeitado pela 1ª Vara Criminal de Palmas, ainda em agosto.

A defesa recorreu ao Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO), argumentando que a prisão estaria sendo utilizada como instrumento de investigação. Os advogados também destacaram que Kathellen é mãe de um bebê que, à época, tinha cinco meses e estava em fase de amamentação.

O recurso foi analisado pela Câmara Criminal do TJTO, que decidiu, por unanimidade, manter a prisão preventiva da acusada.

Com o recebimento da denúncia, o processo segue para a fase de instrução, na qual poderão ser produzidas provas e ouvidas testemunhas. Posteriormente, a Justiça deverá avaliar se existem elementos suficientes para submeter os acusados ao Tribunal do Júri.

A defesa dos dois foi procurada pela imprensa, mas não se manifestou até o momento.

*Com informações da TV Anhanguera