Advogada ligada a grupo político do Tocantins teria recebido R$ 33 milhões do Master e era ‘canal direto com STF’
17 setembro 2026 às 12h51

COMPARTILHAR
A advogada Dalide Corrêa, que mantém negócios e relações políticas no Tocantins e chegou a ter o nome discutido para uma suplência ao Senado pelo estado nas eleições deste ano, recebeu R$ 33 milhões do Banco Master em 2024 por meio de seu escritório de advocacia. O pagamento aparece em documentos de uma auditoria interna encomendada pelo Banco Regional de Brasília (BRB) e encontrados pela Polícia Federal nas investigações sobre as operações da instituição comandada por Daniel Vorcaro.
Segundo reportagem do Estadão, a auditoria identificou R$ 215 milhões em despesas do Master com escritórios de advocacia em 2024, ante R$ 76 milhões no ano anterior. Entre os maiores valores estavam R$ 40 milhões destinados ao escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e R$ 33 milhões ao Alves Corrêa, de Dalide. A equipe responsável pela análise apontou a necessidade de compreender o padrão dessas despesas diante dos valores registrados.
O nome de Dalide também aparece em diálogos entre dirigentes do Master obtidos pela PF. Em uma conversa sobre pagamentos ao escritório, o então diretor da área financeira Ângelo Ribeiro deu ordem para a transferência e justificou a despesa com a expressão “canal direto com o STF”, sem explicar a que tipo de interlocução fazia referência. Até agora, a PF não produziu conclusão sobre a legalidade do contrato ou dos serviços prestados pela advogada. Também não foram identificadas, nesses diálogos, menções ao ministro Gilmar Mendes ou a outro integrante do Supremo relacionadas ao pagamento.
Dalide negou ter atuado para o Master no STF. Em nota, afirmou que “jamais atuou para o Master no Supremo Tribunal Federal nem procurou ministros da Corte para tratar de assuntos relativos ao banco”. Segundo sua assessoria, o trabalho ficou restrito a processos originalmente conduzidos para empresas que venderam créditos ao Master e que posteriormente foram sucedidas pelo banco nas ações, com atuação em primeira e segunda instâncias.
Relações com o Tocantins
Embora tenha construído parte de sua carreira profissional em Brasília, Dalide passou nos últimos anos a ocupar espaço também no ambiente empresarial e político tocantinense. Ela é sócia da Agropecuária Monte Sião, grupo sediado em Porto Nacional e com negócios ligados à pecuária, genética animal e outros segmentos. Em 2026, estava filiada ao Agir e possuía domicílio eleitoral em Porto Nacional.
A advogada também mantém relação política com o grupo do pastor Amarildo Martins, liderança da Assembleia de Deus Madureira no Tocantins e pai do deputado federal Filipe Martins (PL). Essa proximidade levou o nome de Dalide para as negociações eleitorais deste ano. Em abril, ela chegou a ser sondada para ocupar a primeira suplência de Carlos Gaguim (União Brasil) na disputa pelo Senado.
A composição continuou em discussão até o período das convenções. A entrada de Dalide na chapa era defendida no grupo ligado a Amarildo, mas encontrou resistência dentro da aliança que apoia a candidatura de Professora Dorinha (União Brasil) ao governo. Gaguim acabou escolhendo Muniz Araújo para a primeira suplência, e Dalide ficou fora da chapa.
A relação de Dalide com a política tocantinense já havia aparecido com maior força em 2025, durante o período em que Carlos Velozo (Agir) ocupou interinamente a Prefeitura de Palmas. Priscila Alencar Veríssimo de Souza, sobrinha de Dalide e então advogada do escritório Alves Corrêa e Veríssimo Advocacia, foi nomeada procuradora-geral do município. Velozo afirmou na época que a escolha ocorreu pela qualificação profissional de Priscila e negou interferência de Dalide ou do Grupo Monte Sião em sua administração.
Master já havia colocado Dalide em outra frente
O nome da advogada também apareceu neste ano nas discussões do Senado sobre investimentos de regimes próprios de previdência relacionados ao Banco Master. Em maio, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, anunciou que ingressaria com ação popular sobre o aporte de R$ 117 milhões do instituto de previdência de Maceió e citou Dalide entre as pessoas que pretendia incluir na ação. A declaração consta das notas oficiais da reunião da comissão realizada em 27 de maio.
A descoberta dos R$ 33 milhões pagos pelo Master acrescenta agora um novo elemento à trajetória de uma personagem que, embora sem mandato eletivo no Tocantins, passou a circular no ambiente político do estado. A relação com o Grupo Monte Sião, a proximidade com Amarildo Martins e a tentativa de levá-la para uma chapa ao Senado colocaram Dalide nas negociações eleitorais tocantinenses meses antes de seu nome aparecer nos documentos encontrados pela Polícia Federal.
