O etnocentrismo na escola: uma cultura a ser combatida
24 julho 2026 às 09h27

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Luiz Adriano Lucena Aragão1
Todos os dias convivemos com diferenças culturais, religiosas, sociais e étnicas. Por que tantas delas ainda despertam medo, rejeição ou violência? No clássico livro A conquista da América: a questão do outro (2003), Tzvetan Todorov, filósofo e linguista búlgaro, analisa os acontecimentos que marcaram, do ponto de vista antropológico, o encontro dos europeus com os nativos da América. O autor examina as evidências documentais (diários, cartas, relatórios) do século XV para questionar visões estereotipadas que serviram de justificativa para o domínio bélico exercido pelo velho continente. O que se colocou em xeque foi a visão de espanto diante do “outro”. Essas reflexões permanecem atuais porquê ainda necessitamos enxergar as diferenças de forma natural. Como perceber as assimetrias culturais, mantendo as simetrias de valores?
As manifestações contemporâneas do etnocentrismo assumem diferentes formas. Ainda perduram na sociedade brasileira e também nas escolas posturas etnocêntricas expressas nos mais variados grupos. É um lugar-comum, denominações religiosas não agirem de forma ecumênica, demonstrando estranheza pela crença distinta da sua. Há vários exemplos de perseguições e de desrespeitos, sobretudo, quando se trata de religiões de matrizes africanas como candomblé e umbanda. Na história da população negra no Brasil a perspectiva eurocêntrica quis apagar a imensa importância econômica, demográfica e cultural dos afrodescendentes. Com o objetivo de reconstruir e ressignificar a memória tanto das populações negras quanto dos indígenas novos estudos decoloniais em curso almejam problematizar os efeitos persistentes do colonialismo em nosso país.
As relações coloniais também contribuíram para a difusão de concepções patriarcais, uma vez que diversos estudos indicam que muitos povos originários não menosprezavam a figura feminina. O patriarcado que estrutura a sociedade sob a ótica da supremacia masculina ainda ecoa de forma trágica no âmbito social. Dados da Folha de São Paulo revelam que apenas no primeiro semestre de 2026 mais de 740 mulheres foram vítimas de feminicídio. Os autores dos crimes são homens, companheiros ou ex-companheiros e os locais dos crimes, em maior parte, são nas residências das vítimas. Essas hostilidades às mulheres, de forma doentia e agressiva, explica-se, em parte, pelo comportamento misógino que se preservou até hoje. Parte da literatura em psicologia e sociologia mostra que os indivíduos se sentem sufocados em sua masculinidade e para reverter suas inseguranças demonstram virilidade através da violência. É a forma de manter-se no controle de uma estrutura social falida.
Quando um grupo considera seus valores superiores aos dos demais, diferentes formas de discriminação encontram terreno para se desenvolver. A homofobia revela a todo tempo discriminações sociais em relação às pessoas que têm relações homoafetivas. É a repulsa e o ódio aos homossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. O medo do outro por não aceitar que os seres humanos possam ter atração pelos indivíduos de mesmo gênero. Nem a ciência chegou a um denominador comum, do ponto de vista social e biológico, do porquê dessa afinidade e desejo entre pessoas do mesmo sexo. Não existe motivo racional para a ira descomedida com grupos homoafetivos. A lógica seria tão mais simples se as pessoas fizessem o exercício de descentração, desviar-se do centro social com uma atitude empática. Ter uma conduta humanizada em situações que envolvem segregações e suas variantes discriminatórias requer pensar tais comportamentos dentro da escola em um movimento de oposição e conscientização dessas temáticas e suas consequências sociais ao longo da história.
Colocar-se como superior é uma atitude tão enraizada na maneira de agir das pessoas que as condutas inadequadas acabam por ser “normalizadas”. No Brasil, o fenômeno da “fatphobia”, termo em inglês relacionado à prática de humilhar pessoas com sobrepeso, ganhou uma versão aportuguesada do comportamento que se entende por gordofobia, um termo que traduz a violência da discriminação. Nas escolas tanto as pessoas com algum tipo de obesidade quanto as que apresentam deficiências físicas ou intelectuais são vítimas do capacitismo, crença em corpos melhores, perfeitos e superiores, e do bullying, uma importunação sistemática, geradora de muita dor, humilhação psíquica e moral que se repete até minar por completo a humanidade do ofendido. Essas diferentes formas de discriminação compartilham um mesmo mecanismo social. O bullying produz impactos tão profundos no ambiente escolar que figura entre as principais causas de suicídio entre os jovens.
A questão etnocêntrica é o pano de fundo para os choques culturais. De um lado tem-se o eu, com vestimentas iguais, gostos parecidos, crenças, valores e costumes semelhantes. Na outra ponta, o grupo dos diferentes com posturas e pensamentos e ações dessemelhantes. Esse mal-entendido sociológico, expressão utilizada por Everardo Rocha, em seu livro O que é etnocentrismo, revela que a diferença é ameaçadora porque coloca à prova a própria identidade de grupos sociais. O diferente fissura a história única e intocável. A autora nigeriana Chimamanda Adichie, na conferência internacional, de 2009 no Reino Unido, trouxe o questionamento de como é perigoso se contar apenas um lado da história, que a imagem que se faz do outro quando depreciativa “ cria uma narrativa única, mostrando um povo como uma coisa só, repetidamente, e é nisso que eles se transformam”.
O perigo da história única trazido pela escritora nigeriana é semelhante aos problemas de interpretação histórica vivenciados nos bancos escolares, por exemplo, quando nos deparamos com as narrativas sobre os bandeirantes paulistas os quais utilizam expedições marcadas por extrema violência contra os povos indígenas e comunidades quilombolas. Por muito tempo na historiografia foram vistos como heróis nacionais. O nosso passado foi único e eurocêntrico escrito no livro didático para ser decorado e reproduzido sem ser questionado. Um percalço educacional e histórico cujos males estão sendo todos revistos nas pesquisas e estudos atuais.
Na escola pública, onde as desigualdades e as diferenças sociais se manifestam com maior intensidade, os desafios de combate aos mecanismos de depreciação social do outro são maiores de se colocar em prática, pois necessitam de políticas públicas e apoio institucional. Não raras vezes, torna-se alvo de discursos que a acusam de promover doutrinação ou ideologização quando aborda temas relacionados à cidadania, à igualdade de gênero, aos direitos humanos e à justiça social. A escola deve formar sujeitos capazes de compreender as relações antropológicas dos diversos grupos sociais, respeitando a diversidade e os direitos de todas as pessoas.
Educar o olhar, trocar repetidas vezes de lugar com o outro, ser empático e experimentar as diversas posições sociais nos faz crescer enquanto sociedade e nos coloca diante de uma posição sensível aos acontecimentos e às assimetrias culturais. A escola precisa desenvolver um olhar crítico e aguçado para todas as questões aqui debatidas através de um currículo multicultural que possa aproximar diferentes grupos sociais, sem jamais perder a ternura nas ações de lidar com o “outro”. Mais de cinco séculos depois do encontro narrado por Todorov, continuamos aprendendo que reconhecer o outro talvez seja uma das tarefas mais importantes da educação.
- Historiador e pedagogo, mestre em História Social da Cultura Regional (UFRPE), servidor do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) e pesquisador em Educação. Seus estudos e artigos refletem sobre os desafios da escola contemporânea, compreendendo a educação como instrumento de formação cidadã, compreensão crítica da sociedade e transformação social. Atua principalmente nas áreas de ensino de História, cultura digital, metodologias de ensino, tecnologias educacionais e formação docente. ↩︎
