Será que a educação não está como os técnicos brasileiros de futebol: perdendo espaço por falta de qualificação?
07 maio 2026 às 17h05

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Por Fernando Maciel Vieira
Essa crença profunda no improviso — essa fé quase religiosa no talento bruto — é o que Zygmunt Bauman chamaria de um traço da modernidade líquida: a aversão ao longo prazo, a desconfiança nos projetos que demoram a dar resultado, a preferência pelo presente efêmero em detrimento da construção paciente. Estudar é lento. Estudar dói. Estudar não dá likes. E numa cultura que confunde velocidade com inteligência e viralização com sabedoria, a formação acadêmica vai ficando com cara de item de luxo — coisa de quem tem tempo, dinheiro e a estranha vocação de ler livros em vez de assistir a reels.
O paralelo com o técnico de futebol não é apenas pitoresco — é estrutural. Durante décadas, o Brasil exportou treinadores para o mundo com base numa pedagogia intuitiva, numa memória do jogo acumulada em campos de terra. Funcionou por um tempo. Mas o futebol globalizado passou a exigir mais: domínio de ciência do esporte, análise de dados, psicologia de grupo, fluência em idiomas, compreensão de contextos culturais distintos. Quem não se qualificou ficou para trás. Hoje, nomes como Tite e Dorival Jr. disputam espaço com profissionais que têm mestrado em ciências do esporte, falam três idiomas e usam plataformas de análise tática que fariam inveja a qualquer departamento de inteligência. A falta de qualificação, que antes era disfarçada pelo charme, agora é desmascarada pela competência.
Há um fenômeno curioso acontecendo nos gramados do futebol brasileiro que, para quem tem olhos além da bola, guarda uma semelhança incômoda com outro campo — esse que não tem arquibancada, mas devia ter: a educação. Os técnicos brasileiros, outrora exportados ao mundo como guardiões de um saber táctico quase místico, andam sendo preteridos nas principais ligas internacionais. Carlo Ancelotti fala italiano com sotaque de campeão. Pep Guardiola pensa o futebol como se tivesse lido Deleuze antes de cada treino. E o Brasil? O Brasil ainda acha que jogo bonito dispensa estudo. É o mesmo argumento, aliás, que usa para justificar décadas de desinvestimento em educação: talento natural basta. Spoiler: não basta.
A questão não é pequena. Segundo o Censo da Educação Básica de 2023, publicado pelo INEP, o Brasil ainda convive com um percentual expressivo de professores sem formação adequada à área em que lecionam — especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a carência de professores habilitados em matemática, física e química chega a índices que fariam corar qualquer ministro. E no ensino superior? O Brasil tem, proporcionalmente, um dos menores índices de população com diploma universitário da América Latina: cerca de 21% da população adulta, segundo dados da OCDE, enquanto países como Chile e Argentina já ultrapassam 30%. Mas afinal, para que estudar, se o jogo pode ser ganho no improviso?
E o profissional brasileiro — não só o técnico de futebol, mas o professor, o gestor, o enfermeiro, o servidor público — está, silenciosamente, vivendo a mesma curva. O mercado de trabalho do século XXI não é hostil ao trabalhador por maldade: é hostil por incompatibilidade. A automação, a inteligência artificial, a reorganização das cadeias produtivas globais estão, metodicamente, substituindo as funções que não exigem atualização permanente. Segundo o Fórum Econômico Mundial, até 2030, cerca de 85 milhões de empregos serão deslocados por automação, enquanto 97 milhões de novos postos surgirão — mas estes exigirão competências que a maioria da força de trabalho atual simplesmente não tem. Qualificação, portanto, não é luxo: é sobrevivência.
Paulo Freire, que o Brasil celebra com a boca mas ignora com as políticas, dizia que ninguém educa ninguém, mas também que ninguém se educa sozinho — e que a educação é um ato de amor e coragem. Talvez a palavra coragem seja aqui a mais precisa. Porque inscrever-se num curso de pós-graduação aos quarenta anos, com dois filhos, uma conta de luz atrasada e um celular velho que trava no meio da aula online, não é coisa de privilegiado: é coisa de corajoso. É a aposta de que o amanhã pode ser diferente do hoje, desde que o presente seja trabalhado com seriedade.
O Brasil, porém, ainda pune essa coragem. Pune com salários que não compensam os anos de estudo. Pune com planos de carreira que recompensam o tempo de serviço mais do que a competência. Pune com um sistema universitário público de altíssima qualidade que convive, paradoxalmente, com uma rede de ensino básico cronicamente mal financiada — como se o andar de cima do edifício fosse suntuoso enquanto o alicerce racha. Segundo dados do Todos Pela Educação, o Brasil gasta por aluno do ensino básico aproximadamente um quarto do que investe por aluno do ensino superior público. Isso não é política educacional: é uma ironia trágica que Boécio narraria do alto da roda da Fortuna.
Voltemos ao campo, para encerrar onde começamos. A seleção brasileira de técnicos está perdendo espaço no futebol internacional não por falta de paixão — somos campeões mundiais nisso — mas por falta de formação sistemática, atualização permanente e abertura para aprender com quem pensa diferente. A seleção brasileira de profissionais corre o mesmo risco. E a diferença entre o técnico que ficou para trás e o que avançou não foi o talento: foi a decisão, muitas vezes solitária e não recompensada imediatamente, de continuar estudando quando o mundo dizia que já era suficiente.
Nunca é suficiente. Essa é a única certeza que a educação — quando honesta — oferece. Não a certeza do emprego garantido, nem a certeza do sucesso fácil, mas a certeza de que quem aprende se torna, progressivamente, mais livre. E liberdade, como dizia Amartya Sen, é o verdadeiro desenvolvimento. O resto — o salário, o cargo, o reconhecimento — são consequências. Às vezes tardias. Mas consequências.
O Brasil pode continuar apostando no talento bruto e na improvisação criativa. Funcionou, por um tempo, nas quatro Copas que vieram antes. Mas o mundo mudou de regras, de ritmo e de exigência. E o técnico que não estudou está na arquibancada — olhando o jogo de longe, com saudade de quando brilhar sem se preparar ainda era o suficiente.
