Overclean e R$ 20 milhões fora do Tocantins devem acompanhar Vicentinho na campanha
15 agosto 2026 às 10h40

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A disputa pelo governo do Tocantins deve obrigar o candidato Vicentinho Júnior (PSDB) a responder por episódios de sua trajetória parlamentar que, até agora, tiveram impacto limitado sobre uma eleição estadual. A Operação Overclean, investigação da Polícia Federal que apontou supostos pagamentos ao deputado, e a indicação de R$ 20 milhões para municípios da Bahia e do Ceará no período do chamado orçamento secreto estão entre os assuntos com potencial para reaparecer durante a campanha.
Os dois casos são diferentes, tanto do ponto de vista jurídico quanto político. Também não é necessário que apareçam diretamente nos programas eleitorais dos adversários para que cheguem ao eleitor. A circulação de vídeos, recortes de reportagens, documentos e publicações por páginas e perfis nas redes sociais permite que episódios negativos sejam recuperados sem vinculação pública com uma candidatura. Nesse ambiente, identificar quem colocou determinado assunto novamente em circulação nem sempre é possível.
É justamente por isso que o histórico de Vicentinho passa a ter outro peso. Deputado federal desde 2015, ele agora disputa pela primeira vez o comando do executivo estadual. O que durante seus mandatos na Câmara poderia ficar restrito ao debate sobre sua atuação parlamentar passa a ser material para o confronto entre candidatos ao Palácio Araguaia.
Overclean é o ponto mais recente
A Overclean é o episódio mais recente. A Polícia Federal apontou indícios de que Vicentinho teria sido beneficiário de pagamentos que somam R$ 420 mil. Segundo a investigação, parte dos recursos chegou a uma empresa registrada em nome de sua mulher. Os investigadores relacionaram as transferências a registros identificados pelo codinome “VIC” em documentos apreendidos pela operação.
A PF chegou a pedir busca e apreensão e o bloqueio de R$ 420 mil em bens do casal. A Procuradoria-Geral da República se posicionou contra as medidas por entender que não havia sido demonstrada, naquele momento, ligação direta entre os pagamentos apontados e um ato de Vicentinho relacionado ao contrato público investigado. O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, acompanhou a manifestação da PGR e negou os pedidos. Vicentinho nega irregularidades.
Esse é um detalhe importante porque estabelece a dimensão exata do caso: existem suspeitas levantadas pela PF, mas não uma condenação contra Vicentinho. Ao mesmo tempo, a negativa das medidas solicitadas pela Polícia Federal não impede que o conteúdo da investigação seja recuperado durante a campanha.
No ambiente eleitoral, essa distinção jurídica pode perder espaço para mensagens muito mais curtas. O nome do candidato, a sigla da PF, os R$ 420 mil e os contratos investigados no Tocantins cabem em poucos segundos de vídeo. A decisão do STF, a posição da PGR e a resposta de Vicentinho exigem contexto. É nessa diferença entre a complexidade do processo e a velocidade das redes que está uma das dificuldades que a candidatura poderá enfrentar.
Vicentinho já demonstrou que acompanha esse tipo de movimento. Em dezembro de 2025, quando reportagens relacionaram seu nome à Overclean, publicou vídeo para negar irregularidades e afirmou não acreditar que a divulgação das informações naquele momento fosse coincidência.
Os R$ 20 milhões fora do estado
O segundo episódio tem uma leitura menos jurídica e mais política. Em 2021, foram revelados documentos segundo os quais Vicentinho havia assinado ofício direcionando R$ 20 milhões do Ministério da Agricultura para três municípios fora do Tocantins.
Jussara e São Gabriel, na Bahia, foram indicados para receber R$ 5 milhões cada para estradas vicinais. Parambu, no Ceará, apareceu como destino de outros R$ 10 milhões. Os recursos estavam inseridos no mecanismo das emendas de relator, o RP9, que ficou conhecido como orçamento secreto.
Aqui, a dificuldade eleitoral para Vicentinho está na simplicidade da pergunta que um adversário pode fazer: por que um deputado eleito pelo Tocantins indicou R$ 20 milhões para Bahia e Ceará?
A pergunta não significa que tenha ocorrido ilegalidade nem que Vicentinho tenha deixado de destinar recursos ao Tocantins. O problema político está na necessidade de explicar uma decisão tomada quando ele representa o Tocantins no Congresso, não Bahia ou Ceará.
Na época, Vicentinho afirmou que exercia a vice-liderança de bloco e havia atuado como relator setorial da Agricultura, funções pelas quais participava de discussões sobre destinações orçamentárias. “Não fiz e não faço nada ilegal ou imoral no exercício do mandato”, declarou.
Uma campanha que não passa apenas pelos candidatos
É provável que parte da disputa em torno desses assuntos ocorra fora dos espaços tradicionais da propaganda eleitoral. Isso não significa atribuir antecipadamente a adversários a produção de conteúdo anônimo, algo que só poderia ser afirmado mediante prova. Significa reconhecer uma característica das campanhas atuais: reportagens antigas podem voltar a circular por perfis, páginas, grupos de mensagens e contas cuja relação com partidos ou candidatos não está identificada.
Para Vicentinho, essa diferença importa. Uma acusação feita no horário eleitoral permite identificar o autor e responder ao adversário. Uma publicação que ganha alcance nas redes pode obrigar a campanha a reagir sem sequer saber de onde partiu ou quem impulsionou inicialmente o assunto.
Os dois episódios também oferecem narrativas diferentes. A Overclean carrega a força de uma investigação da Polícia Federal, mas vem acompanhada da decisão do STF que rejeitou as medidas solicitadas contra o deputado após manifestação da PGR. Os R$ 20 milhões para Bahia e Ceará dispensam discussão criminal: permitem aos adversários questionar as prioridades adotadas pelo parlamentar.
Esse deve ser um dos desafios de Vicentinho na campanha. Depois de mais de uma década na Câmara, ele não chega à eleição estadual apenas com obras, emendas, alianças e votações para apresentar. Carrega também decisões e episódios acumulados durante os mandatos que podem ser retirados do contexto em que ocorreram e submetidos a uma nova leitura.
Na disputa pelo governo, portanto, Vicentinho terá duas campanhas para fazer: uma para apresentar o que pretende executar no Tocantins e outra para responder ao que seus adversários — identificados ou não — decidirem recuperar de seus anos em Brasília.
Há ainda uma frente menos previsível. Episódios da vida pessoal de Vicentinho Júnior também podem surgir durante a campanha, sobretudo nas redes sociais, onde questões privadas costumam ganhar circulação sem relação direta com propostas ou atuação política. O alcance e o efeito desse tipo de conteúdo dependem, porém, do que efetivamente vier a público.
