Fernando Maciel Vieira 

Há uma cena que todo professor conhece de cor. Você está no meio de uma aula, o tema é outro, a lousa está cheia, e de repente uma aluna de quinze anos pergunta, com aquela voz que mistura coragem e vergonha: “Professor, e se uma pessoa não quiser fazer uma coisa, mas for forçada?” O silêncio que se segue não é pedagógico. É o silêncio de alguém tentando, ao mesmo tempo, responder com cuidado, não transformar a pergunta num escândalo, não ignorar o que provavelmente está sendo dito nas entrelinhas, e — seja honesto — não aparecer no próximo conselho de classe como o professor que “falou de abuso sexual sem autorização dos pais”.

Nós, professores, vivemos nesse fio.

E esse fio tem nome técnico: ele se chama currículo, legislação, gestão escolar, pressão de pais, vigilância das redes sociais e, nos últimos anos, um novo ingrediente que tempera tudo: o celular de algum aluno gravando enquanto você tenta salvar uma vida adolescente com delicadeza suficiente para não ser demitido. Bem-vindo à docência do século XXI, onde educar para a vida real exige a habilidade diplomática de um embaixador e a coragem discreta de quem sabe que, se não falar, o silêncio também vai custar caro.

Mas vamos ao que importa: por que isso é tão difícil?

A resposta curta é: porque a escola foi construída para transmitir conteúdo, e não para suportar a realidade. A resposta longa começa com Durkheim, passa por Foucault, atravessa Paulo Freire e termina, invariavelmente, na mesa do diretor. Émile Durkheim, o pai da sociologia da educação, já dizia que a escola reproduz os valores da sociedade. E uma sociedade que ancora na vergonha o debate sobre o corpo, a sexualidade e a violência não poderia gerar uma escola diferente. Então quando um professor tenta romper esse ciclo — quando quer falar de gravidez na adolescência com honestidade, ou de abuso sexual sem eufemismos de apostila — ele não está apenas dando uma aula. Está desafiando um consenso muito mais antigo do que ele.

Foucault, em “Vigiar e Punir”, nos lembrou que o poder não opera apenas pela força, mas pela norma. E a norma escolar atual é clara: eduque para a prova, prepare para o ENEM, não mexa em assunto que traga processo. O professor que foge dessa norma não é punido com chicote. É punido com reunião. Com e-mail da coordenação. Com “precisamos conversar sobre o que aconteceu na sua aula”. Que é, convenhamos, o chicote do século XXI.

E os dados? Porque nós, professores, precisamos de dados quando alguém nos questiona.

O Brasil registrou, em 2022, mais de 83 mil casos de estupro notificados — e especialistas estimam que menos de 10% dos casos chegam às autoridades, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A taxa de gravidez na adolescência brasileira, embora em queda, ainda figura entre as mais altas da América Latina: o IBGE aponta que, em 2022, cerca de 295 mil bebês nasceram de mães entre 10 e 19 anos. Trezentas mil vidas que começaram enquanto outra vida ainda estava terminando de começar. E a escola, que é o lugar onde esses jovens passam seis, sete, oito horas por dia — o que faz com isso? Muitas vezes, espera que a família resolva. Que a família que, em muitos casos, é parte do problema.

Aqui é onde Freire entra — e entra com força. Em “Pedagogia do Oprimido”, ele não está falando apenas de analfabetismo de letras. Está falando do silêncio imposto a quem não tem voz para nomear o que vive. Uma adolescente que não tem palavras para dizer “fui abusada” não é ignorante. É vítima de uma pedagogia do silêncio que nós, professores, podemos perpetuar ou romper. Essa é uma escolha. Não é fácil. Mas é uma escolha.

E a boa notícia — porque precisa existir uma — é que a lei está do nosso lado, desde que saibamos usá-la.

