Por Fernando Maciel Vieira

Por um observador da condição humana em tempos de hipocrisia civilizada

A desumanização como política pública NÃO DECLARADA

O filósofo Paulo Freire — que o Brasil adora citar e raramente aplica — escrevia em Pedagogia do Oprimido que a desumanização não é destino, mas resultado de uma ordem injusta. Curiosamente, o debate progressista sobre segurança pública opera frequentemente com uma cegueira seletiva: enxerga com precisão cirúrgica a desumanização do suspeito pobre e negro nas mãos de policiais violentos, mas não enxerga — ou não quer enxergar — que o policial pobre e negro que comete essa violência também foi, ele mesmo, desumanizado pelo mesmo sistema que ele representa.

Não se trata de absolver violências — nenhuma é aceitável. Trata-se de entender que um ser humano submetido a turnos de 24 horas, pagamento de fome, falta de equipamentos, ambiente institucional de autoritarismo crônico, sem suporte psicológico e com uma família que vive com medo permanente de receber a notícia, esse ser humano não opera em plena capacidade moral. Exigir de alguém em colapso que seja um herói ético é conveniente para quem formula as exigências de um gabinete com ar-condicionado.

O psicólogo Albert Bandura chamou esse mecanismo de desengajamento moral: quando as condições institucionais sistematicamente erodem os mecanismos de autorregulação moral de um profissional, a violência não é anomalia — é produto esperado do sistema. Punir o agente sem reformar a estrutura é teatro. Teatro caro, com réus reais, mas teatro.

Há um fenômeno curioso que se repete em seminários, podcasts, manifestos de campanha e mesas-redondas sobre segurança pública no Brasil: todo mundo fala sobre segurança pública. Especialistas, sociólogos, influenciadores digitais, vereadores, senadores, pastores, mães de vítimas, ex-presidiários iluminados, coaches de alta performance e até chefs de cozinha que um dia foram assaltados têm algo profundo a dizer. Todos, absolutamente todos — exceto, curiosamente, aquele sujeito que acorda às quatro da manhã, veste uma farda, pega uma arma e vai para a rua enfrentar o que nenhum dos palestrantes acima toparia enfrentar por nenhum salário do mundo.

O policial, esse personagem quase mitológico na conversa pública brasileira, existe no debate essencialmente como problema. Raramente como pessoa. Quase nunca como solução humana. E nunca — mas nunca mesmo — como alguém que também precisa ser cuidado para cuidar.

Segurança pública é, antes de tudo, processo de humanização

Aqui chegamos ao ponto que incomoda. Segurança pública não é, em sua essência, um problema de equipamento, de legislação, de câmeras de monitoramento ou de inteligência artificial preditiva — embora tudo isso importe. Segurança pública é, fundamentalmente, um processo de humanização: da comunidade que precisa ser protegida, do suspeito que precisa ser tratado com dignidade mesmo quando culpado, e do policial que precisa ser reconhecido como pessoa antes de ser cobrado como herói.

O filósofo Emmanuel Lévinas dizia que a ética começa no encontro com o rosto do outro — na percepção de que diante de mim há um ser vulnerável que me interpela. A segurança pública que funciona, nos países onde funciona, começa quando a sociedade olha para o policial e vê um rosto humano: com medo, com dúvidas, com família, com limites, com dignidade que merece ser preservada.

Finlândia, Noruega, Nova Zelândia — os países com os sistemas de segurança mais eficazes do mundo investem pesadamente não apenas no treinamento técnico de seus policiais, mas em saúde mental, em rotatividade que previne burnout, em salários dignos, em suporte psicológico institucionalizado, em cultura organizacional que valoriza o bem-estar do agente como condição para o bem-estar da comunidade. Não por bondade. Por lógica: um policial psicologicamente saudável toma decisões melhores. Decisões melhores salvam vidas — inclusive, e especialmente, de suspeitos.

“A polícia é o único grupo que se espera que resolva todos os problemas da sociedade que não foram resolvidos por nenhuma outra instituição.”

Egon Bittner, sociólogo, The Functions of the Police in Modern Society, 1970

O fantasma da farda

Hannah Arendt, em A Condição Humana (1958), distinguia entre trabalho, labor e ação. O policial, fascinantemente, exerce os três simultaneamente: labora com o corpo em risco constante, trabalha produzindo ordem social e age — no sentido pleno da praxis política — em nome de uma coletividade que frequentemente se envergonha de reconhecê-lo. É o paradoxo do agente do Estado: indispensável demais para ser dispensado, incômodo demais para ser genuinamente integrado.

