Brasil, o império onde o sol nunca se põe. Como futebol virou poder nas mãos, ou melhor, pés tupiniquins?
03 julho 2026 às 17h08

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Por Tiago Vechi
Com a bola no pé, o futebol brasileiro fez a orgulhosa Itália chamar um cria da Vila Cruzeiro de Imperador; foi capaz de fazer o Estados Unidos que mantinha as leis racistas Jim Crow chamar um homem preto de rei enquanto empilhava taças encima das potências europeias.
O que foi construído a partir do futebol brasileiro transborda ao orgulho nacional, quando a amarelinha entra em campo, povos esquecidos e costumeiramente sem representação no cenário internacional lotam as ruas para assistir. Libaneses, bengalis, indianos, jamaicanos, bolivianos, indonésios, entre tantos outros povos, torcem para o seleção brasileira. Pode parecer simplório, assistir a um jogo, mas isso é poder, é cultura e nos põe, como brasileiros, no centro do mundo.
Mas essa relação entre Brasil e futebol também não nasceu por acaso. Ela foi construída e, em grande medida, foi construída politicamente durante um regime autoritário.
A partir da década de 1930, o governo de Getúlio Vargas percebeu que poucos elementos tinham tanto potencial de unir uma população marcada por profundas diferenças regionais quanto o futebol. Em um país recém-saído da Revolução de 1930, o esporte passou a ser tratado como símbolo da unidade nacional. A ideia do “país do futebol” não surgiu espontaneamente das arquibancadas; ela foi incentivada pelo Estado, difundida pelos meios de comunicação e incorporada ao imaginário brasileiro.
Não se tratava apenas de incentivar um esporte. Era um projeto de identidade nacional. Enquanto o governo centralizava o poder político, também buscava consolidar símbolos capazes de representar todo o país. A Seleção passou a encarnar um Brasil miscigenado, alegre e unido (que só existia dentro de campo), uma narrativa que ultrapassou as fronteiras nacionais e acabou sendo exportada para o mundo.
Décadas depois, essa construção encontrou um aliado inesperado: a televisão. Quando as transmissões das Copas do Mundo passaram a chegar em massa a países da Ásia, da África e do Caribe, o Brasil vivia justamente sua era de ouro. Pelé, Garrincha, Jairzinho, Tostão, seguidos por Zico, Sócrates, Falcão, Ronaldo, Ronaldinho e tantos outros tornaram-se os primeiros ídolos internacionais de milhões de crianças que jamais haviam pisado em solo brasileiro.
Em Bangladesh, historiadores apontam que a paixão pela Seleção começou nos anos 1980 com a popularização das transmissões da Copa do Mundo. Hoje, estima-se que cerca de 100 milhões de habitantes torçam pelo Brasil, enquanto outra parcela significativa adotou a Argentina pela influência de Maradona e por conta dos atritos com os britânicos. Durante os Mundiais, cidades inteiras são tomadas por bandeiras brasileiras, carreatas e telões que transformam os jogos da Seleção em verdadeiras celebrações nacionais.
Na Indonésia, a história é semelhante. O futebol brasileiro conquistou gerações inteiras de torcedores graças às transmissões televisivas e aos craques que marcaram época. No Líbano, a forte ligação histórica entre os dois países e a expressiva comunidade de descendentes brasileiros ajudam a explicar por que a camisa amarela também colore as ruas durante as Copas.
Esse fenômeno vai muito além desses países. No Haiti, vitórias do Brasil costumam ser comemoradas como se fossem conquistas da própria seleção haitiana. Na Jamaica, a influência brasileira foi fortalecida pela passagem de treinadores e jogadores do país, especialmente após a classificação jamaicana para a Copa de 1998 sob o comando de René Simões. No Paquistão, bairros inteiros interrompem a rotina para acompanhar os jogos da Seleção, enquanto na Bolívia é comum que torcedores adotem o Brasil como sua equipe durante os Mundiais. Em partes da Índia, do Nepal, crianças crescem usando camisas amarelas antes mesmo de conhecerem qualquer clube brasileiro.
Por isso, a influência política na gênese dessa identidade não diminui a grandeza do futebol brasileiro. Apenas mostra que paixões coletivas também são resultado da história, da comunicação e das decisões políticas. Não existe identidade nacional que não tenha sido construída. A diferença é que algumas foram erguidas por guerras, outras por revoluções, e a brasileira encontrou no futebol sua linguagem mais poderosa, ainda que páginas da nossa história também sejam manchadas de sangue.
No fim das contas, o que a política mais precisa é de símbolos e poucos símbolos foram tão eficientes quanto nossa camisa amarela, uma bola nos pés e a sensação, compartilhada por milhões de brasileiros e estrangeiros, de que por noventa minutos existia um país é capaz de encantar o mundo inteiro.
