Quando tudo vira tarefa do professor e ensinar vira sobra
27 outubro 2026 às 11h17

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Por Fernando Maciel Vieira
Leitor, vou começar com uma confissão e depois com uma pergunta. A confissão: sou professor há quase vinte anos e já fui, numa mesma semana, psicólogo, enfermeiro, fiscal de celular, mediador de conflito, animador de feira, digitador de plataforma e despachante de papelada. A pergunta: em que momento da semana sobrou tempo para a aula? Se você respondeu “no intervalo entre uma coisa e outra”, acertou. É o que sobra.
Dizem que quem muito abraça pouco aperta, e a escola brasileira resolveu testar o provérbio em escala industrial. Setembro Amarelo, Outubro Rosa, Novembro Azul, Semana da Água, Dia da Árvore, Feira de Ciências, campanha do agasalho, prevenção às drogas, educação no trânsito, educação financeira. Todas são causas nobres, e ninguém em sã consciência é contra salvar uma árvore ou uma vida. O problema é a lógica do despacho: a sociedade tem um problema, não sabe quem resolve, e então “a escola que dê um jeito”. Quando o professor olha em volta, o calendário está tão cheio de causas que a matéria virou convidada de honra de uma festa onde ninguém lhe reservou cadeira.
Com o perdão do trocadilho, é um caso clássico de cozinheiro demais estragando o caldo. Só que aqui o cozinheiro é um só, o professor, e as panelas são todas as mazelas do país fervendo ao mesmo tempo no mesmo fogão.
Há quem diga que isso é “ampliação do papel social da escola”. Gert Biesta, pensador holandês da educação, tem uma expressão incômoda para o que acontece: learnification, algo como “aprendizagenização”. Segundo ele, trocamos a pergunta sobre o que vale a pena ensinar, e por que, por uma obsessão com medir aprendizagens e entregar resultados. Quando a escola só presta contas de produtos, qualquer coisa que renda um relatório passa a caber nela, inclusive o que nada tem de ensino. O professor deixa de ser alguém que apresenta o mundo aos mais jovens e vira gestor de demandas. E gestor de demandas, leitor, não tem tempo de olhar nos olhos do aluno que não entendeu a fração.
Os belgas Jan Masschelein e Maarten Simons nos lembram, em Em defesa da escola, de uma coisa que a pressa nos fez esquecer. A palavra grega scholé significa tempo livre, tempo suspenso, um tempo em que o jovem fica protegido das urgências da casa, do mercado e da política para se dedicar a estudar o mundo. A escola nasceu para ser essa pausa. Hoje a pausa foi invadida: o tempo livre virou tempo de preencher formulário, e a suspensão virou plantão. Fizemos da escola um pronto-socorro social e depois nos espantamos de ela não conseguir mais ensinar com calma. De boas intenções, aliás, o inferno está cheio, e nele o professor está de plantão.
Talvez você pense que exagero. Então faça um teste simples. Pergunte a um professor quanto tempo da semana vai para preparar e dar aula e quanto vai para provar, em planilhas, atas e plataformas, que a aula aconteceu. David Graeber, antropólogo que estudou o que chamou de trabalhos sem sentido, descreveu uma categoria que todo docente reconhece de longe: o “marcador de caixinhas”, cuja função é permitir que a instituição afirme estar fazendo algo que na verdade não faz. O diário que ninguém lê, o relatório que ninguém cobra, o projeto que existe para ser fotografado. A escola precisa de professores, e a burocracia, sem pedir licença, vai nos transformando em marcadores de caixinha de jaleco invisível.
E o preço, quem paga? Pagamos todos, em prestações. O sociólogo alemão Hartmut Rosa diz que vivemos uma aceleração sem fim, na qual a vida se enche de tarefas e se esvazia de ressonância, aquela sensação de que o mundo nos responde e nos toca. Dá para ver isso numa sala de aula. O aluno que ninguém escuta porque o professor está lançando nota. O professor que não ouve a turma porque está correndo para o próximo projeto. Aula sem ressonância vira transmissão de conteúdo, e transmissão de conteúdo sem vínculo é conversar com a parede. Água mole em pedra dura, sim, mas ninguém pinga água nenhuma na pedra se estiver ocupado demais com o cronograma da pingadeira.
Nada disso é desculpa para fechar a porta da escola ao mundo. O que proponho é uma pergunta mais honesta, que cada diretor, secretário, deputado e pai de aluno deveria fazer antes de empurrar mais uma missão para dentro da sala: e o que sai para essa entrar? Porque tempo não é elástico, por mais que o planejamento anual insista. Se tudo é prioridade, nada é. Quem tudo quer, nada tem. E o barato, a gente já sabe, sai caro: sai em adoecimento docente, em aluno que passa de ano sem saber ler, em geração inteira que aprende que escola é lugar de evento, não de estudo.
Então, leitor, aqui vai o meu convite, e ele vale para você, que talvez não seja professor, mas é filho, mãe, eleitor ou contribuinte. Da próxima vez que alguém disser que “a escola precisa resolver” tal problema, pergunte quem vai pagar a conta de tempo, de formação e de condições. Se ninguém souber responder, desconfie. Cuidar da sociedade é tarefa de toda a sociedade, e a escola é parceira nessa tarefa, não a empreiteira de última hora.
Ensinar não é sobra de expediente. É a razão de existir da escola. Quem esquece isso pode até encher o calendário de causas lindas, mas está construindo uma casa de muitos enfeites e nenhum alicerce. E casa sem alicerce, todo mundo sabe, cai na primeira chuva.
