Tocantins está entre regiões do país onde a água subterrânea não consegue mais se recompor totalmente
05 junho 2026 às 09h26

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O Tocantins está entre as regiões brasileiras que apresentam sinais de esgotamento gradual das reservas de água subterrânea. A constatação faz parte de um estudo publicado nesta semana na revista científica Science Advances, considerado o mais abrangente já realizado sobre a situação dos aquíferos no país.
A pesquisa aponta que áreas associadas à bacia Tocantins-Araguaia registram perda persistente de água subterrânea, ou seja, o volume retirado dos aquíferos tem superado a capacidade de reposição natural proporcionada pelas chuvas.
O levantamento analisou a evolução das reservas hídricas subterrâneas entre 2002 e 2023, utilizando dados de satélites da Nasa combinados com informações meteorológicas, hidrológicas e de uso da água. Os pesquisadores identificaram que, embora o Brasil ainda possua grande disponibilidade hídrica, algumas regiões já enfrentam um cenário semelhante ao de áreas áridas do mundo, onde os reservatórios subterrâneos vêm sendo consumidos mais rapidamente do que conseguem se recuperar.
Cerrado sob pressão
Entre as áreas mais afetadas estão regiões do Cerrado ligadas às bacias do São Francisco, Paraná e Tocantins-Araguaia. Segundo os autores do estudo, a situação preocupa porque essas áreas concentram atividades agrícolas de grande porte e dependem cada vez mais da irrigação e da captação de água subterrânea.
Embora a pesquisa não atribua a redução dos aquíferos a um único fator, os cientistas apontam uma combinação de elementos que inclui expansão agrícola, aumento do uso de irrigação, crescimento da perfuração de poços e ocorrência de secas mais frequentes.
No Tocantins, onde a agropecuária tem ampliado sua participação na economia estadual nas últimas décadas, a disponibilidade de água é considerada um dos principais ativos para a produção rural.
Impactos podem atingir rios e nascentes
O estudo destaca que o problema não se restringe à água armazenada no subsolo. Em muitos casos, os aquíferos são responsáveis por manter o fluxo de rios e córregos durante os períodos de estiagem.
Quando essas reservas diminuem, a tendência é que a vazão dos cursos d’água também seja afetada, especialmente em períodos prolongados sem chuva.
A preocupação é ainda maior no Cerrado, bioma que abriga importantes nascentes responsáveis pela formação de grandes bacias hidrográficas brasileiras, incluindo a Tocantins-Araguaia.
Os pesquisadores alertam que a redução contínua das reservas subterrâneas pode comprometer o abastecimento humano, a produção agropecuária e a manutenção dos ecossistemas naturais.
Mudanças climáticas ampliam o risco
Outro ponto destacado pela pesquisa é o impacto das mudanças climáticas sobre a disponibilidade hídrica. A expectativa é que eventos extremos, como secas severas e prolongadas, se tornem mais frequentes nas próximas décadas.
Esse cenário pode reduzir ainda mais a recarga natural dos aquíferos e aumentar a dependência da água subterrânea para abastecimento e irrigação.
Apesar do alerta, os pesquisadores ressaltam que a situação não é uniforme em todo o país. Regiões da Amazônia e partes do Sul apresentam tendência de aumento no armazenamento de água subterrânea. Já áreas do Brasil Central, Nordeste e parte do Sudeste concentram os maiores sinais de perda persistente das reservas.
Para os autores, o monitoramento contínuo dos aquíferos e o planejamento do uso dos recursos hídricos serão fundamentais para evitar que o déficit observado atualmente se transforme em um problema ainda mais grave nos próximos anos.
