Por Fernando Maciel Vieira  

Existe um conforto curiosamente universal na história do nazismo: o conforto de que aquilo aconteceu com alemães. Povos meticulosos, obedientes ao extremo, culturalmente capturados por um lunático de bigodinho mal aparado. Não nós. Nós, que somos latinos, criativos, improvisadores natos — nós jamais seríamos tão estúpidos. Pois bem. É exatamente essa crença que este artigo vem perturbar, sem anestesia e com alguma ironia — porque quando o assunto é o fascismo, o riso é o último instrumento de defesa antes do silêncio forçado.

Hitler não conquistou a Alemanha à força. Essa é a parte que as pessoas teimam em esquecer. Ele foi convidado. Em janeiro de 1933, o presidente Paul von Hindenburg — um marechal de guerra que desprezava Hitler pessoalmente e o chamava de “cabo boêmio” — o nomeou chanceler porque a elite conservadora achou que poderia usá-lo. “Podemos controlá-lo”, disseram. Genial. É a mesma frase que antecede todas as catástrofes políticas da história humana, proferida com aquele sorriso de quem acha que é mais esperto do que é.

“O fascismo não chega como um inimigo declarado. Ele chega como um salvador cansado de esperar — e a multidão abre o portão porque está com frio, com fome e com raiva de quem estava lá antes.”

Mas a pergunta que mais importa não é sobre os generais conservadores. É sobre o povo. Como 80 milhões de pessoas — entre elas médicos, professores, teólogos, filósofos, trabalhadores comuns com família e horta nos fundos do quintal — permitiram, aplaudiram e, em muitos casos, entregaram os vizinhos? A resposta está na psicologia social, e ela é desconfortável precisamente porque não depende de maldade extraordinária. Depende de algo muito mais banal: o medo ordinário combinado com a necessidade de pertencer.

A Alemanha de Weimar, nos anos anteriores a 1933, era um país destroçado. A derrota na Primeira Guerra, o Tratado de Versalhes — que impôs reparações impossíveis e humilhou uma nação inteira —, a hiperinflação que fez o marco alemão valer menos que o papel em que estava impresso, o desemprego que chegou a 30% durante a Grande Depressão. Nesse cenário, o psicólogo social Erich Fromm publicou em 1941 um livro profético chamado O Medo à Liberdade, onde argumentava que a liberdade, quando acompanhada de insegurança, se torna insuportável. O ser humano, diante do abismo do “você está por conta própria”, corre para se fundir a algo maior: uma nação, um líder, uma causa. A servidão voluntária, como diria Étienne de La Boétie três séculos antes, não é uma anomalia — é uma tentação permanente.

Hannah Arendt, sobrevivente e testemunha, cunhou a expressão que melhor resume o horror: “banalidade do mal”. Adolf Eichmann, o burocrata responsável pela logística do Holocausto, não era um monstro de cinema. Era um homem mediano, sem imaginação moral, que cumpria ordens porque cumprir ordens era o que se fazia. A crueldade industrializada da Shoah não exigiu sádicos em cada posto — exigiu pessoas normais que aprenderam a não pensar. Arendt não diz isso para absolver ninguém. Diz isso para nos avisar: o problema não é a exceção monstruosa. O problema é a normalidade anestesiada.

“Eichmann não odiava judeus com paixão. Era pior: ele simplesmente não se perguntava nada. A ausência de pergunta é a antessala do crime em escala industrial.”

O psicólogo Stanley Milgram demonstrou isso em 1961 — ironicamente, no mesmo ano do julgamento de Eichmann em Jerusalém — com um experimento que deveria ser proibido por ser perturbador demais. Participantes comuns, recrutados em New Haven, aplicavam o que acreditavam serem choques elétricos crescentes em outras pessoas, apenas porque um homem de jaleco branco dizia “continue, o experimento exige”. 65% chegaram à voltagem máxima. Não eram alemães. Eram americanos da classe média. O jaleco branco é o símbolo: a autoridade percebida como legítima dissolve a consciência moral individual com uma eficiência assustadora.

