A disputa pelas duas vagas do Tocantins no Senado chega à última semana com candidatos apoiados por extensas redes municipais, palanques estaduais distintos e movimentos para ocupar parcelas específicas do eleitorado. No centro dessa corrida está uma particularidade de 2026: com dois terços do Senado em renovação, cada eleitor pode escolher dois candidatos.

O Real Time Big Data divulgado na sexta-feira, 25, mostra Eduardo Gomes (PL) com 25%. Alexandre Guimarães (MDB) e Carlos Gaguim (União Brasil) aparecem com 16% cada. Paulo Mourão (PT) tem 11%, Vanderlei Luxemburgo (Podemos), 10%, Ronaldo Dimas (Podemos), 9%, e Eli Borges (Republicanos), 6%. Foram ouvidos 1.600 eleitores entre 21 e 24 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

O histórico mostra o peso que a segunda escolha pode ter. Em 2018, última eleição em que o Tocantins também elegeu dois senadores, 831.214 eleitores compareceram às urnas. Como cada um podia votar duas vezes, havia 1.662.428 escolhas possíveis. Foram 1.274.703 votos válidos, 311.558 nulos e 76.167 brancos. Brancos e nulos somaram 387.725 escolhas.

O número não corresponde a 387 mil eleitores, já que uma mesma pessoa podia votar em um candidato e deixar a segunda opção em branco ou anulá-la. Ainda assim, o volume superou a votação individual de qualquer concorrente naquele pleito. Eduardo Gomes foi eleito com 248.358 votos e Irajá conquistou a segunda cadeira com 214.355. César Halum ficou em terceiro, com 184.235 — 30.120 votos atrás da segunda vaga.

Gomes combina rede municipal e posição à direita

Único entre os principais candidatos que busca a reeleição, Eduardo Gomes chega aos últimos dias numericamente à frente no Real Time e com uma extensa rede municipal. No fim de agosto, o senador declarou ter o apoio de 127 dos 139 prefeitos do Tocantins, número que corresponde a mais de 90% das prefeituras.

A capilaridade municipal é uma das bases da campanha de Gomes. O senador procura associá-la à atuação do mandato junto às prefeituras, com destinação de recursos federais e articulação de projetos independentemente da filiação partidária dos gestores.

Ao mesmo tempo, Gomes chega à reta final com posição definida no campo da direita. Filiado ao PL, tem se alinhado ao bolsonarismo e adotado posições críticas ao Supremo Tribunal Federal. A candidatura combina, assim, uma rede municipal que atravessa diferentes partidos com uma identidade nacional ligada à direita.

A trajetória também lhe oferece um grau de conhecimento diferente dos demais concorrentes. Gomes está no Senado desde 2019, depois de ter exercido três mandatos consecutivos de deputado federal, e busca agora mais oito anos na Casa.

Alexandre chega como nome original da chapa de Vicentinho

Alexandre Guimarães chega à última semana com 16% no Real Time, mesmo percentual de Gaguim. Deputado federal em primeiro mandato, o emedebista esteve desde a montagem da majoritária diretamente associado a Vicentinho Júnior (PSDB) e Amélio Cayres (MDB).

Durante o início da campanha, Alexandre ocupou praticamente sozinho o espaço do grupo na disputa pelo Senado. A composição PSDB-MDB já o colocava como candidato à Casa enquanto Amélio assumia a vaga de vice de Vicentinho, principal adversário de Dorinha Seabra (União Brasil) na corrida pelo governo.

Essa configuração mudou em 27 de agosto, quando Vicentinho anunciou apoio a Vanderlei Luxemburgo. O ex-treinador deixou a posição independente e passou a dividir com Alexandre os dois votos defendidos pelo palanque tucano.

Alexandre, porém, chega aos últimos dias como o nome que acompanhou Vicentinho e Amélio desde a construção da chapa. A ligação lhe deu acesso à estrutura política do grupo, sobretudo no Norte e no Bico do Papagaio, região de atuação de Amélio. Com Luxemburgo, o palanque acrescentou posteriormente um segundo candidato de projeção nacional.

Gaguim aposta na capilaridade de prefeitos e vereadores

Carlos Gaguim também chega à última semana com 16% no Real Time, mas apoiado em uma estrutura política construída principalmente nos municípios.

Em 9 de setembro, durante ato no Aureny III, em Palmas, o candidato afirmou contar com mais de 86 prefeitos e quase mil vereadores. A campanha continuou anunciando adesões desde então, mas não há uma contagem independente atualizada que permita elevar esse número com segurança.

Ex-vereador de Palmas, ex-deputado estadual, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-governador, Gaguim está na Câmara dos Deputados desde 2015. Na corrida ao Senado, explora a relação acumulada com prefeitos e vereadores e sua passagem por diferentes posições da política estadual.

Essa estrutura se soma ao palanque de Dorinha Seabra. Gaguim participa de agendas com a candidata ao governo e com Wanderlei Barbosa, além de manter compromissos próprios no interior. A campanha procura associar sua atuação parlamentar à liberação de recursos e à interlocução com as administrações municipais.

