O Tocantins que os planos de governo não enxergam
08 setembro 2026 às 16h53

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Por Ian Prates
O Tocantins chega à eleição de 2026 muito diferente daquele das primeiras décadas de sua existência. Entre 1991 e 2022, a população cresceu 64,6%, o analfabetismo caiu de 30,1% para 8,5% e a pobreza recuou fortemente. A economia também avançou: em 2023, o PIB chegou a R$ 64,3 bilhões e acumulou crescimento real de 173,1% desde 2002 – o segundo maior entre os estados no período – enquanto o desemprego ficou abaixo de 5% em 2025.
Mas, longe de desaparecer, os desafios se tornaram mais concentrados e complexos. Em 2022, a pobreza atingia 52,7% da população rural, 53,4% das crianças e 76,5% dos indígenas. Ao mesmo tempo, 42,3% dos trabalhadores recebiam até um salário mínimo. No plano econômico, os serviços respondiam por 62,9% do valor adicionado, a agropecuária por cerca de 23,7% e a indústria por apenas 13,4%. A agropecuária, apesar de seu peso econômico, reunia somente 11,4% dos ocupados, evidenciando que crescimento do PIB e geração de empregos não caminham necessariamente juntos.
O próximo salto de desenvolvimento depende, portanto, de maior agregação de valor, diversificação produtiva, serviços de maior produtividade, qualificação e mobilidade ocupacional – e não apenas da criação de vagas ou geração de valor setorial. Isso também é territorial: 88 dos 139 municípios têm os serviços como principal setor econômico, 48 têm a agropecuária e apenas três têm a indústria como atividade dominante. Além disso, os dez maiores PIBs municipais concentram 56% da economia estadual.
Somam-se envelhecimento populacional, desigualdade de gênero no trabalho e os efeitos da mudança climática sobre setores e ocupações. O desafio de 2027 é identificar quem ficou para trás, onde e em qual estrutura econômica.
É justamente aí que os dados do Censo 2022 revelam sua maior riqueza. A análise dos 139 municípios identifica quatro perfis bastante diferentes. 14 polos urbanos e regionais concentram 54,6% da população. Outros 42 municípios de vulnerabilidade rural severa reúnem apenas 13,9% dos habitantes, mas 20,4% de todas as pessoas pobres do Estado. Há ainda 37 municípios marcados pela combinação de ruralidade, envelhecimento e serviços dispersos e 46 pequenos e intermediários que concentram 26,6% da população pobre.
As diferenças são substantivas. No grupo de maior vulnerabilidade rural, o município típico apresenta 53,2% de pobreza, 71,7% de pobreza infantil, 15,2% de analfabetismo e apenas 68,8% dos domicílios com internet. Estão nesse perfil municípios como Carrasco Bonito, Recursolândia, Goiatins, Babaçulândia, Lizarda, Esperantina e Paranã. Ainda é possível identificar vinte municípios para prioridade intensiva: eles somam somente 7,4% da população estadual, mas acumulam simultaneamente pobreza, baixa renda, ruralidade, analfabetismo e déficits de infraestrutura muito acima da média.
Nem mesmo os municípios mais ricos são homogêneos. Em Palmas, a diferença na taxa de pobreza dentro da cidade chega a cerca de 39 pontos percentuais; em Porto Nacional, a 36 pontos. Mesmo a média municipal, portanto, pode esconder territórios profundamente distintos.
A conclusão deveria ser simples: não se governa territórios diferentes, com estruturas econômicas e vulnerabilidades distintas, com o mesmo pacote de políticas públicas.
É justamente aqui que, embora abordem o desenvolvimento regional, os planos de governo mostram limitações. Alguns propõem regiões estratégicas, cidades-polo, critérios de priorização, consórcios e sistemas de acompanhamento; outros apresentam projetos para Bico do Papagaio, Jalapão, Serras Gerais, Araguaína, Augustinópolis e Xambioá ou reorganizam estruturas administrativas em torno do desenvolvimento territorial. Também aparecem propostas de regionalização de infraestrutura, serviços, qualificação e desenvolvimento produtivo. Em comum, porém, os documentos avançam pouco em uma estratégia capaz de comparar sistematicamente os 139 municípios e fazer essa evidência determinar a intensidade e o tipo de política aplicada em cada território.
O problema não é, portanto, ausência completa do tema. É que os planos ainda estão aquém das informações hoje disponíveis. Nenhum estrutura sua estratégia a partir de indicadores concretos como vulnerabilidade rural severa; territórios que combinam envelhecimento e perda de dinamismo econômico; bolsões intraurbanos; ou do cruzamento entre vulnerabilidade uma estrutura produtiva.
Essa lacuna aparece também na transição verde. Mudança climática não produzirá os mesmos efeitos em Palmas, Jalapão, Bico do Papagaio ou nos municípios fortemente dependentes da agropecuária. Em 2023, por exemplo, Tocantínia cresceu 106% impulsionada pelo algodão, enquanto Campos Lindos teve retração de 46%, associada sobretudo à soja e a quedas em outras atividades – um exemplo de como ciclos produtivos, clima e preços podem ter efeitos locais muito maiores do que mostram as médias estaduais. Identificar onde surgirão empregos verdes, onde ocupações serão transformadas e onde será necessária requalificação deveria fazer parte da estratégia territorial.
O Tocantins já dispõe de dados para uma política pública muito mais sofisticada. O desafio é fazer o debate político alcançar o mesmo nível de sofisticação. Porque territorializar não significa apenas prometer obras “para todas as regiões”. Significa saber onde o problema é maior, qual política cada território necessita, quem precisa de maior prioridade e como avaliar, nos próximos quatro anos, o que funcionou e o que precisa mudar.
Ian Prates: É pesquisador sênior do Anker Research Institute e Diretor da Iniciativa ARI-CEBRAP para Salários Dignos no Brasil. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), também colabora com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) na área de trabalho decente e cadeias de valor sustentáveis
