Até onde chega a cegueira humana em prol da ideologia política? Vamos deixar de lado aqui qualquer viés partidário e raciocinar sobre como o risco microbiológico pode ser nocivo à saúde humana. Isso acontece quando há presença de bactérias, fungos, bolores ou leveduras em níveis que comprometem a segurança, a qualidade ou a saúde. O problema pode levar à diarreia, vômitos e febre, além de recalls de produtos por órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O órgão esteve no cerne de uma polêmica em que a sua atuação foi atrelada a questões políticas, após lotes de produtos da Ypê serem suspensos. Foram recolhidos lava-louças, sabões líquidos para lavar roupas e desinfetantes fabricados pela empresa em uma unidade localizada no interior de São Paulo.

A inconsequência de se atrelar uma questão de saúde sanitária a questões políticas veio após ser revelado que a empresa foi doadora de recursos para a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Foi o estopim para que viessem à tona diversas manifestações em prol da empresa. Até aí, tudo bem. Um direito garantido pela Constituição.

O problema veio da forma como esses apoios foram feitos. Houve vários apoiadores que banharam e até ingeriram detergente. Sim, leitores. Pasmem. Ingeriram um produto de limpeza para defender pautas políticas que não fazem sentido neste momento. Sinto informar, mas ingerir produto de limpeza não é sinônimo de lealdade, nem mesmo de fidelidade patriótica. Soa mais como imbecilidade. Tal atitude não foi feita nem pelos próprios donos da empresa. O nível da ignorância do ser humano, às vezes, assusta. A marca mostrou que pode levar muito mais que louças ou roupas no Brasil.

Apesar de defenderem uma “perseguição política” contra a empresa, a própria Ypê se pronunciou alegando que “colabora integralmente, conduzindo todas as ações necessárias com máxima prioridade, responsabilidade e transparência”.

“A Ypê se compromete a incorporar imediatamente eventuais aprimoramentos e recomendações regulatórias da agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória, desenvolvido em conjunto com a Anvisa desde dezembro de 2025”, pontuou a empresa em comunicado.

A Ypê entrou com recurso judicial para revogar a decisão do órgão. A Anvisa erra, por sua vez, ao decidir suspender a apreensão dos lotes após o recurso, pois contribui para alimentar interpretações conflitantes sobre o caso.

Essa situação reflete como o ser humano tem se mostrado apodrecido por dentro. Muitas vezes, acredito que sem qualquer tipo de cura. Também tenho a convicção de que os episódios esdrúxulos são minimamente calculados e não fazem parte dos lotes alvos da Anvisa. O baixo nível de intelectualidade pode existir, mas essas pessoas visam mais um “lacre” digital do que realmente dar a vida por uma empresa. Onde iremos parar?