Fernando Maciel Vieira

Em briga de marido e mulher, diz o velho ditado, ninguém mete a colher. Pois alguém devia avisar que, nas escolas brasileiras, essa colher está sendo metida com socos, empurrões e, cada vez mais, com processos judiciais contra o professor que teve a ousadia de aplicar uma prova ou chamar atenção de um aluno em sala. O que era para ser exceção — o pai que perde a cabeça, o aluno que perde a paciência — está virando estatística, e estatística repetida, meus caros leitores, deixa de ser fatalidade e passa a ser sintoma.

Quem com ferro fere, com ferro será ferido, ensina a sabedoria popular. Só que na escola de hoje o ferro parece estar sempre do mesmo lado: o professor advertiu, o professor corrigiu, o professor cobrou — e é o professor quem acaba ferido, literalmente. Vi, há poucos meses, o relato de uma colega de outra rede que teve o carro amassado no estacionamento da escola porque reprovou um aluno que, segundo a mãe, “não merecia aquela nota”. Não houve conversa, não houve reunião, não houve o velho e humilde pedido de explicação: houve taco de beisebol contra o para-choque. A pedagogia do diálogo, ao que parece, andou fazendo greve justamente na hora em que mais fazia falta.

Antigamente se dizia que filho de peixe, peixinho é. Hoje, infelizmente, a máxima se confirma de um jeito que ninguém gostaria: pai que agride professor educa filho para agredir professor. E o ciclo se fecha como um nó cego, difícil de desatar, porque a escola virou o único adulto da história que apanha e ainda tem que preencher relatório da própria agressão sofrida. Conheço professor que hoje pensa duas, três vezes antes de aplicar uma advertência, não porque o aluno não mereça, mas porque sabe que a próxima reunião pode ser marcada não na sala da coordenação, mas na delegacia. Quando o medo entra pela porta da frente, a autoridade pedagógica sai pela janela — e junto com ela sai também a vontade de ensinar com aquela entrega antiga, generosa, que fazia o professor ficar depois do horário só para explicar de novo a matéria para quem não tinha entendido.

Não é exagero, é notícia de jornal, é grupo de WhatsApp de categoria compartilhando mais um vídeo de agressão, é sindicato registrando mais um boletim de ocorrência por semestre. E o pior: quem apanha, na maioria das vezes, é justamente quem menos teria condição de revidar — professora mulher, professor mais velho, professor iniciante que ainda nem aprendeu o nome de todos os alunos da turma. Em casa de ferreiro, o espeto é de pau, diz o ditado — e na escola brasileira, aparentemente, quem devia proteger o educador anda de mãos atadas, entre protocolo e protocolo, enquanto a agressão já aconteceu e o protocolo ainda está sendo redigido.

Há quem diga que é exagero, que são casos isolados, que a maioria dos pais respeita, a maioria dos alunos aprende. E é verdade — mas casa que está pegando fogo não se apaga contando quantos cômodos ainda não queimaram. Um professor agredido é um professor de menos disposto a corrigir, a exigir, a formar caráter; e não existe nação que se desenvolva formando gente sem gente disposta a formar. Se o medo continuar sendo o clima da sala de aula, em breve não vamos discutir metodologia de ensino, vamos discutir escala de plantão policial na porta da escola — e aí, sim, teremos perdido de vez a mão.

Quem educa não pede para ser herói, pede apenas para não ser vítima. E antes que essa frase soe piegas demais para um artigo que começou com humor, fica o convite sério: quem tem telhado de vidro não atira pedra no vizinho, mas quem tem filho na escola também não pode fingir que a pedra não está sendo atirada, todos os dias, contra quem só quer ensinar. Amanhã pode ser o professor do seu filho quem apanha. Depois de amanhã, pode não haver mais professor disposto a ficar.