A morte de um homem de 54 anos após uma descarga elétrica provocada por um poraquê, durante a limpeza de um açude no povoado Bacuri, em Sampaio, no norte do Tocantins, nesta quarta-feira, 16, chama atenção para a capacidade de defesa de uma espécie encontrada em ambientes de água doce da região. O animal, conhecido popularmente como peixe-elétrico, possui estruturas especializadas que permitem a produção de eletricidade.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Tocantins (SSP-TO), Manoel Rodrigues dos Santos foi socorrido após o acidente e encaminhado ao Hospital Municipal de Augustinópolis. A equipe médica realizou os procedimentos necessários, mas ele não resistiu.

O poraquê pertence ao gênero Electrophorus e é encontrado principalmente nas bacias Amazônica e do Orinoco, na América do Sul. De acordo com Thiago Nilton, professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), doutor em Biologia Comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), o peixe também possui respiração aérea acessória, o que permite captar oxigênio diretamente do ar.

Thiago Nilton | Foto: Arquivo Pessoa

Pesquisador da anatomia do sistema nervoso central de peixes, Nilton explica ao Jornal Opção Tocantins como ocorre a produção das descargas e quais funções elas desempenham para o animal.

“A eletricidade é produzida por órgãos formados por milhares de células especializadas chamadas eletrócitos. Quando essas células são ativadas simultaneamente pelo sistema nervoso, seus potenciais elétricos se somam, produzindo uma descarga. O poraquê utiliza descargas fracas principalmente para eletrolocalização e comunicação, enquanto as descargas fortes são empregadas para captura de presas e defesa contra predadores.”

A intensidade das descargas varia entre as espécies, segundo o pesquisador, algumas podem produzir mais de 800 volts.

Embora possa provocar efeitos físicos em outros animais, o poraquê não costuma ter seres humanos como alvo: “Não considero adequado caracterizar o poraquê como um peixe que normalmente ‘ataca’ seres humanos. Os acidentes geralmente decorrem de encontros acidentais ou de uma resposta defensiva do animal.”

A descarga pode provocar diferentes reações no corpo humano e, em determinadas circunstâncias, representar um risco maior para quem está dentro da água: “Uma descarga de poraquê pode provocar dor intensa, contrações musculares involuntárias, perda momentânea do controle motor, quedas e desorientação. Em ambiente aquático, um dos maiores perigos é a pessoa ficar temporariamente incapacitada e se afogar. Considero esse caso uma fatalidade”, explica o professor.

Os poraquês costumam ser mais ativos durante a noite e podem permanecer próximos a estruturas como raízes e troncos nas margens dos rios. A presença nesses locais pode dificultar a identificação do animal por pessoas que entram ou trabalham na água.