O filósofo Axel Honneth, na sua teoria do reconhecimento, argumenta que a negação de reconhecimento social a um grupo não é apenas injustiça — é violência simbólica que produz sofrimento real e corroe identidades. Quando uma sociedade debate incansavelmente o “modelo de policiamento ideal” sem jamais perguntar ao policial como ele se sente fazendo esse trabalho, ela está cometendo exatamente esse tipo de violência. Refinada, bem-intencionada, frequentemente progressista na embalagem — mas violência.

“Ser reconhecido significa, em última instância, que os outros confirmam que você tem valor como pessoa. Sem esse reconhecimento, o sofrimento social começa.”

— Axel Honneth, Luta por Reconhecimento, 1992

Do concurso ao colapso: a trajetória silenciosa

Vamos fazer um exercício de empatia radical — que, aliás, é o que a sociedade costuma exigir de todos, exceto de si mesma em relação ao policial. Imagine: um jovem de 22 anos, filho de família de classe trabalhadora em alguma cidade média do interior, estuda por dois ou três anos para um concurso de soldado. Cursinhos pagos com sacrifício, madrugadas com apostila, ansiedade crônica. Passa. A alegria é genuína — estabilidade, identidade, propósito.

Então começa o curso de formação. Ali, o Estado lhe ensina, em médias de seis meses a um ano, a usar armas, a imobilizar suspeitos, a agir sob pressão letal. Mas — e aqui a ironia tem sabor de tragédia — raramente lhe ensina com igual profundidade como processar o trauma de ver um colega morto, como manter um casamento enquanto trabalha escala 12×36 com plantões extras, como dormir depois de ter atirado em alguém, como não se tornar o que combate quando o Estado o abandona à própria sorte.

Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023), mais policiais morrem no Brasil do que em países em guerra declarada. Em 2022, foram 99 policiais mortos em serviço. Outros 180 morreram fora de serviço — porque o bandido não respeita folga. Mas o número que menos aparece nos debates é outro: o de policiais mortos por suicídio, que em vários estados supera o de mortos em confronto. O inimigo interno, esse, não vende manchete.

“O sofrimento do policial é o elefante na sala de todo debate sério sobre segurança pública. Enquanto não o enxergarmos, estaremos sempre discutindo sintomas.”

Pesquisadora Jacqueline Muniz, socióloga especialista em segurança pública

O debate que preferimos não ter

Preferimos debater segurança pública como se o policial fosse uma variável constante — um recurso que está sempre disponível, sempre funcional, sempre moralmente íntegro, independentemente de como o tratamos. É a mesma lógica com que tratamos professores, enfermeiros e garis: exigimos muito, pagamos pouco, aplaudimos no discurso e ignoramos na prática.

A diferença é que quando o professor entra em burnout, os alunos ficam sem aula. Quando o policial entra em colapso, os resultados são dramaticamente mais visíveis — e então o debate sobre segurança pública esquece de investigar as causas e parte diretamente para a condenação moral do efeito. É mais confortável.

Talvez o debate mais urgente que o Brasil precise ter sobre segurança pública não seja sobre armamento, nem sobre abordagem policial, nem sobre encarceramento em massa. Talvez seja este, simples e devastador: estamos dispostos a reconhecer o policial como ser humano? E tudo o que essa pergunta implica — em termos de investimento, de política pública, de respeito institucional, de suporte real, de carreira que não destrua quem a escolheu?

Enquanto a resposta for “sim, mas depois”, a segurança pública continuará sendo um problema que discutimos muito, em eventos muito bem-organizados, com muitos aplausos no final — e que se resolve muito pouco, na rua, às quatro da manhã, quando nenhum de nós está lá.

Porque lá, às quatro da manhã, só tem ele. E nós preferimos fingir que isso não diz nada sobre nós.

Referências e fontes: Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2023) · Hannah Arendt, A Condição Humana (1958) · Axel Honneth, Luta por Reconhecimento (1992) · Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido (1968) · Egon Bittner, The Functions of the Police in Modern Society (1970) · Emmanuel Lévinas, Totalidade e Infinito (1961) · Albert Bandura, teoria do desengajamento moral (1999) · Jacqueline Muniz, pesquisas sobre saúde do policial (UERJ/FGV).