No levantamento mais recente, Alexandre e Gaguim aparecem numericamente no mesmo ponto, mas chegam a ele por estruturas diferentes: o primeiro fortemente identificado com a chapa Vicentinho-Amélio; o segundo apoiado numa rede municipal e no palanque de Dorinha.

Eli coloca a identidade de direita no centro da campanha

Eli Borges chega aos últimos dias com uma estratégia ideológica mais explícita. Pastor e deputado federal, procura ampliar a base construída entre evangélicos e alcançar um eleitorado conservador que vai além das igrejas.

A campanha passou a destacar críticas ao STF, defesa do impeachment de ministros da Corte e pautas de costumes. Em material eleitoral recente, Eli se apresenta diretamente como candidato cristão e de direita.

O republicano disputa uma faixa do eleitorado que também recebe apelos de Gomes e, em parte de sua campanha recente, de Ronaldo Dimas. A diferença está na centralidade dada por Eli à combinação entre religião e identidade política conservadora.

No Real Time, ele aparece com 6%. O percentual o coloca numericamente abaixo do grupo intermediário, enquanto a campanha concentra os últimos dias na tentativa de transformar sua identificação ideológica em uma das duas escolhas do eleitor.

Paulo leva Lula para o centro da reta final

Paulo Mourão chega à última semana com uma estratégia construída no campo oposto. Candidato do PT e integrante do palanque de Laurez Moreira (PSD), ele procura associar diretamente sua candidatura ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na sexta-feira, 25, a campanha recebeu em Palmas o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, e a secretária-executiva do Ministério das Mulheres, Eutália Barbosa. A programação com Laurez e Mourão incluiu coletiva e mobilização em Taquaralto e integrou a agenda do chamado “Time do Lula” no estado.

Mourão registra 11% no Real Time. A candidatura tenta converter a identificação com o governo federal e com o eleitorado lulista em voto para o Senado numa eleição em que alianças para a segunda escolha podem atravessar as chapas estaduais.

O petista conhece essa configuração eleitoral. Em 2018, quando também havia duas vagas, recebeu 137.654 votos e terminou em sexto lugar.

Dimas aproxima discurso de pautas da direita

Ronaldo Dimas entra na última semana com 9% no Real Time e uma campanha que combina sua experiência administrativa em Araguaína com posições mais próximas de pautas defendidas pela direita.

Nos últimos dias, Dimas elevou as críticas ao Supremo Tribunal Federal e passou a cobrar maior atuação do Senado na relação com a Corte. O discurso aparece ao lado de uma agenda econômica voltada ao setor produtivo, com defesa de segurança jurídica, regularização fundiária e infraestrutura.

Ex-prefeito de Araguaína por dois mandatos e ex-deputado federal, Dimas mantém no Norte uma de suas referências políticas. A tentativa de ampliar esse alcance o coloca também na disputa pelo eleitor conservador procurado por Gomes e Eli, embora com uma campanha mais apoiada na experiência de gestão e em pautas econômicas.

Dimas é filiado ao Podemos, que também lançou Vanderlei Luxemburgo ao Senado. Os dois, porém, chegam aos últimos dias com estratégias distintas.

Luxemburgo aposta em renovação, esporte e saúde

Vanderlei Luxemburgo aparece com 10% no Real Time, entre Paulo Mourão, com 11%, e Dimas, com 9%. Os três estão tecnicamente empatados considerando a margem de erro de dois pontos.

O ex-treinador construiu uma campanha menos centrada no confronto ideológico. Tem explorado sua condição de estreante na política eleitoral e defendido a renovação das duas cadeiras do Tocantins.

Esporte, educação e saúde aparecem entre os principais temas apresentados por Luxemburgo. A experiência no futebol sustenta propostas de políticas esportivas para crianças e jovens, enquanto na saúde uma das bandeiras é a criação da Casa do Diabético, voltada ao diagnóstico e acompanhamento de pacientes.

A posição política de Luxemburgo também mudou durante a campanha. Inicialmente independente na corrida pelo governo, aderiu a Vicentinho em 27 de agosto e passou a dividir agendas com o tucano, Amélio e Alexandre. A partir dali, o palanque de Vicentinho passou a apresentar Alexandre e Luxemburgo como seus dois nomes para o Senado.

A última semana encontra, portanto, candidaturas assentadas em bases diferentes. Gomes combina uma extensa rede municipal com identificação à direita; Alexandre carrega desde a formação da chapa a ligação com Vicentinho e Amélio; Gaguim aposta na capilaridade entre prefeitos e vereadores; Eli concentra o discurso no eleitor conservador; Paulo leva Lula para a campanha; Dimas combina críticas ao STF e setor produtivo; e Luxemburgo aposta na renovação e na projeção construída fora da política.

Em 2018, 30.120 votos separaram a segunda cadeira do terceiro colocado, enquanto 387.725 escolhas possíveis terminaram brancas ou nulas. Oito anos depois, com duas vagas novamente em disputa, o segundo voto permanece como espaço central da corrida ao Senado no Tocantins.