Um clique no celular, uma notificação de aposta esportiva, uma propaganda entre um vídeo e outro. O acesso às plataformas de apostas online nunca foi tão simples e é justamente essa facilidade que preocupa profissionais da saúde mental e, agora, também o poder público. Nesta sexta-feira, 25, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou uma medida provisória para proibir o funcionamento das chamadas “bets” no Brasil, medida que chega em meio a um debate crescente sobre os efeitos das apostas na saúde emocional e financeira das famílias brasileiras.

Em Palmas, a psicóloga Eudimara Moreira, fundadora do Instituto Eudimara Moreira, tem observado de perto esses efeitos em seus atendimentos clínicos. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno, a ludopatia é marcada pela perda progressiva de controle sobre o comportamento de apostar. Segundo a psicóloga, o padrão costuma seguir um roteiro parecido: começa como diversão e, aos poucos, ocupa um espaço cada vez maior na rotina, mesmo quando os prejuízos já são visíveis.

“A principal característica é a perda de controle sobre o comportamento de apostar, a prioridade que o jogo começa a ocupar na vida da pessoa e a continuidade das apostas mesmo diante das consequências negativas. É comum que a pessoa comece apostando por diversão, curiosidade ou pela expectativa de ganhar dinheiro de modo rápido e fácil. Em algumas situações, porém, a aposta passa a funcionar como uma busca por recompensa, excitação ou até como uma forma de aliviar emoções desagradáveis, como ansiedade, estresse, frustração ou tristeza”, explica Eudimara Moreira.

Eudimara Moreira | Foto: Arquivo Pessoal

Para a especialista, o problema não está apenas na existência das apostas, mas na forma como elas se tornaram parte da rotina de milhões de pessoas. Presente no celular, associada ao futebol, ao entretenimento e a campanhas publicitárias constantes, a aposta perdeu, aos poucos, a percepção de risco que deveria acompanhá-la.

“Hoje, a aposta está muito mais acessível. Está no celular, disponível praticamente o tempo todo, associada muitas vezes ao esporte, ao entretenimento e à publicidade. Isso reduz a percepção de risco e pode fazer com que uma atividade que envolve dinheiro e possibilidade de perda seja percebida apenas como diversão. Do ponto de vista da saúde mental, precisamos ter atenção justamente à normalização desse comportamento. Quando a pessoa é constantemente exposta à ideia de que apostar é algo comum, fácil e potencialmente lucrativo, pode ficar mais difícil reconhecer os limites entre lazer e comportamento problemático”, afirma a psicóloga.

A própria regulamentação já começa a refletir essa preocupação. Em 2026, novas regras passaram a obrigar publicidades de apostas a incluírem advertências como “Apostar pode causar dependência” e “Aposta não é investimento”, medida que, segundo Eudimara, ainda precisa vir acompanhada de um trabalho mais amplo de conscientização, especialmente entre adolescentes e jovens. É justamente nesse ponto que o debate clínico e o debate político se encontram: enquanto a psicóloga observa os efeitos individuais da normalização das apostas, o governo federal move-se agora para endurecer as regras do setor em nível nacional.

O caminho até o consultório

No consultório, a ludopatia costuma ser um achado, não um pedido de ajuda. Segundo a psicóloga, a maioria dos pacientes procura atendimento por outras razões e é ao longo do processo terapêutico que a relação problemática com as apostas vem à tona.

“Muitas vezes, a pessoa procura atendimento por problemas financeiros, conflitos familiares, dificuldades no relacionamento ou tentativa de auto-extermínio, e durante o processo terapêutico aparece a relação problemática com as apostas e os motivos causadores, que na maioria das vezes está ligado a ansiedade, baixa autoestima, depressão e problemas familiares. Um ponto que chama atenção é que, frequentemente, a pessoa demora para reconhecer que existe um problema. Ela pode acreditar que está apenas tentando recuperar o dinheiro perdido ou que conseguirá parar depois da próxima aposta”, relata Eudimara Moreira.

Há ainda um padrão que se repete com frequência nos atendimentos: quem bate à porta do consultório, na maioria das vezes, não é quem aposta.

“Sempre quem busca por ajuda é o familiar, dificilmente é o apostador, pois ele tem a falsa sensação de que a situação está sob controle.”

O que a ludopatia rouba das relações

Os efeitos do transtorno vão muito além do saldo bancário. Ansiedade, culpa, vergonha, isolamento e sintomas depressivos aparecem com frequência nos relatos atendidos pela psicóloga, assim como um desgaste silencioso nas relações mais próximas.

“A pessoa pode começar a esconder quanto está apostando, mentir sobre perdas, utilizar dinheiro destinado à família, pedir empréstimos ou se afastar das pessoas próximas. Isso gera quebra de confiança, conflitos familiares e às vezes até infrações penais. E existe um ciclo emocional muito delicado: a pessoa perde dinheiro, sente culpa e ansiedade, e pode apostar novamente justamente na tentativa de recuperar aquilo que perdeu. Só que novas perdas podem aumentar ainda mais a angústia”, descreve a especialista.

Não se trata, portanto, de uma questão puramente financeira — mas de um comportamento capaz de atravessar múltiplas dimensões da vida de quem vive esse ciclo. E é exatamente esse retrato clínico que passou a embasar, nos últimos meses, o discurso de parlamentares e do próprio governo federal para justificar medidas mais duras contra o setor.