E a propaganda? Ah, a propaganda. Joseph Goebbels merece um capítulo próprio na história dos gênios do mal. Ele entendeu antes de qualquer marqueteiro contemporâneo que a verdade é irrelevante quando a emoção é suficientemente intensa. O nazismo não convenceu os alemães com argumentos — convenceu-os com espetáculo: desfiles com tochas, músicas que faziam a espinha tremer, imagens do inimigo cuidadosamente fabricadas para repulsa instintiva. Guy Debord, décadas depois, chamaria isso de “sociedade do espetáculo”. Neil Postman chamaria de “entretendo-nos até a morte”. A tese é a mesma: quando a política vira show, o cidadão vira plateia — e plateia não pensa, aplaude.

Mas chega de história. Vamos ao presente — que é onde a pergunta do título morde de verdade.

Vivemos numa época em que líderes políticos ao redor do mundo descobriram a fórmula de Weimar com precisão cirúrgica: identifique um inimigo interno (pode ser a elite, pode ser o povo, depende do auditório), prometa grandeza perdida, fale simples o suficiente para parecer honesto e complexo o suficiente para nunca ser responsabilizado. O filósofo Umberto Eco publicou em 1995 um ensaio chamado “Ur-Fascismo” — o fascismo eterno — listando quatorze características que o fascismo assume independentemente do país ou da época. Vale a pena lê-lo numa tarde tranquila, preferencialmente antes de votar.

No Brasil, assistimos com certa regularidade a discursos que celebram torturadores como heróis, que tratam instituições democráticas como obstáculos, que transformam a desinformação em identidade coletiva. Não estou dizendo que estamos na Alemanha de 1933 — seria desonesto e impreciso. Estou dizendo que alguns ingredientes da receita estão disponíveis no mercado, que o fogão está ligado e que ninguém está lendo o manual de segurança. A diferença entre o “já fomos” e o “estamos indo” é, às vezes, apenas uma crise econômica bem posicionada.

“O fascismo não é uma ideologia que se importa consigo mesma. É um método. E métodos podem ser reutilizados — com outros nomes, outras bandeiras, outras playlists.”

O historiador Timothy Snyder, em Sobre a Tirania, oferece vinte lições do século XX para o XXI. A primeira é simples e perturbadora: “Não obedeça antecipadamente.” A maioria das pessoas sob regimes autoritários não foi coagida pela força logo de início — ela simplesmente antecipou o que o poder queria e ajustou seu comportamento antes de ser obrigada. A autocensura preventiva é o mecanismo mais eficiente de controle social já inventado, e o melhor de tudo: não custa nada ao regime, porque o cidadão faz o trabalho.

Então, voltemos à pergunta do título: estamos no mesmo caminho? A resposta honesta é: potencialmente, sim, se não estivermos atentos. O que nos separa do abismo não são virtudes inatas — a história não confirma essa hipótese. O que nos separa são as instituições que insistimos em preservar, os jornalistas que continuamos a ler criticamente, os professores que ensinam a pensar em vez de repetir, e a disposição incômoda de fazer perguntas quando todo mundo prefere que fiquemos em silêncio.

A sociedade alemã não apoiou Hitler porque era má. Apoiou porque estava com medo, humilhada, sem perspectiva, e porque alguém chegou com respostas simples para problemas complexos e com um inimigo conveniente para culpar. Se você reconhece algum desses ingredientes no cardápio político atual do seu país, não é paranoia. É memória histórica funcionando.

E memória histórica, nos tempos que correm, é quase um ato de resistência.

Referências: Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém (1963); Erich Fromm, O Medo à Liberdade (1941); Stanley Milgram, Obedience to Authority (1974); Umberto Eco, “Ur-Fascism”, The New York Review of Books (1995); Timothy Snyder, Sobre a Tirania (2017); Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo (1967); Neil Postman, Amusing Ourselves to Death (1985).