O professor sumiu. Alguém viu?
24 maio 2026 às 13h29

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Por Fernando Maciel Vieira
Ele estava aqui outro dia. Corrigindo provas às onze da noite, planejando aula no fim de semana, respondendo mensagem de pai no domingo à tarde — porque, claro, domingo é dia útil quando você é professor. Estava aqui, sim. Mas ninguém parece ter notado muito. E agora que ele começa a sumir de verdade — pelo esgotamento, pelo silêncio institucional, pela sensação crescente de que sua presença em sala de aula importa menos do que o aplicativo que prometem colocar no lugar dele — todo mundo estranha.
Curioso, não?
O Brasil tem hoje cerca de 2,2 milhões de professores na educação básica pública. São homens e mulheres que acordam cedo, enfrentam ônibus lotado ou estrada de terra, chegam à escola com o caderno de planejamento debaixo do braço e a esperança — às vezes já meio amassada — de que hoje vai ser diferente. E o que encontram? Salas superlotadas, estrutura que chora por reforma, salário que não fecha a conta e, o pior de tudo, uma invisibilidade institucional que dói mais do que qualquer goteira no teto da escola.
Porque goteira no teto você tampa. Invisibilidade, não.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano que entende de esgotamento humano melhor do que qualquer secretaria de educação, dizia que a sociedade do desempenho cria sujeitos que se exploram a si mesmos com muito mais eficiência do que qualquer patrão conseguiria. O professor é o exemplo perfeito dessa equação trágica. Ele se cobra, se culpa, se desdobra — e quando finalmente quebra, a narrativa pronta já está no jornal: falta vocação. Como se vocação fosse anestesia. Como se amor à profissão pagasse boleto.
Paulo Freire, que conhecia a sala de aula por dentro, não por decreto, dizia que ensinar exige alegria e esperança. Mas esperança não nasce no vazio — ela precisa de chão. E o chão do professor brasileiro está cedendo há anos, aos poucos, silenciosamente, enquanto todo mundo debate outra coisa.
Enquanto isso, o professor adoece.
Os dados do INSS mostram que transtornos mentais e comportamentais figuram entre as principais causas de afastamento entre profissionais da educação. Não é fraqueza. É matemática: some sobrecarga, some desvalorização, some ausência de apoio, some a sensação de que você grita numa sala e o eco que volta é o silêncio da gestão — e o resultado é uma pessoa que um dia simplesmente não consegue mais se levantar da cama. Não por preguiça. Por exaustão de existir dentro de um sistema que consome sem repor.
E a sociedade? A sociedade aplaude o professor no Dia dos Professores, posta foto com frase bonita, coloca coração nos stories — e no dia seguinte vota em candidato que corta verba da educação. É uma relação bonita, essa. Muito conveniente também.
Zygmunt Bauman, com aquela lucidez que incomoda, nos lembrava que vivemos num tempo de vínculos líquidos, onde tudo que é sólido se dissolve rápido demais. O compromisso com a educação pública virou exatamente isso: líquido. Escorrega entre os dedos do orçamento, evapora nos discursos eleitorais, desaparece quando a conta não fecha. E o professor fica lá, tentando construir algo sólido — conhecimento, caráter, futuro — com material que o próprio Estado se recusa a fornecer.
Mas veja bem: não se trata apenas de justiça com o professor. Trata-se de sobrevivência coletiva.
Nenhuma nação que humilha seus educadores chegou longe. Isso não é romantismo — é história. Finlândia, Coreia do Sul, Japão: países que entenderam que professor não é gasto, é investimento estratégico. Que sala de aula não é depósito de crianças — é o lugar onde se fabrica, com paciência e método, a civilização que virá depois. Enquanto o Brasil ainda debate se professor precisa de formação continuada ou se basta um tablet e um vídeo no YouTube.
O abandono do professor não é só injusto. É burrice coletiva de longa duração.
Hannah Arendt dizia que a educação é o momento em que decidimos se amamos o mundo o suficiente para assumir responsabilidade por ele. Pois bem: abandonar o professor é a resposta mais honesta que uma sociedade pode dar a essa pergunta. É dizer, em alto e bom som, que não. Que o futuro pode esperar. Que criança pode se virar. Que o amanhã não é problema de hoje.
Só que o amanhã sempre chega. E ele chega exatamente do jeito que a gente o preparou — ou deixou de preparar.
O professor está aqui, ainda. Cansado, sim. Machucado, com frequência. Mas ainda de pé, ainda planejando aula, ainda acreditando — com uma teimosia que beira o inexplicável — que aquela turma difícil de sexta-feira à tarde pode surpreender. Essa resistência silenciosa é, provavelmente, o maior ato de amor que esta república recebe todos os dias.
A questão é simples, e o leitor já sabe a resposta: quanto tempo ainda vamos fingir que isso é normal?
