Por Fernando Maciel Vieira |  Paranã (TO), maio de 2026

Há perdas que não cabem em nenhum formulário escolar. Não existe campo para preencher quando um aluno parte antes de receber o diploma que sonhou. Não há protocolo administrativo, não há circular da Secretaria, não há ata de conselho que dê conta de registrar o tipo de ausência que Kauã Dias deixou nos corredores do Colégio Estadual Desembargador Virgílio de Melo Franco, em Paranã.

Ele acordou cedo. Como todo dia.

Essa frase simples carrega um mundo inteiro. Kauã não tinha o luxo da comodidade. A estrada era longa, o transporte escolar era uma incerteza que ele enfrentava com uma determinação silenciosa — daquela que não pede aplauso, não posta nas redes, não espera reconhecimento. Ele ia. Porque havia nele algo que muitos perdem antes mesmo de tentar: a convicção de que estudar é um ato de amor. Amor pela própria vida. Pelo futuro que ainda não chegou, mas que ele já podia sentir.

O que fazemos com uma perda assim?

Perder um aluno é uma experiência que rasga por dentro de um modo que a profissão não ensina a suportar. A sala de aula tem uma memória afetiva muito específica: cada cadeira guarda uma presença, cada silêncio tem um rosto. E quando esse rosto some — não por transferência, não por desistência, mas por uma brutalidade irreversível — o vazio que fica não é apenas emocional. É pedagógico. É político. É humano.

Kauã lutou pelo que muitos descartam: uma chance. Uma aula. Um dia a mais de aprendizado. Ele sabia, talvez sem as palavras exatas, que educação não é obrigação — é libertação. É o caminho mais honesto que existe para transformar o que se nasce no que se pode ser. Ele sabia disso na prática, no sacrifício cotidiano de quem pega uma estrada difícil e não recua.

E nós ficamos aqui — com as salas cheias, os livros intactos, o tempo nas mãos — às vezes desperdiçando o que ele teria dado tudo para ter.

Isso precisa nos cortar por dentro. Não como culpa paralisante, mas como convocação. Se a partida de Kauã não nos acorda, o que vai? Se essa dor não vira propósito, desperdiçamos até a saudade.

O legado que não se abandona

Honrar um aluno que partiu não é apenas fazer uma cerimônia, colocar uma foto na parede ou acender uma vela. Honrar é agir diferente. É olhar para os que ainda estão aqui e decidir, com inteireza, que cada um deles importa — cada história, cada dificuldade, cada manhã de esforço invisível.

Honrar Kauã é se recusar a naturalizar a evasão escolar. É não aceitar como inevitável que crianças e jovens do interior do Brasil acordem cedo e não tenham garantia de chegar. É exigir — com voz alta e com documentos assinados — que o transporte escolar seja tratado como o direito fundamental que é, e não como um favor político de quatro em quatro anos.

Honrar é lutar. E lutar, aqui, significa defender uma escola pública que funcione de verdade: com estrutura, com professores valorizados, com políticas que cheguem até onde chegam as estradas de chão.

Uma palavra de gratidão à SEDUC-TO

É justo registrar aqui um reconhecimento à Secretaria de Estado da Educação do Tocantins — SEDUC-TO — pelo suporte oferecido à nossa comunidade escolar nesse momento de dor. A presença institucional em horas de luto não é pequena coisa. Ela diz que o Estado enxerga os rostos atrás dos números, que há um sistema que se importa quando uma vida jovem se vai.

Mas esse reconhecimento não pode ser só de consolo. Precisa se converter em política. O que a SEDUC-TO faz em momentos de exceção, a escola precisa sentir todos os dias: apoio real ao transporte escolar, ampliação de rotas, manutenção de veículos, segurança nas vias, e um programa robusto de permanência que garanta que jovens como Kauã não dependam apenas da própria determinação para chegar à escola.

A determinação de Kauã era extraordinária. Mas nenhuma criança deveria precisar ser extraordinária para ter acesso ao ordinário. Educação de qualidade não é prêmio para os persistentes — é direito de todos.

A você que ainda pode escolher

Se você é estudante e está lendo este texto: vá à escola. Não porque é obrigação. Não porque alguém mandou. Mas porque existe um menino que queria muito estar no seu lugar — e a vida, injustamente, interrompeu essa possibilidade.

Vá pela manhã em que você teve preguiça e ele acordou cedo assim mesmo. Vá pela aula que você pulou achando que não faria falta. Vá com a intensidade que ele amava — aquela que estava no jeito de aparecer, de sorrir, de estar. Leve o caderno como se fosse sagrado. Porque para quem não tem acesso, ele é.

Se você é pai ou mãe: não subestime o que é levar seu filho à escola. É um ato político, afetivo e civilizatório ao mesmo tempo. Cada criança que chega à sala de aula é uma vitória contra tudo o que o país tem de mais cruel.

Se você é professor: continue. Mesmo nos dias em que parece inútil, continue. Porque Kauã nos lembra que do outro lado da carteira existe sempre alguém que acredita mais na escola do que às vezes nós mesmos acreditamos.

Se você é gestor, secretário, vereador, deputado: o transporte escolar não é item de pauta secundária. É linha de vida. É o que separa a permanência da evasão, o futuro do abandono. Invista nisso. Não como favor, mas como dívida civilizatória que esse país tem com sua juventude mais pobre.

Descanse em paz, Kauã Dias.

Você partiu lutando.

Que nós vivamos à altura disso.