Piscicultura transforma vidas e impulsiona renda no Tocantins
05 junho 2026 às 08h00

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Antes de se tornar biólogo, empresário e dono de um pesqueiro às margens de Palmas, Estevão Alexandre Guedes Coutinho já vivia cercado por peixes. Filho de um piscicultor que há cinco décadas trabalha na atividade, ele cresceu entre viveiros, alevinos e histórias sobre a criação de pescado. Hoje, emprega trabalhadores, produz alimento e enxerga no Tocantins um potencial que, segundo ele, ainda está longe de ser plenamente explorado.
A história de Estevão é uma das muitas que ajudam a explicar o crescimento da atividade no estado. Segundo dados do Anuário da Piscicultura 2025, da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), o Tocantins produziu cerca de 20,4 mil toneladas de peixes cultivados no último ano, um crescimento de aproximadamente 36% em relação a 2015.
A maior parte dessa produção vem dos chamados peixes nativos amazônicos, especialmente tambaqui, pirapitinga e seus híbridos, que respondem por mais de 19 mil toneladas. A tilápia, embora ainda represente uma parcela menor, também vem crescendo rapidamente.
Para a pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Pesca e Aquicultura (Embrapa), Viviane Rodrigues Verdolin dos Santos, o desempenho reflete as condições naturais privilegiadas do estado.
“O Tocantins reúne abundância de recursos hídricos, clima adequado, disponibilidade de áreas para produção e localização estratégica para escoamento. A produção de peixes nativos é um diferencial importante no cenário nacional”, afirma.







Uma atividade que mudou destinos
Em Guaraí, a cerca de 180 quilômetros de Palmas, o piscicultor Romeu Takahagassi acompanha de perto essa transformação.
O que começou em 2007 atendendo apenas produtores do município hoje alcança mais de 20 cidades da região. Seu laboratório produz alevinos de tambatinga, tambaqui, tilápia, pintado, piau e matrinxã. “Hoje a piscicultura é nossa principal fonte de renda. Houve um crescimento muito grande das vendas e um fortalecimento da atividade”, conta.
Romeu lembra que, no início, a realidade era bem diferente. “Nem ração para peixe a gente encontrava nas agropecuárias da cidade. Hoje a atividade movimenta transporte, fornecedores de insumos, equipamentos e gera oportunidades diretas e indiretas.”
A mesma percepção é compartilhada por Estevão. Proprietário de um laboratório de alevinos e do Pesqueiro Flor d’Água, ele emprega cerca de 14 pessoas e vê a atividade irradiar renda para diversos segmentos.
“Quando reformamos o pesqueiro, instalamos energia solar ou compramos insumos, movimentamos outras cadeias econômicas. Sempre procuramos fornecedores da região. Isso faz o dinheiro circular.”


A força das mulheres das águas
Enquanto alguns produtores conseguiram expandir seus negócios, outros seguem enfrentando desafios diários para permanecer na atividade. É o caso de Marinalva Ferreira Moura, filha de pescador ribeirinho de Porto Nacional e integrante do Parque Aquícola Sucupira, criado em 2013 no lago da Usina Luís Eduardo Magalhães para fomentar a agricultura familiar.
Contemplada com uma área aquícola em 2013 e produtora desde 2015, ela cultiva espécies como tambaqui, piau-açu, piabanha, surubim e tilápia. No último ano, produziu 15 toneladas de pescado.
Embora o resultado seja expressivo para uma produção familiar, Marinalva afirma que está muito distante da capacidade projetada quando o parque foi criado. “Eu sou um sucesso na aquicultura porque faço das tripas coração. Invisto na minha produção e não fiquei esperando políticas públicas”, afirma.
Dos 195 lotes originalmente disponibilizados no parque, apenas 13 seguem produzindo atualmente, segundo a piscicultora.
Ela aponta dificuldades que vão desde a falta de infraestrutura em terra firme até a inexistência de espaços adequados para processamento do pescado. “Sou legalizada para produzir, mas não para vender o peixe processado. Acabo comercializando diretamente nas feiras. Isso limita muito o crescimento.”
Mesmo diante dos obstáculos, Marinalva segue participando de pesquisas desenvolvidas pela Embrapa e recebendo assistência técnica de instituições como Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e Instituto de Desenvolvimento Rural do Estado do Tocantins (Ruraltins). “Produzimos alimento. Poderíamos estar gerando renda para muito mais famílias.”







