Gasolina com 32% de etanol deve ser aprovada nesta quarta-feira, 8, e pode alterar a rotina de manutenção dos veículos
08 julho 2026 às 08h23

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A possível elevação da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, que deve ser anunciada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) nesta quarta-feira, 8, tem mobilizado representantes da indústria automotiva e especialistas em engenharia. Embora o governo defenda a medida como uma forma de reduzir os efeitos das oscilações do mercado internacional de petróleo, o setor pede cautela antes da implementação.
A principal preocupação está relacionada à adaptação dos veículos à nova composição do combustível. Segundo técnicos da área, automóveis mais antigos e modelos importados desenvolvidos para operar com percentuais menores de etanol podem ser os mais afetados pela mudança. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirma que não se opõe ao uso de biocombustíveis, mas considera indispensável a realização de testes complementares, ainda sustenta que qualquer alteração na formulação da gasolina deve ser acompanhada por avaliações técnicas capazes de verificar a resistência dos motores e dos sistemas eletrônicos.
A posição é compartilhada pelo Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), para as entidades, os ensaios servem como garantia de que não haverá prejuízos ao consumidor após a adoção do novo percentual.
Entre os pontos observados pelos especialistas está a capacidade do etanol anidro de absorver umidade, pois mesmo passando por um processo de retirada de água durante sua produção, o combustível pode captar umidade do ambiente, favorecendo processos corrosivos em componentes que não foram projetados para essa condição.
Peças como tanques, bombas de combustível, linhas de alimentação, bicos injetores, pistões, câmaras de combustão, vedações e sensores estão entre os itens que precisam ser avaliados para verificar a compatibilidade com a nova concentração de etanol.
De acordo com Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), os problemas mais relevantes tendem a ocorrer no sistema de alimentação. O desgaste ou a corrosão de componentes pode provocar falhas de funcionamento, aumento do consumo, crescimento das emissões e até danos permanentes em bombas e injetores.
Os reflexos da mudança também podem ser percebidos no rendimento do veículo, como o etanol possui menor capacidade energética em comparação com a gasolina, a tendência é que haja aumento no consumo de combustível. No entanto, segundo os especialistas, a intensidade dessa variação depende de fatores como modelo do veículo, condições de uso e calibração do motor.
No segmento de manutenção automotiva, oficinas já apontam possíveis efeitos sobre peças de borracha e mangueiras, que podem apresentar ressecamento e vazamentos com maior facilidade. Componentes metálicos e plásticos presentes no sistema de combustível também podem sofrer desgaste acelerado.
Segundo o empresário Fábio Rhoden, da Flacht Motorsport & Classic Center, alguns dos primeiros sinais podem surgir durante a partida do motor, especialmente em veículos mais antigos. Dificuldade para ligar o carro, funcionamento irregular em marcha lenta, perda de desempenho e falhas nas acelerações estão entre os sintomas que podem aparecer. O risco é considerado maior em automóveis fabricados há cerca de 20 ou 30 anos, equipados com carburadores ou sistemas eletrônicos menos sofisticados. Nesses casos, o motor não consegue ajustar automaticamente a proporção de combustível necessária para compensar o aumento do teor de etanol.
Nos veículos mais modernos, essa correção é realizada pela Unidade de Controle Eletrônico (ECU), responsável por processar informações fornecidas por diversos sensores e ajustar continuamente parâmetros de funcionamento do motor. Ainda assim, especialistas alertam que determinados modelos importados movidos apenas a gasolina podem atingir o limite de compensação previsto pelos fabricantes.
Outro efeito apontado por profissionais do setor é a possibilidade de antecipação na troca de itens de manutenção. O etanol pode desprender resíduos acumulados no tanque, favorecendo o entupimento do filtro de combustível. Além disso, alterações na combustão podem aumentar a exigência sobre o sistema de ignição, reduzindo a vida útil das velas em motores não preparados para a nova mistura.
Para Igor Calvet, presidente da Anfavea, a discussão não envolve a adoção dos biocombustíveis em si, mas a necessidade de cumprir procedimentos técnicos antes da entrada em vigor da medida. Segundo ele, as normas e critérios estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) exigem avaliações capazes de comprovar a segurança e a durabilidade dos sistemas mecânicos diante da nova composição do combustível.
A expectativa é que a decisão seja formalizada pelo CNPE nesta quarta-feira, 8, encerrando um debate que vem sendo conduzido dentro do governo federal nos últimos meses.
