Por Fernando Maciel Vieira

A China entende isso. Xi Jinping leu Gramsci? Provavelmente não. Mas leu Sun Tzu: “A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar.” E o que Trump faz, involuntariamente ou não, é trabalhar para a China sem cobrar comissão.

E que roteiro. Em menos de um mandato e meio, Trump conseguiu questionar a OTAN, insultar aliados históricos, iniciar guerras tarifárias simultâneas com amigos e inimigos, sair do Acordo de Paris, ameaçar o Canadá de anexação e transformar a diplomacia americana em algo que lembra um reality show de negociações — com as câmeras sempre ligadas e o desfecho sempre imprevisível. Se houvesse um prêmio Nobel de Caos Geopolítico Voluntário, a lista de candidatos seria curta.

Enquanto isso, do outro lado do Pacífico, a China pratica o que Sun Tzu chamaria de paciência estratégica com maestria. Xi Jinping não precisa gritar; ele apenas espera. A Rota da Seda já conecta mais de 140 países. O yuan digital avança silenciosamente. E cada vez que os Estados Unidos retiram um embaixador ou abandonam um acordo multilateral, Pequim ocupa o espaço vago com sorriso e infraestrutura.

Há uma cena clássica nos filmes de catástrofe: o personagem que deveria salvar o mundo decide, naquele exato momento, começar uma briga com os próprios aliados, abandonar os acordos que o mantinham vivo e cobrar pedágio na ponte enquanto o meteoro se aproxima. Donald Trump não é um personagem de ficção científica, mas às vezes é difícil ter certeza.

A pergunta que ronda os corredores da geopolítica — e os bares de Berlim, de Brasília e de Pequim — é a mesma que assombrou os estudiosos da queda de Roma: estamos dentro do declínio sem perceber, ou apenas passando por uma turbulência? Edward Gibbon, ao escrever Declínio e Queda do Império Romano, observou que as civilizações raramente morrem de golpes externos — elas primeiro se convencem de que são eternas. Os americanos fizeram isso com uma eficiência admirável.

O historiador Paul Kennedy, já em 1987, em Ascensão e Queda das Grandes Potências, cunhou o conceito de “superextensão imperial” — quando um império gasta mais sustentando sua presença militar global do que produz em riqueza real. Os Estados Unidos, com bases militares em mais de 80 países e uma dívida pública que já superou os 34 trilhões de dólares, seriam o exemplo perfeito. Kennedy não previa Trump, mas certamente reconheceria o roteiro.

Isso significa que o século XXI é chinês? Não necessariamente — e aqui mora o erro mais sedutor da análise geopolítica: confundir declínio relativo com colapso absoluto. O historiador Joseph Nye, criador do conceito de soft power, insiste que os Estados Unidos ainda possuem vantagens estruturais que nenhum país replica facilmente — universidades, capacidade de inovação, sistema financeiro, atração cultural. Hollywood ainda vende mais sonhos do que qualquer estúdio de Xangai. O iPhone ainda é fabricado em Zhengzhou, mas sonhado em Cupertino.

O problema não é que a América esteja fraca. O problema é que ela parece determinada a provar que está. Cada tarifa imposta aos aliados, cada retirada de acordo multilateral, cada tweet às três da manhã sobre a lealdade da Dinamarca é uma pequena pedrada no vidro da hegemonia — que não quebra de uma vez, mas acumula rachaduras. Gramsci chamaria isso de crise de hegemonia: quando o poder ainda existe, mas a legitimidade começa a vacilar.

A China entende isso. Xi Jinping leu Gramsci? Provavelmente não. Mas leu Sun Tzu: “A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar.” E o que Trump faz, involuntariamente ou não, é trabalhar para a China sem cobrar comissão.

Isso, claro, não transforma Pequim num paraíso de poder benigno. O sistema chinês tem seus próprios calcanhares de Aquiles — uma demografia em colapso, uma dívida interna assustadora, uma dependência tecnológica de componentes estrangeiros que as sanções americanas deixaram evidentes, e um Partido Comunista que controla cada pixel de informação dentro de suas fronteiras. Impérios construídos sobre vigilância total têm um custo de manutenção que a história costuma cobrar com juros.

O que estamos vivendo, portanto, não é necessariamente a passagem de bastão de um império a outro. É algo mais complicado, mais difuso e, para os analistas de plantão, muito mais frustrante: a transição para um mundo multipolar onde nenhuma potência sozinha dita as regras — e onde todos fingem que isso é temporário enquanto se arma discretamente.

Trump é o fator final desse processo? Não. Ele é o acelerador. O declínio da hegemonia americana começou antes dele — nas guerras do Iraque e Afeganistão, na crise de 2008, na desindustrialização silenciosa do meio-oeste. O que Trump fez foi tirar o anestésico e mostrar a ferida a olho nu. Às vezes, com certa crueldade didática, a história precisa de alguém assim para tornar o invisível óbvio.

Gibbon teria adorado escrever sobre ele. E Sun Tzu teria sorrido.