Há uma pergunta que provavelmente acompanhará Vicentinho Júnior (PSDB) durante toda a campanha ao Governo do Tocantins: se a administração de Wanderlei Barbosa (Republicanos) é aprovada pela maioria dos eleitores, por que mudar? A resposta a esse questionamento pode ser mais importante para o tucano do que simplesmente se apresentar como oposição.

Vicentinho enfrenta uma situação pouco confortável para um candidato oposicionista. Wanderlei mantém aprovação elevada e escolheu Dorinha Seabra (União Brasil) como candidata à sucessão. Atacar o governo de forma indistinta significaria confrontar também uma parcela do eleitorado que avalia positivamente a administração estadual — e da qual Vicentinho precisará tirar votos para vencer.

A campanha, por isso, tende a depender menos de uma condenação geral do governo e mais da identificação de suas vulnerabilidades. É nesse ponto que pesquisas qualitativas internas ganham importância. Campanhas majoritárias costumam recorrer a esse tipo de levantamento não apenas para saber quem está na frente, mas para compreender por que o eleitor aprova ou rejeita um governo, quais problemas atribui diretamente ao governador e quais insatisfações sobrevivem mesmo entre aqueles que dizem aprová-lo.

Vicentinho certamente dispõe ou deverá dispor desse diagnóstico. É ele que pode indicar onde a campanha deve confrontar Wanderlei, quais temas precisam ser associados a Dorinha e, principalmente, quais áreas seria contraproducente atacar. Uma aprovação alta não significa que o eleitor considere boa toda a administração. O mesmo entrevistado que aprova o governador pode reclamar da saúde, de uma estrada, do atendimento público ou de uma política específica.

É nesse espaço que a candidatura tucana pode procurar sua justificativa para a mudança.

Em vez de sustentar que Wanderlei fez um governo ruim, Vicentinho pode argumentar que o atual ciclo entregou resultados em determinadas áreas, mas deixou problemas para os quais a candidata governista não representa uma resposta diferente. A distinção é importante. O eleitor não precisa renegar Wanderlei para escolher Vicentinho; precisa apenas concluir que aquilo que funcionou pode continuar e aquilo que não funcionou exige outro comando.

A saúde já apareceu como uma possível porta de entrada. No primeiro debate, Vicentinho escolheu Dorinha para discutir o setor e cobrou problemas no atendimento e obras hospitalares. Não é uma escolha trivial. Ao concentrar o confronto em áreas nas quais existe insatisfação, o tucano consegue questionar a continuidade sem declarar guerra a todo o legado do governador.

A estratégia exige disciplina. Se levantamentos internos mostrarem, por exemplo, que determinada política é fortemente associada à boa avaliação de Wanderlei, há pouco ganho em atacá-la. O caminho seria reconhecer o resultado e assumir compromisso de continuidade. Nas áreas identificadas como pontos de desgaste, a campanha pode fazer o movimento contrário: apresentar o problema, cobrar Dorinha pela participação no grupo governista e oferecer uma proposta diferente.

Essa seleção também ajuda a enfrentar uma característica particular de Vicentinho. Embora esteja na oposição, seu estilo político guarda semelhanças com o de Wanderlei. Ambos construíram trajetórias apoiadas no contato pessoal, no interior, na relação com prefeitos e lideranças municipais e numa comunicação mais popular que institucional. Vicentinho pode ter mais facilidade para disputar parte do eleitorado de Wanderlei justamente por não representar uma ruptura completa com esse modo de fazer política.

Dorinha possui o apoio do governador; Vicentinho pode tentar disputar a identificação com parte de seu eleitorado. São coisas diferentes.

A dificuldade para o tucano será fazer essa distinção sem parecer contraditório. Se Wanderlei é apresentado como responsável por tudo que está errado, Vicentinho terá dificuldade para explicar por que preservaria políticas da atual administração. Se o governo é tratado como amplamente positivo, surge imediatamente a pergunta sobre a necessidade de substituí-lo por um adversário político.

A resposta precisa estar menos na pessoa de Wanderlei e mais no próximo ciclo. Vicentinho pode reconhecer resultados do atual governador e sustentar que os próximos quatro anos exigem prioridades, métodos ou decisões diferentes. Dessa forma, a campanha deixa de pedir ao eleitor um voto contra Wanderlei e passa a pedir uma escolha sobre quem deve governar depois dele.

Essa lógica também oferece uma saída para os ataques que Vicentinho já começou a receber. A Operação Overclean apareceu no primeiro debate por iniciativa de Ataídes Oliveira (Novo) e deve continuar entre os assuntos explorados pelos adversários. Quanto mais tempo Vicentinho gastar respondendo às acusações, menos espaço terá para explicar por que sua candidatura representa uma alternativa.

A defesa, nesse caso, precisa funcionar como defesa, não como eixo da campanha: responder ao fato apresentado, divulgar documentos quando necessário e retornar à agenda escolhida pela candidatura. O risco não está apenas no conteúdo dos ataques, mas na capacidade deles de obrigar Vicentinho a passar a eleição falando sobre aquilo que seus adversários escolheram.

No fim, Dorinha e Vicentinho disputam respostas diferentes para a mesma popularidade. Dorinha precisa convencer o eleitor de que aprovar Wanderlei significa continuar com o grupo político que ele escolheu para sucedê-lo. Vicentinho precisa romper exatamente essa associação.

Por isso, talvez a principal pergunta da campanha tucana não seja “o que há de errado com o governo Wanderlei?”, mas outra: “o que precisa mudar mesmo para quem acha que Wanderlei fez um bom governo?” Encontrar essa resposta, e transformá-la em uma mensagem compreensível para o eleitor, pode definir até onde Vicentinho conseguirá chegar na eleição.