Fernando Maciel Vieira 

Diz o ditado que quem não tem cão caça com gato. Pois o professor brasileiro, coitado, nem cão nem gato tem: tem é planilha. Uma para o diário de classe, outra para o PPP, outra para o Censo Escolar, outra para o relatório do conselho, e mais uma, só para garantir, para justificar por que ainda não preencheu as quatro primeiras. Se burocracia fosse conteúdo pedagógico, o Brasil já teria ultrapassado a Finlândia há décadas — em documentos, não em aprendizagem, que isso é outra história.

Comecei a dar aula há quase vinte anos, num tempo em que giz, apagador e um caderno de chamada resolviam a vida. Hoje, para dar a mesma aula sobre relevo e clima que dava então, preciso primeiro alimentar uma plataforma, depois outra que não conversa com a primeira, registrar frequência num sistema que cai justamente na hora do registro, e ainda produzir evidências de que ensinei o que ensinei — como se giz e voz não bastassem, como se o aluno sorridente que finalmente entendeu a diferença entre clima e tempo não fosse evidência suficiente. Quem inventou que decorar senha de sistema é sinônimo de qualidade de ensino nunca corrigiu uma prova às onze da noite depois de um dia inteiro em pé.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura — e assim tem sido a relação entre o professor e a burocracia escolar: uma gota de exigência hoje, outra amanhã, mais um formulário depois de amanhã, até que a rocha da vocação docente, tão resistente quanto pareça, começa a rachar. Não é o aluno difícil que mais cansa o professor brasileiro — é o preenchimento. É a reunião pedagógica que dura duas horas para discutir o preenchimento de uma ficha que poderia ser resolvida em cinco minutos, se alguém tivesse a coragem de perguntar: isso aqui serve mesmo para o aluno aprender, ou serve só para alguém, em algum gabinete, dormir tranquilo sabendo que existe um papel assinado?

Outro dia, numa sala de professores de escola pública tocantinense — e aposto que a cena se repete de Norte a Sul —, ouvi uma colega dizer, entre um gole de café e um suspiro, que passou o fim de semana inteiro preenchendo relatório de aluno com dificuldade de aprendizagem. Não corrigindo atividade, não planejando aula diferenciada, não pensando em como ajudar de fato aquele menino: preenchendo relatório sobre o menino. Frei, o rei morreu, viva o rei documental. Trocamos o cuidado pelo comprovante de cuidado, e ninguém, ao que parece, percebeu a esperteza da troca.

E não é só a tecnologia que pesa — é a ilusão de que cada problema da educação brasileira se resolve com mais um formulário. Professor bebeu água? Assinar. Aluno saiu para o banheiro? Registrar. Faltou luz na escola? Relatório de ocorrência em três vias. Em compensação, quando falta professor de verdade, quando falta merenda de verdade, quando falta telhado que não vaza, aí o sistema emudece, porque para isso não existe campo obrigatório a preencher. Quem inventou a burocracia parece ter aprendido cedo que papel não reclama, não greva, não adoece — diferente do professor, que já vem adoecendo em silêncio, atestado após atestado, enquanto o sistema continua pedindo mais um clique, mais uma senha, mais uma assinatura digital.

Não se trata de recusar organização — escola sem registro é como casa sem porta, todo mundo entra e ninguém sabe quem saiu. O problema é outro: é quando o meio vira fim, quando preencher a ficha se torna mais importante do que resolver o que a ficha deveria apontar. Em time que está ganhando não se mexe, dizem por aí, mas ninguém nunca disse que em time que está afundando também não se pode mexer. E o time da educação pública, cada vez mais, está é remando contra sistemas que travam, plataformas que se multiplicam e prazos que se sobrepõem, enquanto o aluno — esse, sim, o verdadeiro motivo de tudo — espera, na ponta da fila, por um professor que já não tem mais tempo de olhar para ele com calma.

Que fique registrado, então — em papel, se for preciso, já que é a única linguagem que certos gestores parecem entender —: antes de criar mais um sistema, mais uma planilha, mais um relatório, alguém deveria perguntar ao professor, cara a cara, sem formulário de por meio, o que ele realmente precisa para dar boa aula. A resposta, garanto, não vai pedir senha de acesso. Vai pedir tempo. E tempo, ao contrário de burocracia, não se cria clicando em “enviar”