O paradoxo do potencial
Poucos setores parecem reunir tantas condições favoráveis quanto a piscicultura tocantinense. O estado possui grandes reservatórios, rios, clima estável durante praticamente todo o ano, disponibilidade de áreas para cultivo e posição estratégica entre importantes mercados consumidores.
Para Estevão, não há dúvida sobre o tamanho dessa oportunidade. “O Tocantins é o melhor estado do Brasil para produzir peixe. Temos água, relevo, clima e logística. Com boas políticas públicas, podemos estar entre os maiores produtores do país.” Viviane concorda.
Segundo ela, além das condições naturais, o estado já conta com laboratórios de produção de alevinos, fábricas de ração e frigoríficos com selo de inspeção federal, fatores que favorecem a expansão da cadeia produtiva. “O fortalecimento da infraestrutura, do processamento e da logística pode impulsionar ainda mais o crescimento da atividade.”
Os gargalos que travam o crescimento

Apesar do cenário promissor, produtores e pesquisadores apontam problemas semelhantes. O principal deles é o custo de produção.
Para Romeu, a ração continua sendo um dos maiores desafios. “Ela representa uma parcela muito grande dos custos. Também enfrentamos dificuldades relacionadas à qualidade da água, mão de obra qualificada e comercialização.”
Estevão acrescenta outra preocupação: a energia elétrica. “Quem trabalha com produção intensiva depende de aeradores e sistemas de bombeamento. Energia e ração são os dois maiores custos da atividade.”
A dificuldade para comercializar também limita a expansão da produção. Em Guaraí, produtores aguardam a instalação de um frigorífico que poderá ampliar a capacidade de processamento e abrir novos mercados. “Hoje muitos vendem peixe de porta em porta ou em feiras. Quando tivermos um frigorífico funcionando, a tendência é que a atividade cresça muito mais”, acredita Romeu.
A pesquisadora da Embrapa destaca ainda outros desafios, como acesso ao crédito, assistência técnica contínua, regularização ambiental, sanidade dos peixes e organização coletiva dos produtores. “Cooperativas e associações podem ajudar a resolver problemas relacionados à escala de produção, redução de custos e acesso ao mercado.”
Gestão e organização para crescer

Segundo o analista do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no Tocantins, José Daniel, os desafios da piscicultura vão além da produção. Para ele, muitos produtores conseguem criar peixe com qualidade, mas enfrentam dificuldades na hora de transformar a atividade em um negócio rentável.
“O problema hoje não é apenas produzir. O grande gargalo está na comercialização. Muitas vezes o produtor tem uma produção pequena, que não alcança a escala exigida pelos frigoríficos, e acaba recebendo um valor que não remunera adequadamente o investimento realizado”, afirma.
José Daniel explica que o Sebrae atua por meio do programa SebraeTec, oferecendo consultorias subsidiadas para orientar produtores desde a elaboração do plano de negócios até questões relacionadas ao manejo, custos de produção e gestão financeira.
“Produzir bem não significa necessariamente ter lucro. O produtor precisa saber quanto custa cada quilo de peixe produzido, separar os custos da propriedade das despesas pessoais e entender qual é a margem real do negócio”, destaca.
Na avaliação do analista, a organização coletiva pode ser um dos caminhos para fortalecer a cadeia produtiva no estado.
“Quando os piscicultores compram insumos em conjunto, conseguem preços melhores. Quando vendem juntos, alcançam volumes maiores e ganham poder de negociação. A associação e o cooperativismo são fundamentais para os pequenos produtores.”
José Daniel acredita que a piscicultura tem potencial para se consolidar como uma das principais alternativas de geração de renda para a agricultura familiar tocantinense, especialmente em pequenas propriedades.
Um futuro que depende das próximas gerações

Embora a piscicultura tenha avançado no Tocantins, a renovação da mão de obra preocupa produtores. Romeu vê esperança na filha mais nova, que já participa do manejo diário e demonstra interesse em seguir na atividade.
Estevão também percebe potencial nos filhos, mas avalia que o setor ainda atrai poucos jovens. “Recebemos estudantes de agronomia, veterinária e zootecnia. Muitos conhecem a atividade, mas poucos querem trabalhar com ela.”
Embora a piscicultura tenha avançado no Tocantins, os desafios ainda fazem parte da rotina de quem vive da atividade. Entre produtores que expandiram seus negócios e agricultores familiares que lutam para permanecer no setor, há um ponto em comum: a convicção de que o estado reúne condições para crescer ainda mais.
Para que isso aconteça, porém, produtores defendem mais investimentos em infraestrutura, acesso ao mercado, crédito e assistência técnica. Medidas que podem determinar se histórias como as de Marinalva, Romeu e Estevão continuarão sendo exceções ou se passarão a representar uma realidade mais ampla no campo tocantinense.
