Depois das urnas: políticas públicas, confiança e voto no Tocantins
28 outubro 2026 às 17h25

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Frank Gundim Silva1
Damião Francisco Boucher2
A reeleição de Lula, em 25 de outubro de 2026, encerrou a disputa presidencial, mas manteve uma pergunta relevante para o Tocantins: por que políticas públicas e investimentos nem sempre se convertem em apoio eleitoral? Segundo os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 50,44% dos votos válidos no estado, contra 43,42% de Lula. No segundo, venceu novamente no Tocantins, com 51,37% contra 48,63%, e em Palmas, com 60,35% contra 39,65%. Esses resultados não autorizam respostas simples, mas convidam a examinar a relação entre políticas públicas, experiência cotidiana, valores e confiança nos representantes.
Como professores e servidores públicos, consideramos necessário analisar essa questão sem desconsiderar as realizações, as limitações e as responsabilidades dos diferentes governos. Nossa intenção é refletir sobre como as escolhas políticas se relacionam com as condições de vida da população, especialmente no acesso à educação, à saúde, ao trabalho e à proteção ambiental.
Não se trata de exigir gratidão eleitoral. O dinheiro público pertence à sociedade. Quem recebe Bolsa Família, estuda em uma instituição federal ou utiliza o SUS não deve seu voto a ninguém. Reconhecer a liberdade de votar em quem quiser, porém, não impede a discussão sobre as decisões que tornam esses direitos possíveis.
Durante o terceiro governo Lula, diferentes políticas federais também alcançaram o Tocantins. O Bolsa Família passou a atender famílias em todos os 139 municípios; o Mais Médicos e a criação de novas equipes de atenção primária e de saúde bucal reforçaram o SUS; o Farmácia Popular ampliou o acesso a medicamentos gratuitos; o Pé-de-Meia, a alimentação escolar e a expansão do ensino em tempo integral deram suporte à permanência dos estudantes.
O Acredita ampliou o acesso ao crédito para pequenos negócios, e o Desenrola Pequenos Negócios facilitou a renegociação de dívidas. As novas regras da Tarifa Social de Energia Elétrica ampliaram a gratuidade para famílias de baixa renda. Somam-se a essas medidas ações de regularização fundiária, entrega de títulos e criação de assentamentos da reforma agrária. Em conjunto, essas políticas revelam uma atuação federal que ultrapassa as grandes obras e alcança renda, saúde, educação, trabalho e organização territorial.
As políticas ambientais também precisam ser avaliadas com esse cuidado. Segundo dados do Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite (Prodes), divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento apresentou redução de 41,8% na Amazônia e de 23,8% no Cerrado entre agosto de 2025 e julho de 2026, em comparação com o período anterior. Na porção tocantinense do Cerrado, a queda foi de 15,2%, embora ainda tenham sido suprimidos 1.263,06 km² de vegetação nativa. Os números indicam avanços e limites, mas não autorizam atribuir os resultados exclusivamente a um governo.
Além das ações do governo atual, há realizações construídas por diferentes administrações. Na educação, dois exemplos ajudam a compreender essa continuidade. O Instituto Federal do Tocantins foi criado pela Lei nº 11.892, sancionada por Lula em 2008, mediante a integração da Escola Técnica Federal de Palmas e da Escola Agrotécnica Federal de Araguatins. O IFTO não partiu do zero: incorporou escolas, trabalhadores e estruturas preexistentes, que passaram a integrar um projeto institucional mais amplo.
Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei que criou a Universidade Federal do Norte do Tocantins, por desmembramento da Universidade Federal do Tocantins. A proposta havia sido enviada pelo governo Dilma Rousseff ao Congresso em 2016. Criar, reorganizar e ampliar instituições são processos que envolvem decisões de governos distintos e o trabalho de muitas pessoas.
A ponte de Xambioá também atravessou diferentes administrações. A ordem de serviço foi assinada em 2017, no governo Michel Temer. Os serviços começaram em 2020, durante o governo Jair Bolsonaro, e a inauguração ocorreu em novembro de 2025, no governo Lula, após a execução dos acessos necessários ao funcionamento da travessia. Autorização, construção e entrega são etapas distintas de uma mesma trajetória.
A existência dessas políticas, contudo, não significa que seus resultados sejam percebidos da mesma forma por toda a população. O acesso a um benefício pode representar uma melhoria concreta na vida de uma família sem necessariamente alterar suas convicções políticas. Da mesma forma, quem reconhece avanços em determinada área pode continuar insatisfeito com outros problemas que considera prioritários. É nessa relação entre direitos, expectativas e experiências cotidianas que a análise do voto se torna mais complexa. Por isso, avaliar um governo exige ir além dos anúncios, verificar os resultados efetivamente alcançados e compreender como a população percebe as mudanças em seu cotidiano.
No Tocantins, essa percepção também pode variar conforme a realidade de cada território. As necessidades de quem vive na capital nem sempre são as mesmas de quem mora em pequenos municípios, assentamentos rurais ou comunidades tradicionais. Por isso, avaliar uma política pública exige observar não apenas sua existência, mas também onde chega, quem alcança e quais dificuldades consegue enfrentar.
