Em um cenário marcado pela circulação acelerada de informações, pela disputa de narrativas e pela expansão das fake news, o livro Os limites da interpretação: teorias do discurso, verdade e fake news, do professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Thiago Barbosa Soares, propõe uma reflexão necessária sobre uma das questões centrais do mundo contemporâneo: até onde vai a liberdade de interpretar e em que momento ela se transforma em manipulação da realidade? 

Publicado pela Pontes Editores, em 2026, o livro resulta de pesquisas desenvolvidas com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apresenta uma investigação sobre as relações entre linguagem, discurso, verdade e circulação de informações falsas. A obra está organizada em seis capítulos e percorre importantes correntes da Análise do Discurso, passando pelas contribuições de Michel Pêcheux, Michel Foucault, Mikhail Bakhtin, Dominique Maingueneau e Patrick Charaudeau. 

O ponto de partida do autor é uma provocação: as fake news não devem ser compreendidas apenas como erros ou acidentes comunicativos, mas como fenômenos relacionados às próprias condições contemporâneas de produção e circulação dos sentidos. Soares argumenta que, quando a abertura interpretativa dos discursos é levada ao extremo, pode ocorrer aquilo que denomina de “esgarçamento da interpretação”: um processo em que a diferença entre uma leitura legítima e uma manipulação deliberada começa a desaparecer. 

A tese central do livro não é um ataque às teorias do discurso, mas uma crítica ao uso simplificado de algumas ideias associadas ao pós-estruturalismo. O autor chama atenção para uma espécie de “vulgata pós-estruturalista”, responsável por popularizar no senso comum frases como “tudo é discurso” ou “não existe verdade, apenas interpretação”. Segundo Soares, essa apropriação superficial contribui para um relativismo interpretativo que favorece a circulação de discursos enganosos. 

Ao discutir a interpretação, o pesquisador recupera diferentes concepções de língua e mostra como cada uma delas influencia a maneira pela qual compreendemos os textos. A obra parte da ideia de que a linguagem não funciona apenas como espelho da realidade nem como simples código de transmissão de mensagens, mas como uma prática social em que sentidos são construídos nas relações entre sujeitos, história e contexto. 

Um dos méritos do livro está em aproximar uma discussão teórica complexa de um problema cotidiano: a desinformação nas plataformas digitais. Para o autor, as redes sociais intensificaram os conflitos interpretativos porque os discursos passam a circular em ambientes regidos não apenas pela linguagem, mas também por algoritmos, disputas políticas e pela economia da atenção. 

O prefácio, assinado pelo professor Roberto Leiser Baronas, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador do CNPq, destaca a inovação teórico-metodológica da obra ao colocar no centro do debate um objeto contemporâneo, as fake news ,articulado às grandes tradições dos estudos discursivos. 

Mais do que diagnosticar o problema da desinformação, a obra propõe uma reflexão ética sobre o ato de interpretar. O livro defende a necessidade de uma responsabilidade interpretativa capaz de preservar a pluralidade de sentidos sem abandonar critérios de validade e compromisso com a realidade. 

Em tempos em que opiniões, fatos, crenças e manipulações frequentemente disputam o mesmo espaço nas telas, Os limites da interpretação oferece uma contribuição relevante para compreender não apenas como lemos os discursos, mas também como eles moldam a própria maneira como enxergamos o mundo.

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