A Lei 13.010/2014, conhecida como Lei Menino Bernardo, reforça a proibição de qualquer forma de violência contra crianças e adolescentes e atribui à escola um papel ativo na proteção. O Estatuto da Criança e do Adolescente, no artigo 13, impõe a qualquer pessoa — e não apenas ao conselho tutelar — o dever de comunicar suspeita de maus-tratos. Isso significa que o professor que ignora um sinal não está sendo discreto. Está, tecnicamente, descumprindo a lei. E a Política Nacional de Educação Sexual Integral, ainda que implementada de forma irregular nos estados, reconhece a escola como espaço legítimo de formação para a saúde e para os direitos.

Ou seja: o professor que fala com responsabilidade está protegido. O que não está protegido é o professor que fala de qualquer jeito — sem preparo, sem escuta, sem metodologia. E aí a diferença entre os dois é exatamente o que separa o jornalismo da fofoca: a intenção, o método e o cuidado com quem está do outro lado.

Na prática, o que funciona?

Funciona trabalhar esses temas de forma transversal, como a própria BNCC orienta. Numa aula de português, analisar a representação da violência na literatura. Numa aula de ciências, abordar o desenvolvimento puberal sem vergonha e sem piada. Em história, questionar por que determinadas violências contra mulheres foram normalizadas em diferentes períodos. Em geografia — e aqui nós nos sentimos em casa — mapear as desigualdades que tornam certas populações mais vulneráveis à exploração sexual e à gravidez precoce. O conteúdo está lá. Só precisa de um professor disposto a puxar o fio certo.

Funciona, também, criar com os alunos um vocabulário comum e seguro antes de entrar nos temas difíceis. O pesquisador Daniel Goleman, pioneiro no conceito de inteligência emocional, demonstrou que ambientes onde as emoções têm nome e espaço produzem alunos mais capazes de reconhecer situações de risco — e de pedir ajuda. Uma sala de aula onde o professor pergunta “como vocês estão?” e espera a resposta não é uma sala frouxa. É uma sala com colchão emocional suficiente para aguentar as perguntas que importam.

E funciona — isso é essencial — registrar tudo. Não por burocracia. Por proteção. Quando abordamos esses temas em sala, é inteligente deixar o planejamento anotado, com os objetivos pedagógicos claros e o vínculo com o currículo explícito. Não porque estejamos errados, mas porque, no calor de um mal-entendido, o papel protege mais do que a boa intenção.

Isso nos traz de volta àquela aluna de quinze anos, com a pergunta que tinha mais camadas do que a lousa comportava.

O que nós, professores, precisamos é de algo que nenhuma formação continuada entrega em apostila: a coragem de permanecer presente diante do desconforto. Não a coragem do herói que resolve tudo. A coragem mais modesta — e mais difícil — de não desviar o olhar, de não mudar de assunto, de não dizer “isso não é assunto de escola”. Porque é assunto de escola. É o assunto mais urgente que existe. E se não for de escola, vai continuar sendo assunto de delegacia, de UPA, de conselho tutelar sobrecarregado e de estatísticas que ninguém mais quer ler porque já ficaram grandes demais para causar choque.

Nietzsche — sim, o Nietzsche que assusta tanto quanto o tema desta coluna — escreveu que “aquele que tem um porquê suporta quase qualquer como”. O nosso porquê é claro: existe, sentado nas carteiras das nossas salas, um adolescente que precisa que alguém diga a coisa certa, no momento certo, sem piscar. O como — o método, a linguagem, o planejamento, o registro — é o que nos protege enquanto cumprimos esse papel.

Somos professores. Não somos terapeutas, não somos delegados, não somos milagreiros. Mas somos, muitas vezes, o único adulto de confiança que aquele adolescente vê durante a semana. E isso, meus colegas, não é um fardo. É um privilégio que exige responsabilidade. E um pouco de coragem.

A dose certa de coragem para responder à aluna — com cuidado, com clareza, com um encaminhamento, e com o planejamento de aula na gaveta — sem perder o emprego.

Por enquanto.