Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgado em dezembro do ano passado revelou que de cada dez pessoas que recebiam o Bolsa Família em 2014, seis conseguiram deixar o programa assistencial do governo federal nos dez anos seguintes.

Ainda segundo o estudo, enquanto a taxa média de saída dos beneficiários foi de 60,68%, entre os jovens de 15 a 17 anos de idade a proporção chega a 71,25%. Ou seja: de cada dez, sete deixaram de precisar da transferência de renda nos dez anos que se seguiram.

Para o professor de Economia da FGV, Valdemar Rodrigues de Pinho Neto, autor do estudo, “saber que os filhos do Bolsa Família não necessariamente estarão presentes no programa no futuro, de certa forma, diz um pouco também a respeito da própria sustentabilidade do programa.”

O estudo desmonta, com números, uma das mentiras favoritas da elite e da classe média brasileira: a fantasia de que pobre “se acostuma” com auxílio social e transforma sua miséria em projeto de vida. No entanto, quem romantiza dependência é justamente quem nunca precisou depender de nada.

Em tempo: mais de 80% dos titulares do Bolsa Família são mulheres pretas ou pardas e mães de família, segundo dados do CadÚnico. Mulheres que sustentam casa sozinhas e precisam fazer malabarismo entre subemprego, informalidade, fila de creche e aluguel atrasado.

E os dados mostram que quando essas mulheres conseguem entrar no mercado de trabalho e ter uma renda minimamente estável, elas deixam o programa. Era pra ser óbvio, mas não é: ninguém sonha em sobreviver com auxílio, e essa ideia só parece plausível pra quem nunca viveu a humilhação social da real pobreza.

Mas o apresentador global Luciano Huck, claro, sempre ignorou tudo isso e mostra que nem tudo evolui com o tempo. resolveu. Em um evento com empresários, Huck – que, lembre-se, já quis ser presidente da República – disse que pessoas que recebem o Bolsa Família “na verdade, queriam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa ad aeternum”. É o tipo de afirmação que arranca concordância automática de rico que acha que empregada doméstica vive “encostada” porque faltou numa segunda-feira. Ou não é?

Mas veja: vindo de Huck, faz todo sentido. O marido de Angélica jamais teve qualquer contato orgânico com a realidade que comenta. Filho do renomado jurista Hermes Huck, criado dentro da elite paulistana e dono de um salário estimado em R$ 4 milhões (número vazado após a repercussão de sua fala), ele olha para a pobreza como quem olha um cenário de televisão, distante, mas lucrativo.

Aliás, destaca-se que a carreira dele foi construída assim. Huck virou celebridade explorando desigualdade social como entretenimento em seu “caldeirão”. Durante anos a fio, transformou desespero em quadro de auditório ao pegar pessoas humildes, emocionalmente fragilizadas e financeiramente destruídas para as colocar se equilibrando em cima de monociclos, por exemplo, em troca da possibilidade de reformar a casa.

Por isso faz tanto sentido a opinião de Huck… no contexto dele. A miséria brasileira, para o apresentador, sempre foi mais uma excelente ferramenta de audiência.

Luciano Huck gosta da estética da pobreza, gosta da Dona Maria chorando no palco com a trilha emocionante ao fundo, enquanto ele a abraça. Ele não quer compreender e não quer mostrar o pano de fundo que leva ao fundo do poço no qual se encontrava Dona Maria. Talvez até compreenda, mas levar isso para a TV não dá lucro (as bets que ele divulga, sim).

O que o filho do Dr. Hermes não gosta é da pergunta que vem antes, do por que existe tanta gente desesperada a ponto de aceitar se humilhar na televisão por dinheiro. Luciano Huck é nada mais, nada menos do que o produto acabado dessa elite que pode até se emocionar com o sofrimento, mas odeia as políticas públicas que podem tirar aquelas pessoas dessa condição.