Do pudim de cuscuz ao sabor de Jack Daniel’s: empreendedora de Palmas transforma receitas em experiências afetivas
13 agosto 2026 às 17h02

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Desde os 8 anos de idade, Beatriz Dantas já estava familiarizada com a cozinha. Natural de Fortaleza, no Ceará, ela cresceu acompanhando a mãe, que trabalhava como cozinheira e produzia marmitas e lanches. A convivência com esse universo, somada ao interesse despertado por programas de televisão sobre culinária e empreendedorismo, ajudou a formar uma ideia que anos mais tarde se transformaria em profissão: trabalhar para si mesma.
A mudança para Palmas ocorreu aos 19 anos, quando Beatriz deixou o Ceará para começar uma nova fase da vida. Na capital tocantinense, morou inicialmente com a irmã e passou a conciliar empregos formais com encomendas de bolos, salgados e outros produtos. O pudim entrou definitivamente nessa trajetória no fim de 2020, pouco depois de seu casamento, em meio à pandemia.
A decisão de investir na especialidade começou com um curso que ela encontrou no Instagram. O valor era alto para a realidade financeira daquele momento, quando Beatriz havia acabado de se casar, morava com o marido em uma kitnet e não tinha cartão de crédito. A irmã emprestou o cartão para que o curso pudesse ser parcelado, e Beatriz vendeu dois bolos para comprar o primeiro material utilizado na produção dos pudins.
Foi a partir daí que a confeiteira transformou a receita em uma área de especialização e ao longo dos anos, buscou novas formações: “O público vai mudando. E nós, como empreendedores, a gente tem que se readaptar, sempre estudar, ficar em busca de algumas coisas. Por tanto estudar, hoje eu tenho mais de oito cursos na parte de pudim. Muitas criações são minhas, eu curso Gastronomia também e aí eu vou tendo ideias e vou fazendo.”
É justamente dessa combinação entre estudo, formação gastronômica e imaginação que surgem algumas das receitas mais inusitadas do trabalho de Beatriz. Entre elas está o pudim desenvolvido especialmente para cães, que nasceu de um curso feito com uma veterinária e professores especializados em pudim, mas o desenvolvimento não foi simples e passou por ajustes: “Não deu certo de primeira, foi bem difícil porque tem que ser tudo muito bem calculado, é o tamanho do porte do cachorro, quantas gramas ele pode consumir. Isso tudo requer muito tempo, energia e investimento. Mas eu testei com a minha própria cachorra.”

Depois dos primeiros testes, Beatriz aprimorou a receita e passou a incorporar outras criações ao catálogo. Uma das mais recentes surgiu de uma ligação pessoal com a cultura nordestina, que deu origem ao pudim de cuscuz: “Eu sou apaixonada por cuscuz. E aí eu pensei: ‘Gente, cada mês tem um tema, né?’. Então, são sabores temáticos. Junho é o mês das tradições nordestinas, e eu falei: ‘Vou trazer um pudim de cuscuz’. Só que o primeiro ficou horrível, ficou duro. A gente vai testando, porque existe toda uma pesagem, uma proporção de ingredientes, até chegar ao ponto ideal e fechar a ficha técnica final.”

Na cozinha de Beatriz, os testes fazem parte do processo de criação, o marido, inclusive, costuma assumir o papel de avaliador de receitas que ela própria não consegue provar por não fazerem parte de seu paladar. Foi assim também com outra criação autoral, o pudim mineirinho, desenvolvido como uma homenagem ao marido, que tem raízes em Minas Gerais.
A receita combina pudim de queijo, ganache de doce de leite e crocante de caramelo salgado. Embora Beatriz não seja fã de combinações agridoce, o sabor se tornou um dos produtos mais procurados. A mesma lógica de adaptação aparece no pudim de Jack Daniel’s, criado para o período do Dia dos Pais: “Eu tenho várias criações, mas muitas delas vêm só da minha imaginação e eu vou sentindo o cheiro das coisas e vou criando. Uma que eu criei e nunca comi é o pudim mineirinho, que eu fiz inclusive em homenagem ao meu marido. Ele é um pudim de queijo com uma ganache de doce de leite e um crocante de caramelo salgado.”
A inspiração para o pudim com whisky também veio de uma adaptação, Beatriz havia aprendido uma receita com outro tipo de bebida durante um curso, mas decidiu substituir o ingrediente por Jack Daniel’s por considerar que o whisky combinaria melhor com a proposta que pretendia apresentar naquele período. O lançamento de novos sabores se tornou parte da relação da confeiteira com os clientes. Segundo ela, o público passou a esperar pelas novidades e até questiona quando não há uma nova criação disponível.

