Quem cuida, quem decide e quem tem acesso às oportunidades?
22 outubro 2026 às 17h08

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Por Júlia Albuquerque1
Falar sobre periferia e filantropia, a partir do olhar da Unidos por um Mundo Melhor (UPMM), é falar sobre quem cuida, quem decide e quem tem acesso às oportunidades. É falar sobre a força das comunidades que, mesmo diante da ausência de recursos e oportunidades, encontram formas de transformar suas próprias realidades.
A UPMM nasceu em 2013, na região sul de Palmas, no Tocantins, a partir da iniciativa de jovens que acreditavam na cultura, na educação e na organização comunitária como ferramentas de transformação social. Eu tinha apenas 12 anos quando comecei essa caminhada. Hoje, 13 anos depois, seguimos construindo oportunidades dentro das periferias, com atividades culturais, educativas, esportivas e de acolhimento social.
Ao longo dessa trajetória, nossas ações já alcançaram aproximadamente 1.400 crianças, adolescentes e jovens, além de cerca de 600 famílias. Nossa atuação começou no Aureny I e se expandiu para outras comunidades de Palmas e municípios tocantinenses, por meio de atividades e articulações com parceiros locais.
Mas esses números carregam histórias que não cabem em relatórios. São crianças que tiveram seu primeiro contato com a arte por meio do hip-hop, mulheres que encontraram espaços de acolhimento e formação, famílias que buscaram orientação e jovens que passaram a reconhecer suas próprias capacidades.
Na periferia, a solidariedade faz parte do cotidiano. Está na vizinha que ajuda a cuidar de uma criança, na família que divide o alimento e no artista que compartilha gratuitamente aquilo que sabe com a juventude. A UPMM nasceu dessa prática coletiva, da compreensão de que não precisamos esperar que alguém de fora reconheça nossas necessidades para começar a transformar nossa realidade.
Entretanto, existe uma diferença enorme entre conseguir iniciar uma ação comunitária e ter condições financeiras para mantê-la funcionando.
Um dos maiores desafios que enfrentamos no Tocantins não é a falta de projetos, de pessoas comprometidas ou de conhecimento sobre o território. É a falta de financiamento contínuo para sustentar aquilo que já construímos.
Atualmente, a UPMM desenvolve suas atividades principalmente por meio do trabalho voluntário. Oferecemos aulas gratuitas, acompanhamento educacional, atividades culturais e acolhimento psicológico, mas precisamos lidar constantemente com dificuldades para custear materiais, manutenção do espaço, equipamentos e remuneração de profissionais.
Na prática, isso significa que, enquanto organizamos atividades para crianças e famílias, também precisamos buscar doações, estabelecer parcerias e encontrar alternativas para manter as portas abertas. Muitas vezes, a mesma pessoa que planeja uma oficina, acolhe uma família ou organiza um evento também precisa assumir a responsabilidade de conseguir os recursos necessários para que tudo aconteça.
Essa realidade compromete não apenas a continuidade dos projetos, mas também a saúde e a estabilidade financeira de quem dedica sua vida ao trabalho comunitário. Não podemos naturalizar que pessoas que cuidam de tantas outras precisem abrir mão de sua própria segurança financeira para continuar cuidando.
Essa dificuldade não é exclusiva da UPMM. Muitas organizações periféricas enfrentam obstáculos para acessar editais, manter equipes remuneradas e garantir recursos para despesas básicas. Quando o financiamento chega apenas para atividades pontuais, mas não contempla a manutenção dos espaços e das equipes, a continuidade do trabalho fica ameaçada.
No Tocantins, precisamos pensar em mecanismos de financiamento que reconheçam as particularidades das organizações comunitárias. Não basta criar oportunidades de investimento se as organizações menores não conseguem cumprir exigências burocráticas, contratar equipes técnicas ou custear sua participação nos processos de seleção.
Durante nossos 13 anos de atuação, aprendemos que a comunidade sabe identificar suas prioridades. Quando oferecemos acompanhamento escolar, estamos respondendo às dificuldades educacionais que encontramos no território. Quando realizamos atividades de hip-hop, reconhecemos a cultura periférica como instrumento de formação, identidade e pertencimento. Quando disponibilizamos acolhimento psicológico, buscamos ampliar o acesso ao cuidado e à saúde mental.
Essas ações não são favores. São iniciativas comunitárias que contribuem para a efetivação de direitos.
Por isso, quando discutimos filantropia, precisamos discutir também a distribuição do poder de decisão. Quem determina quais projetos merecem financiamento? Quem estabelece os critérios? Quem conhece as necessidades das famílias que serão atendidas?
A filantropia que defendemos precisa caminhar junto com a periferia, não apenas chegar até ela com decisões prontas. Precisa reconhecer os saberes comunitários, investir no fortalecimento institucional e garantir que as organizações tenham autonomia para planejar seu futuro.
Não queremos apenas recursos para realizar um evento ou uma atividade pontual. Queremos condições para manter nossos espaços funcionando, remunerar dignamente nossas equipes e construir projetos que tenham continuidade.
A experiência da UPMM demonstra que a periferia não é apenas um lugar de necessidades. É também um território de produção de conhecimento, cultura, organização e soluções coletivas.
Depois de 13 anos, seguimos acreditando que transformar realidades exige mais do que boa vontade. Exige investimento, compromisso, participação e reconhecimento.
Porque quem vive a realidade do território precisa ter voz nas decisões sobre seu futuro. E quem cuida também precisa ser cuidado.
- Júlia Albuquerque é mãe da Odara, fundadora do projeto social Unidos por um Mundo Melhor, hoje reconhecido como Ponto de Cultura. No Tocantins, atua com hip hop, geração de renda e defesa de direitos, fortalecendo mulheres, jovens e comunidades periféricas. É integrante do Centro de Engajamento e Incidência das Periferias (CEP), da Iniciativa PIPA. ↩︎
