Uma pessoa entra numa loja, compra um produto e vai embora. Do outro lado do balcão, o comerciante atende, recebe o pagamento e segue o expediente. Até pouco tempo, essa relação não exigia que nenhum dos dois soubesse em quem o outro votou. Agora, em meio à polarização política, até a preferência eleitoral pode virar motivo para expor, constranger e tentar afastar clientes.

No Tocantins, listas com nomes de comerciantes, empresas, advogados e outros profissionais, associados a supostas posições político-eleitorais, circulam em redes sociais e aplicativos de mensagens. A situação levou a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Tocantins (OAB-TO) a divulgar uma nota de repúdio, na qual alerta para possíveis casos de discriminação e retaliação nos âmbitos pessoal e profissional.

O episódio expõe uma questão que merece ser discutida para além dos lados políticos envolvidos: quando a divergência deixa de ser uma escolha individual e passa a funcionar como instrumento de punição coletiva?

É legítimo que consumidores escolham onde gastar o próprio dinheiro. Alguém pode preferir uma empresa por seus valores, deixar de comprar de outra por uma decisão pública de seus dirigentes ou organizar um boicote como forma de protesto. A liberdade de escolha também inclui a liberdade de não consumir. O problema surge quando essa decisão se mistura à exposição de pessoas, à atribuição de posições políticas sem comprovação e à tentativa de mobilizar terceiros para constranger quem aparece numa lista.

A diferença é importante. Uma coisa é conhecer a posição pública de uma empresa e decidir, conscientemente, se deseja consumir seus produtos. Outra é receber uma relação de nomes, confiar em informações cuja origem não está clara e compartilhar o material como se a presença ali comprovasse alguma coisa. Nesse processo, a suspeita pode ganhar aparência de fato, enquanto o direito de resposta dificilmente acompanha a velocidade dos encaminhamentos.

A OAB-TO afirmou que a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias são pilares do Estado Democrático de Direito, mas ressaltou que esses direitos devem ser exercidos com responsabilidade e respeito às garantias fundamentais. A entidade também manifestou solidariedade às pessoas atingidas e disse que seguirá atenta à situação, sobretudo quanto à proteção de advogadas e advogados e ao livre exercício da profissão.

A manifestação não significa que todos os citados tenham sofrido prejuízos nem que a circulação das listas, por si só, configure crime. Mas chama atenção para um risco concreto: transformar preferências políticas presumidas em critérios para constranger pessoas no trabalho ou na vida pessoal. Para dimensionar o caso, ainda é necessário esclarecer quem produziu os materiais, quais critérios foram usados para incluir os nomes e se houve ameaças ou perdas efetivas para os citados.

O problema também está na facilidade com que a reputação de alguém pode ser reduzida a uma etiqueta. O comerciante deixa de ser avaliado pelo serviço que oferece; o profissional, pelo trabalho que executa; a empresa, pela maneira como atende seus clientes. Tudo fica subordinado a uma classificação política que pode ter sido atribuída por terceiros, sem contexto ou confirmação.

Isso não significa que empresários e profissionais devam ficar livres de críticas. Se uma empresa manifesta apoio público a determinado projeto político, financia uma campanha ou toma decisões com impacto coletivo, suas escolhas podem ser questionadas. O debate público depende da possibilidade de cobrar, criticar e discordar. Mas a crítica perde consistência quando se baseia em informações não verificadas ou quando a intenção deixa de ser discutir uma posição e passa a ser intimidar quem a supostamente representa.

Há ainda uma contradição nesse tipo de prática: em nome de uma convicção política, tenta-se limitar a liberdade de outras pessoas. A democracia não se resume ao direito de votar ou defender um candidato; também pressupõe que cidadãos possam expressar opiniões, trabalhar e manter relações comerciais sem serem submetidos a uma espécie de julgamento informal por suas escolhas.

O balcão de uma loja não deveria funcionar como extensão de uma disputa eleitoral permanente. O consumidor não precisa concordar com o comerciante, assim como o comerciante não precisa compartilhar as ideias de cada cliente. A convivência democrática exige justamente a capacidade de manter relações entre pessoas que pensam de maneiras diferentes.

As listas podem até revelar o grau de desconfiança que a polarização produziu, mas não devem definir como a sociedade lida com suas divergências. Discordar é parte da democracia; transformar a discordância em perseguição é outra história.