A sociedade que teme vacina, mas idolatra canetas emagrecedoras
14 maio 2026 às 10h48

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Por Mylenna Scheidegger
O assunto que quero abordar no artigo de hoje envolve Mounjaro, estética, anti-vacina e posicionamento político. Mas você deve se perguntar o que tudo isso tem a ver? Pior, tem tudo. Vamos voltar um pouquinho no tempo, lá em 2020. Pandemia de Covid-19. Tudo fechado, milhões de pessoas morrendo, corpos sendo enterrados sem um pingo de dignidade e famílias que não puderam se despedir de seus entes queridos.
A esperança parecia ter sumido, quando anunciaram a primeira vacina contra a doença, mas muita gente afirmava em alto e bom tom que não tomaria a dose porque não sabia o que tinha dentro. Desconfiavam da ciência, dos laboratórios, dos médicos, dos enfermeiros, da OMS, da Anvisa e até dos pesquisadores que passaram a vida estudando a imunização. Bastava surgir um vídeo de WhatsApp ou um corte de internet com alguma teoria maluca da conspiração, que claramente era Fake News, para transformar as vacinas em inimigas do povo.
O mais curioso de tudo é que alguns anos depois o mundo conheceria o Mounjaro. As famosas canetas emagrecedoras virou objeto de desejo para todos os públicos e acabou se tornando o maior retrato da contradição moderna. O medicamento, criado originalmente para diabetes tipo 2, se tornou o remédio mais vendido do mundo em 2026, superando até o Keytruda, um dos principais medicamentos contra o câncer. Apenas no primeiro trimestre deste ano, o fármaco arrecadou US$ 8,7 bilhões para a indústria farmacêutica Eli Lilly.
É um número que impressiona e que também revela muito mais do que apenas o crescimento da indústria farmacêutica. Revela a real prioridades das pessoas. Porque enquanto as vacinas enfrentam resistência, mesmo sendo responsáveis por erradicar doenças, reduzir mortalidade infantil e impedir epidemias, medicamentos voltados ao emagrecimento são tratados quase como itens de luxo indispensáveis. E não importa o preço, os riscos ou sequer a procedência. O mercado clandestino cresce justamente porque há gente disposta a fazer qualquer coisa para emagrecer rápido.
A ciência virou seletiva. Quando ela promete salvar vidas coletivamente, aparece a desconfiança. Quando promete afinar cintura, vira febre.
Existe algo profundamente simbólico no fato de um remédio para emagrecimento ultrapassar um medicamento oncológico em vendas mundiais. Não porque tratar obesidade não seja importante. Obesidade é uma doença séria e merece atenção médica. O problema está no comportamento social em torno disso. O uso desenfreado, a glamourização e a obsessão estética mostram que muita gente não está preocupada exatamente com a saúde. Está preocupada com a aparência.
E a aparência vende.
Talvez por isso tanta gente tenha aceitado aplicar substâncias no próprio corpo sem sequer compreender os efeitos, enquanto questionava vacinas testadas durante anos. O negacionismo científico nunca foi exatamente contra a ciência. Ele apenas escolhe quais verdades aceita com base na conveniência pessoal.
A mesma pessoa que compartilha teorias antivacina pode estar comprando canetas “milagrosas” pela internet, sem receita, sem acompanhamento médico e sem saber se o produto é verdadeiro ou falsificado. A própria Anvisa já precisou agir contra lotes adulterados e venda irregular desses medicamentos no Brasil.
Há ainda outro detalhe cruel nessa discussão: a vacina é um pacto coletivo. Você se vacina não apenas por você, mas para proteger crianças, idosos, imunossuprimidos e toda a sociedade. Já o consumo desenfreado de medicamentos para emagrecimento responde a uma lógica individualista, estética e imediatista.
Talvez seja por isso que as vacinas incomodam tanto uma sociedade cada vez mais centrada no “eu”. O corpo magro virou símbolo de sucesso, disciplina e aceitação social. Já o compromisso coletivo perdeu espaço para a cultura da satisfação instantânea. A saúde pública deixou de ser prioridade e abriu espaço para a estética.
Faltou dizer que nunca houve tanta gente desconfiando da ciência para salvar vidas e ao mesmo tempo tão disposta a acreditar nela para perder peso.