A “Disney dos pudins”
A variedade de sabores e a proposta de transformar receitas tradicionais em experiências fizeram os próprios clientes criarem uma definição para o trabalho da confeiteira: a “Disney dos pudins”. Para Beatriz, a ideia representa justamente o esforço de ultrapassar a concepção de que pudim é apenas uma sobremesa.
O tradicional continua sendo o carro-chefe, mas a confeiteira procura trabalhar também com memórias afetivas e com a relação que cada pessoa estabelece com determinado sabor. Para isso, ela mantém contato direto com os clientes e busca ouvir os retornos sobre os produtos.
Um dos episódios que mais marcou essa proposta ocorreu durante uma degustação: “Eu fiz um pudim no ano passado que era de queijadinha, uma combinação de queijo com coco. Durante uma degustação em uma loja, uma moça veio até mim chorando e contou que, há muitos anos, não comia nada de queijadinha. Era uma tia dela quem fazia nas festas da família, mas essa tia faleceu e, depois disso, ninguém mais conseguiu reproduzir aquele sabor. Quando ela experimentou o pudim, disse que voltou no tempo e se lembrou daqueles momentos. E é aí que eu percebo que, além do pudim, existe algo muito maior. Comercialmente, às vezes, a gente fala que é só um pudim, mas nunca é só um pudim. Cada um carrega uma memória afetiva, uma história. E eu gosto de levar essa proposta para os meus clientes: a ideia de transformar o comum e estar aberto para viver uma experiência. Um sabor pode tocar você em determinado momento ou abrir uma caixinha de sentimentos, trazendo de volta uma memória afetiva que, às vezes, a pessoa nem lembrava que tinha.”
Da contabilidade ao próprio negócio
A trajetória profissional de Beatriz também passou por uma mudança radical, antes de se dedicar à gastronomia, ela trabalhava na área de contabilidade: “Um dos momentos mais marcantes foi realmente sair, me despedir do CLT e entender que, a partir dali, eu ia trabalhar com o emprego que eu criei para mim, que a responsabilidade era toda minha, que eu tinha que fazer acontecer, independente do que viesse.”
Outro episódio especial aconteceu durante uma participação em uma entevista na televisão, quando Beatriz preparou uma receita ao vivo. A ocasião teve um significado ainda maior porque sua mãe, que continua morando em Fortaleza, estava em Palmas naquele período. O marido, que ela define como braço direito, sócio e companheiro, também a acompanhava.
A entrevista trouxe para a vida adulta uma cena que, na infância, parecia distante: “Eu pude ensinar uma receita ao vivo, estando com a minha mãe e o meu marido lá junto comigo e saber que eu aparecia ali na TV fazendo uma das coisas que eu mais gosto, estando no lugar que eu assistia quando eu era criança. Eu sou fã da Ana Maria Braga.”
Além dos momentos ligados à carreira, os retornos dos clientes também ocupam espaço importante na trajetória. Beatriz diz que costuma receber relatos de pessoas que associam seus produtos a lembranças e situações pessoais, algo que considera uma das partes mais significativas do trabalho.
Dia-a-dia de uma especialista em pudim
A rotina atual começa antes de a confeiteira colocar as receitas no forno, no caso de Beatriz, de terça-feira a domingo, ela reserva a terça-feira, oficialmente, para descanso, embora a organização da casa também faça parte da rotina. Nesse dia, ela costuma fazer compras e repor o estoque.
A partir da quarta-feira, começam as produções e o trabalho inclui encomendas, produtos para pronta-entrega e itens destinados a pontos de revenda e parceiros. Além dos pudins, Beatriz atua como personal chef, criando cardápios, preparando marmitas e desenvolvendo opções de alimentação saudável para pessoas que buscam organizar a rotina.
A produção semanal inclui ainda os gelatos, uma criação que ela desenvolveu há cerca de quatro anos, em média, são produzidas quase 100 unidades por semana. Já os pudins somam aproximadamente 15 quilos por semana, distribuídos entre diferentes sabores, tamanhos e propostas. O cardápio inclui versões proteicas, sem lactose e zero açúcar, para esta última, Beatriz produz o próprio leite condensado utilizado na receita.