Transformar propostas em resultados exige recursos no orçamento, equipes qualificadas e capacidade de execução. Na área socioambiental, inclui assegurar a participação de agricultores familiares, povos indígenas, comunidades quilombolas, quebradeiras de coco babaçu e outros grupos historicamente afastados das decisões que afetam seus territórios e modos de vida. O desenvolvimento deve ser avaliado também por seus efeitos na saúde, na produção segura de alimentos e na proteção das condições que sustentam a vida.
Parte da população também manifesta o desejo de alternância de poder. Esse sentimento é legítimo, mas a escolha de uma alternativa deve considerar propostas, trajetória e capacidade de execução. Também é legítimo que parte dos eleitores considere lentos os avanços de um projeto de país ou julgue insuficientes as mudanças observadas no cotidiano. Cabe aos cidadãos cobrar agilidade, correção de falhas e continuidade dos direitos conquistados.
A comparação entre realizações e propostas, porém, não explica sozinha a decisão sobre o voto. Identificação política, valores, experiências pessoais e insatisfações também influenciam essa escolha. Os percentuais das urnas não revelam o peso de cada fator. Por isso enfatizamos que a nossa análise apresenta possíveis explicações e não conclusões definitivas sobre o comportamento eleitoral.
Muitas pessoas também decidem o voto com base em questões morais e comportamentais. Religião, família, sexualidade e valores devem ser tratados com toda atenção e respeito pelo aspirante a um cargo eletivo. O problema surge quando esses temas são usados para alimentar medos, espalhar mentiras ou transformar quem pensa diferente em inimigo. É possível defender convicções pessoais e cobrar propostas para as necessidades coletivas. O governo deve atender toda a população, respeitar diferentes crenças e garantir direitos iguais.
Nossa leitura é que a relação com as comunidades precisa ser construída para além dos períodos eleitorais. Isso significa ouvir as pessoas, compreender suas dificuldades, acompanhar suas demandas e explicar tanto as providências adotadas quanto os obstáculos encontrados. Uma política pública pode produzir benefícios concretos sem que a população compreenda como foi construída, quem a financia ou o que assegura sua continuidade. A confiança, portanto, depende não apenas das entregas realizadas, mas também da presença, do diálogo e da capacidade de responder às necessidades cotidianas. Essa relação exige presença constante, pois visitas realizadas apenas durante as campanhas eleitorais não são suficientes para construir vínculos duradouros.
A comunicação digital pode fortalecer essa aproximação ao explicar decisões, esclarecer dúvidas e estimular a participação. Para construir vínculos, contudo, precisa acolher perguntas, ouvir críticas e responder às preocupações das pessoas. Divulgar obras e gastos do governo ajuda a apresentar resultados, mas não basta quando a população continua sem respostas para os problemas que enfrenta no dia a dia.
No debate político, também é importante distinguir a defesa de uma posição da divulgação de informações falsas. Inventar notícias, adulterar vídeos ou retirar falas de contexto compromete o debate e prejudica a liberdade de escolha. Para formar opinião, as pessoas precisam ter acesso a informações confiáveis. Reduzir o resultado eleitoral à desinformação, porém, impediria compreender outras razões do voto. A democracia exige escuta, respeito e compromisso com a verdade, inclusive para corrigir informações falsas que favoreçam o candidato que apoiamos.
Respeitar as urnas significa procurar compreender o que elas expressam. A votação no Tocantins e em Palmas convida a refletir sobre quais realizações foram reconhecidas, quais insatisfações pesaram e quais relações de confiança foram construídas. Essa reflexão exige disposição para ouvir, inclusive quando as respostas contrariam nossas convicções.
Encerrada a disputa eleitoral, a responsabilidade pública permanece. Lula deve prestar contas das decisões de seu governo e dos compromissos assumidos para o novo mandato. Flávio Bolsonaro, por sua vez, deve ser avaliado por sua atuação no Senado, suas votações, iniciativas legislativas e propostas apresentadas ao país. Embora exerçam funções distintas, ambos estão sujeitos ao escrutínio público. Cabe à sociedade acompanhar suas trajetórias com o mesmo rigor, sem dispensar de fiscalização aqueles com quem mantém afinidade política.
O resultado das urnas no Tocantins lembra que governar não é apenas anunciar investimentos ou executar programas, mas compreender como as decisões públicas chegam à vida das pessoas. O voto envolve experiências, expectativas, valores e diferentes maneiras de enxergar o país. A eleição terminou, mas a cidadania continua. Compreender o voto do outro não exige abrir mão das próprias convicções: exige ouvir, verificar fatos e cobrar de todos os governantes a elaboração e permanência de políticas que melhorem concretamente a vida da população.
- Graduado em Geografia e Pedagogia, mestre em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestrando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas (FGV – EAESP). Professor da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), coordenador do MBA em Mudanças Climáticas e Sistemas da Terra e servidor público da Secretaria de Estado da Educação do Tocantins (Seduc-TO). Atua nas áreas de educação, políticas públicas, planejamento territorial e questões socioambientais. ↩︎
- Graduado em Letras (Português/Inglês) pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), mestre em Letras e doutorando pela mesma instituição. Especialista em Análise do Discurso Político e Jurídico e em Psicologia Analítica Junguiana pela Faculdade Unyleya. Foi professor substituto da UFT (2023–2025), integra o corpo editorial do Grupo de Estudos de Análise do Discurso (GESTADI) e atua em pesquisas sobre discurso político e midiático. ↩︎