Sinais que merecem atenção

Para Eudimara, quanto mais cedo o padrão problemático é identificado, maiores são as chances de reverter o quadro. Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Vontade de diminuir ou parar de apostar sem conseguir;
  • Aumento progressivo da frequência ou do valor das apostas;
  • Tentativas de recuperar perdas apostando novamente;
  • Mentiras ou ocultação sobre o quanto se aposta;
  • Empréstimos para continuar apostando;
  • Comprometimento de despesas pessoais ou familiares;
  • Abandono de atividades importantes em razão do jogo;
  • Irritabilidade ou ansiedade diante de perdas ou impedimentos para jogar;
  • Prejuízos no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos.

“A pessoa não precisa esperar perder tudo para procurar ajuda. Quanto mais cedo o comportamento problemático for reconhecido, maiores são as possibilidades de intervenção e de redução dos danos”, reforça a psicóloga.

Para ela, o limite entre o lazer e o transtorno não está no valor perdido, mas na perda da capacidade de escolha.

“O problema não começa necessariamente quando a pessoa perde muito dinheiro. Ele começa quando a aposta deixa de ser uma escolha e passa a controlar a vida da pessoa.”

Debate na esfera política

O relato clínico de Eudimara Moreira ganha, agora, um desdobramento direto na esfera política. Nesta sexta-feira , 25,o presidente Lula assinou em São Paulo uma medida provisória para restringir o funcionamento das casas de apostas online no país, em evento que também vai incluir medidas contra o endividamento das famílias. A MP proíbe tanto os cassinos on-line, como o chamado jogo do “tigrinho”, quanto as apostas de quota fixa, feitas sobre eventos esportivos reais; o governo chegou a avaliar restringir apenas os cassinos, mas optou por ampliar a medida a todo o setor. O texto terá validade inicial de 60 dias, prorrogável por mais 60, e será encaminhado para análise do Congresso Nacional.

Foto: Rafael Nascimento/MS

Em discurso público na quinta-feira, 24, véspera da assinatura, Lula reafirmou a decisão: “Eu vou acabar com as bets antes de elas acabarem com o Brasil e levar as pessoas à doença.” Uma pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada em 23 de setembro mostrou que 75% da população brasileira defende a proibição das bets, número que já era de 73% em abril, indicando avanço do apoio popular à medida. Paralelamente à MP, o governo prepara projetos de lei para endurecer penas e criar novas tipificações de crimes para quem promover jogos ilegais, que devem ser enviados ao Congresso nos próximos dias.

No estado, o tema também mobiliza a bancada federal. O deputado federal Ricardo Ayres (Republicanos-TO) anunciou que o Governo Federal editaria a MP para endurecer as regras das apostas online, classificando a iniciativa como um avanço em uma luta que já trava no Congresso desde 2023, quando começou a apresentar propostas para restringir a publicidade do setor e proteger os consumidores.

“As bets se transformaram em um grave problema social. São famílias comprometendo renda, acumulando dívidas e, muitas vezes, deixando de pagar despesas essenciais por causa das apostas. Tenho defendido desde o início que o Estado brasileiro não pode assistir passivamente enquanto milhões de pessoas são expostas diariamente a um sistema que estimula apostas de maneira permanente. Se a Medida Provisória chegar ao Congresso, vamos trabalhar para que ela avance e para que tenhamos instrumentos efetivos de proteção às famílias”, destacou Ricardo Ayres.

Entre as iniciativas do parlamentar está o PL 2478/2026, do qual é um dos autores, que propõe a proibição de publicidade e patrocínio das bets em rádio, televisão, redes sociais, plataformas de streaming e eventos esportivos, além de vedar o uso de influenciadores e atletas na promoção de apostas — medidas que dialogam diretamente com o diagnóstico de Eudimara Moreira sobre a normalização das apostas via publicidade constante.

O que dizem os números nacionais

Os dados oficiais reforçam a magnitude do fenômeno descrito pela psicóloga. Em agosto de 2024, o Banco Central publicou o Estudo Especial nº 119, que dimensionou pela primeira vez o mercado de apostas online no país, revelando que entre R$ 18 e R$ 21 bilhões por mês foram transferidos via Pix para 56 empresas de bets ao longo de 2024. Estimativas mais recentes da autoridade monetária indicam que esse volume já alcançava entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões mensais em 2025.

Segundo o Banco Central, o comprometimento da renda das famílias brasileiras atingiu 49,9% em fevereiro de 2026 — o maior nível da série histórica iniciada em 2005 —, enquanto o país alcançou a marca de 73 milhões de inadimplentes. Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), com base na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), mostrou que os gastos das famílias com apostas cresceram 500% em três anos, ultrapassando R$ 30 bilhões mensais em março de 2026.

Vale o contraponto: nem todos os especialistas concordam que as bets sejam a causa estrutural do endividamento nacional. Uma análise do BNLData, que cruza dados da CNC, do Banco Central e da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, questiona essa narrativa e defende que os números, isoladamente, não sustentam essa conclusão — um lembrete de que o debate, tanto no consultório quanto no Congresso, ainda está longe de ser consenso.