Nesta semana a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) entregou oito mini colheitadeiras do Programa Arroz da Gente a quilombolas, assentados da reforma agrária e agricultores familiares de Goiás e Tocantins durante a 1ª Festa da Colheita do Arroz Kalunga, realizada em Cavalcante (GO). As máquinas, voltadas à colheita de arroz, feijão, sorgo, milheto e gergelim, visam atingir 667 famílias, em sua maioria quilombolas, distribuídas em cinco territórios dos dois estados, entre eles o Território Kalunga, um dos maiores quilombos do país, área em que se encontra em disputa.  O local está em processo de regularização fundiária e integra o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), com previsão de conclusão ao longo de 2026. 

A área onde a comunidade Kalunga Ouro Fino está localizada integra um litígio territorial entre Tocantins e Goiás em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF), envolvendo cerca de 12,9 mil hectares. A Corte determinou a elaboração de um estudo técnico conjunto entre os dois estados, com prazo até 6 de junho. Até a definição dos limites, a região permanece sem segurança jurídica consolidada. 

Conforme a Conab, cerca de 250 pessoas das comunidades atendidas participaram da 1ª Festa da Colheita, que reuniu representantes do órgão, dos ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), além de lideranças locais, gestores municipais e representantes de movimentos sociais.

Do total de equipamentos entregues, cinco permanecerão em Goiás e três serão destinados ao Tocantins, com cessão de uso compartilhado entre os beneficiários. 

No Tocantins, 253 famílias serão contempladas em 20 comunidades e oito municípios (Almas, Araguatins, Arraias, Buriti do Tocantins, Dianópolis, Esperantina, Paranã e Porto Alegre do Tocantins), nos territórios Quilombola e Bico do Papagaio.

Em Goiás, serão 414 famílias, distribuídas em 21 comunidades e sete municípios (Catalão, Cavalcante, Ceres de Goiás, Ipiranga de Goiás, Monte Alegre de Goiás, Teresina de Goiás e Vianópolis), nos territórios Chapada dos Veadeiros, Estrada de Ferro e Vale do São Patrício.

Por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), no evento foi anunciado a compra de parte do arroz produzido por famílias quilombolas, com investimento de R$ 200 mil do MDS. A produção será destinada a cozinhas solidárias, contribuindo para o enfrentamento da insegurança alimentar. Na mesma agenda, foi apresentado o Armazém Kalunga, iniciativa voltada a ampliar a comercialização da produção local e a gerar novas oportunidades de renda para as famílias produtoras.

A superintendente regional da Conab no Distrito Federal e Entorno, Regina Gonçalves, disse que a entrega representa um avanço concreto para as famílias, ao reduzir o trabalho pesado e abrir perspectivas de permanência das novas gerações no campo. “A entrega dessas máquinas representa um passo importante para as comunidades. A iniciativa facilita a colheita, especialmente do arroz, e reduz o esforço físico dos trabalhadores”, comentou.

Para Luiz Carlos do Nascimento, superintendente da Conab de Goiás, a ação amplia a capacidade operacional das comunidades. “As máquinas terão resultado direto na produção”, acrescentou. Já Marco Túlio do Nascimento (TO) enfatizou a abrangência territorial do programa. “A entrega atende a um território amplo, como o Kalunga, que envolve mais de uma unidade da federação”, disse.

O Quilombo Kalunga mantém tradição na produção de arroz, com sete variedades cultivadas atualmente, de um total de 18 já registradas ao longo das gerações. Além do cereal, as famílias produzem milho, feijão, gergelim, mandioca, abóbora, batata-doce, cana-de-açúcar e frutos do Cerrado, além da criação de gado, porcos e galinhas. O território ocupa cerca de 305 mil hectares e reúne aproximadamente 8 mil pessoas em 52 comunidades entre Goiás e Tocantins. As máquinas da Conab devem potencializar especialmente a produção de arroz.

Também participaram do evento o secretário de Territórios e Sistemas Produtivos Quilombolas e Tradicionais do MDA, Edmilton Cerqueira; a representante da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Camila Carneiro; a gerente de projeto da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Naiara Bittencourt; o presidente da Associação Quilombo Kalunga (AQK), Carlos Kalunga; e a coordenadora do Curso Técnico em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio do Instituto Federal de Campo Belo, Francielle Rego.