A preocupação com sabor é justamente um dos desafios das versões destinadas a públicos com restrições ou necessidades alimentares específicas: “O desafio é fazer, por exemplo, um pudim zero açúcar, que ele realmente tenha gosto de pudim, porque geralmente o que é sem açúcar, sem glúten, sem lactose é sem gosto. A minha maior dificuldade é fazer com que realmente seja gostoso para trazer para a pessoa realmente o que ela tem vontade de comer.”
A produção diversificada acompanha a tentativa de atender diferentes perfis de consumidores. A brincadeira de Beatriz é que, no seu catálogo, já existe pudim para praticamente todos os gostos.
Entre outras criações que ganharam destaque está o PudimNoff, uma sobremesa que surgiu de uma combinação inusitada de referências e acabou criando uma história própria. A receita também aproximou Beatriz de um artista que ela admira, em um episódio que começou de forma espontânea e ganhou repercussão nas redes sociais.
“Outra que foi um sucesso foi a PudimNoff, que é uma banoffee de pudim que eu criei ouvindo uma música que tem esse nome, banoffee e o autor, em outras músicas, fala de pudim. Então eu juntei tudo e criei uma banoffee de pudim em homenagem ao cantor Tiee, que com toda sua sensibilidade viu nas redes sociais. Fizemos uma campanha pra chegar até ele e deu certo. Ele super amou e agora falta levar presencialmente até o Rio de Janeiro pra ele experimentar”, conta.

Além do PudimNoff, Beatriz reúne no repertório criações que exploram diferentes sabores, ingredientes e formatos. Entre elas estão o panetone de pudim, o pudim de panetone, o pudim zero açúcar de baunilha com geleia de morango, o pudim de cachaça, o pudim de canjica, o pudim de cocada e o pudim de tapioca. Há ainda o Hamburdim, uma releitura do hambúrguer tradicional feita com bolo e pudim.

Empreender também é enfrentar obstáculos
A construção do negócio, no entanto, não ocorreu sem dificuldades, entre as citadas por ela está o custo de vida em Palmas, o investimento necessário em cursos e formações e os desafios específicos enfrentados por mulheres empreendedoras como alguns dos obstáculos de sua trajetória.
Ela também relata situações de preconceito e racismo relacionadas ao fato de ser mulher, negra e nordestina, segundo Beatriz, ainda existem situações em que sua origem é recebida de maneira diferente e em que sente a necessidade de demonstrar constantemente a qualidade de seu trabalho. Apesar disso, ela afirma que procura lidar com essas situações por meio do humor e da preparação profissional. A capacitação, segundo ela, ajuda a transformar dificuldades em motivação para continuar avançando:
“Por mais que tenham obstáculos e dificuldades, eu acho que quando a gente se prepara, quando a gente estuda, quando a gente se capacita, aproveita as oportunidades que tem na nossa cidade, a gente aprende a não se abater com as dificuldades. A gente faz das dificuldades a nossa motivação para fazer melhor e conseguir.”

Cozinhar como forma de afeto
Por trás das técnicas, dos testes, das fichas técnicas e da busca por novos sabores, existe uma definição pessoal para o trabalho que Beatriz desenvolveu, a de que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor. Um doce pode representar uma pausa em um dia difícil, um sabor pode recuperar uma lembrança, e o serviço de personal chef pode ajudar uma família a ganhar tempo na rotina.
“Cozinhar para mim é uma das maiores e melhores formas de demonstrar amor pelas pessoas, porque a gente carrega ali uma responsabilidade muito grande. Não é só uma comida, não é só para encher a barriga. Às vezes é algo emocional e eu fico muito feliz quando as pessoas conseguem sentir todo esse carinho, toda essa dedicação que eu tenho aqui dentro da minha cozinha, que eu consigo transmitir pelos pratos.”
Ao olhar para a própria trajetória, Beatriz identifica no empreendedorismo feminino uma pauta que ainda precisa ganhar espaço. Ela reconhece que a formação acadêmica e o emprego formal são caminhos importantes, mas defende que também exista espaço para quem deseja construir o próprio negócio, inclusive dentro de casa:
Acho que o empreendedorismo feminino, em qualquer um dos ramos, precisa ser um pouco mais falado e as pessoas precisam ter mais coragem para investir nos seus sonhos. A Bia, quando era criança, jamais imaginou que hoje teria uma empresa, que trabalharia para mim mesma. Eu nunca imaginei. Independente, a gente precisa ter coragem para empreender, para trabalhar com o que a gente gosta, mesmo que a nossa empresa seja dentro de casa. A gente não deve se envergonhar disso ou diminuir isso, diminuir os sonhos, diminuir as nossas conquistas. É ter mais coragem para viver a vida que a gente tem vontade de ter, o que a gente sonha ter.

