A desistência de Irajá Abreu (PSD) da disputa pela reeleição não encerrou sua participação na corrida pelas duas vagas do Tocantins no Senado. O parlamentar já declarou Ronaldo Dimas (Podemos) como um de seus votos, mas seus movimentos posteriores mostram uma atuação mais ampla: participou de conversas que incluem Eduardo Gomes (PL) como opção para a outra vaga e mantém pontes com o grupo de Vicentinho Júnior (PSDB), que tem Alexandre Guimarães (MDB) para senador.

A movimentação coincide com uma avaliação feita pela ex-senadora Kátia Abreu a interlocutores: Gomes e Alexandre chegam fortes na disputa e têm condições de conquistar as duas cadeiras. Ao mesmo tempo, parte da estrutura política que acompanhava Irajá passou a ser disputada por outros candidatos, principalmente Carlos Gaguim (União Brasil).

Dimas e Gomes

Dimas ocupa uma posição diferente nesse desenho porque é o compromisso que Irajá já tornou público. A reunião realizada na semana passada em Gurupi ajuda a mostrar como esse voto pode conviver com outras composições. Irajá esteve no encontro ao lado do irmão, Iratã Abreu (PSDB), candidato a deputado federal, e do prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos (Podemos). A conversa, ligada ao grupo do ex-vereador Walter Júnior, passou pela busca de apoio regional para Iratã e por uma composição com Dimas e Gomes para as duas vagas do Senado. A prefeita Josi Nunes já está entre os apoiadores da reeleição de Gomes.

Gomes também aparece em outras bases que mantinham relação próxima com Irajá. Em Porto Nacional, o prefeito Ronivon Maciel declarou apoio ao senador do PL depois da desistência do parlamentar do PSD. Ronivon era aliado de Irajá, que destinou recursos ao município, entre eles quase R$ 20 milhões para perfuração de poços. Em Palmas, há outra conexão: Irajá construiu relação política com Eduardo Siqueira, destinou emendas à Capital e tem aliados ligados ao seu grupo na administração municipal. Iratã recebeu apoio de Carlos Amastha e de integrantes do primeiro escalão da prefeitura, enquanto Eduardo já declarou Gomes como um de seus votos para senador.

Gaguim

A saída de Irajá também abriu uma disputa por prefeitos, lideranças e estruturas que estavam próximas de sua candidatura. Gaguim avançou sobre parte desse espaço. Não se trata de uma transferência organizada pelo senador do PSD, mas de uma consequência da retirada de seu nome da eleição: sem Irajá na cédula, lideranças que estavam em seu entorno passaram a buscar outros candidatos. Gaguim tem um perfil de construção política semelhante nesse aspecto, baseado na relação direta com prefeitos e lideranças municipais, e conseguiu incorporar parte desse grupo à própria campanha.

Esse avanço ajuda a separar duas coisas. Uma é a posição pessoal de Irajá na eleição para o Senado, com Dimas declarado e sinais de construção também na direção de Gomes. Outra é o destino de uma base que o senador reuniu ao longo do mandato e que não necessariamente acompanha suas escolhas. Gaguim conseguiu ocupar parte desse espaço, enquanto outros aliados seguiram caminhos distintos. A desistência, portanto, não produziu uma transferência em bloco, mas uma dispersão de forças que hoje beneficia diferentes candidaturas.

Alexandre

Há ainda a frente ligada a Alexandre. Nesta segunda-feira, 24, Vicentinho publicou um encontro com candidatos do PSB a deputado federal ligados ao campo de influência de Irajá. Embora o partido esteja formalmente na coligação de Laurez Moreira (PSD), a aproximação desses nomes com o tucano cria um canal com a chapa que tem Alexandre para o Senado. Iratã reforça essa ligação: deixou o PSD e disputa uma cadeira na Câmara pelo PSDB comandado por Vicentinho.

O quadro ajuda a explicar a posição peculiar de Irajá depois da desistência. Dimas é seu voto declarado; Gomes aparece em conversas e bases políticas próximas ao senador; Alexandre está no grupo com o qual Iratã e aliados de Irajá estreitaram relações; e Gaguim avançou sobre uma parcela das lideranças que ficaram sem o senador do PSD como candidato. Nesse cenário, a avaliação atribuída a Kátia ganha peso: ao apontar a interlocutores a força de Gomes e Alexandre para as duas vagas, a ex-senadora identifica justamente os dois campos com os quais o grupo de Irajá preserva pontes, ainda que isso não represente apoio formal do senador a nenhum dos dois