O avanço de 56,4% nos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro em 2025 acendeu um alerta sobre a situação financeira enfrentada por produtores rurais em diferentes regiões do país. No Tocantins, estado que viveu forte expansão agrícola nos últimos anos, especialmente na produção de soja e milho, o cenário combina aumento do custo do crédito, queda nos preços das commodities, endividamento elevado e dificuldades climáticas.

Os impactos já ultrapassam as propriedades rurais e atingem empresas de máquinas, fornecedores de insumos, cooperativas e toda a cadeia econômica ligada ao setor. Ao mesmo tempo, novas regras do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) buscam trazer mais transparência e segurança jurídica aos processos de recuperação judicial envolvendo produtores rurais.

Em entrevista, a administradora judicial e advogada especialista em reestruturação empresarial, idealizadora do GIIR Agro — evento voltado à gestão inteligente, inovação e recursos no agronegócio — analisa os fatores que impulsionaram a crise, os reflexos sobre a próxima safra e os desafios para garantir sustentabilidade financeira ao agro tocantinense.

O que explica o aumento de 56,4% nos pedidos de recuperação judicial no agronegócio em 2025?

No Tocantins, esse aumento está diretamente relacionado à combinação entre endividamento elevado, aumento expressivo do custo do crédito rural, oscilações nos preços das commodities e dificuldades climáticas enfrentadas em algumas regiões produtoras. Muitos produtores ampliaram suas operações nos últimos anos, especialmente nas cadeias da soja e do milho, impulsionados pelo crescimento do agronegócio no estado. Contudo, a mudança no cenário econômico reduziu a rentabilidade e comprometeu a capacidade de pagamento de financiamentos e contratos firmados em um período de mercado mais favorável.

Como a alta dos juros e a queda das commodities têm afetado os produtores rurais?

O produtor rural tocantinense depende fortemente de crédito para custeio da safra, aquisição de insumos e expansão da produção. Com juros mais elevados, o custo financeiro aumentou significativamente, dificultando renegociações e acesso a novos financiamentos. Ao mesmo tempo, a queda nos preços internacionais da soja e de outras commodities reduziu a margem de lucro dos produtores. Isso gera um desequilíbrio financeiro importante, porque o custo para produzir continua elevado enquanto a receita obtida na comercialização diminui.

Por que os produtores de soja estão entre os mais impactados pela crise?

O Tocantins possui forte expansão da produção de soja, especialmente em regiões estratégicas do estado. Trata-se de uma cultura altamente dependente de insumos dolarizados e de financiamento bancário. Muitos produtores fizeram investimentos relevantes em tecnologia, maquinário e ampliação de área produtiva nos últimos anos. Porém, a queda das commodities, somada ao aumento dos custos operacionais e financeiros, reduziu drasticamente a margem de rentabilidade. Em alguns casos, houve dificuldade até mesmo para cumprir obrigações de curto prazo.

Como a redução na margem de lucro compromete a próxima safra?

A redução da margem de lucro compromete diretamente a sustentabilidade da próxima safra porque o agronegócio exige reinvestimento contínuo. Quando o produtor encerra uma safra com baixa rentabilidade ou prejuízo, ele perde capacidade de adquirir insumos, renovar tecnologia, realizar manutenção de equipamentos e acessar novas linhas de crédito. Isso cria um efeito acumulativo: uma safra financeiramente comprometida tende a impactar negativamente a seguinte. Além disso, instituições financeiras se tornam mais cautelosas, aumentando exigências para concessão de crédito, o que dificulta ainda mais a retomada financeira do produtor.

De que forma a crise afeta setores ligados ao agronegócio, como máquinas e insumos?

A crise no agronegócio possui efeito sistêmico e atinge toda a cadeia econômica ligada ao setor. Quando o produtor reduz investimentos ou entra em inadimplência, empresas de máquinas agrícolas, fornecedores de insumos, transportadoras, cooperativas e revendas também sofrem impacto direto. Há retração nas vendas, aumento do risco de crédito e desaceleração da atividade econômica regional, especialmente em municípios fortemente dependentes do agro. Isso demonstra que a crise ultrapassa o ambiente da propriedade rural e alcança toda a estrutura econômica construída em torno da atividade agrícola.

O que muda com o Provimento 216 do CNJ para os processos de recuperação judicial?

O Conselho Nacional de Justiça, por meio do Provimento 216, trouxe maior organização e uniformidade aos processos de recuperação judicial envolvendo produtores rurais. Antes, havia grande disparidade na condução desses processos entre diferentes tribunais, o que gerava insegurança jurídica. A regulamentação fortalece o papel técnico da administração judicial, amplia exigências documentais e estabelece parâmetros mais claros para análise da situação econômico-financeira do produtor. Isso contribui para reduzir abusos, aumentar previsibilidade e melhorar a credibilidade do instituto da recuperação judicial no agronegócio.

Como a nova regulamentação busca garantir mais transparência e segurança jurídica?

A nova regulamentação exige maior detalhamento das informações financeiras, relação completa de credores, documentação contábil consistente e rastreabilidade das operações econômicas. Isso reduz riscos de fraudes, melhora a fiscalização judicial e aumenta a confiança dos envolvidos no processo. Em estados com forte expansão agrícola, como o Tocantins, a segurança jurídica é essencial para preservar crédito, investimentos e estabilidade econômica do setor.

Quais critérios passam a ser exigidos para que produtores tenham acesso à recuperação judicial?

Os produtores precisam comprovar efetivamente o exercício da atividade rural, apresentar documentação financeira organizada, demonstrar a situação de crise econômico-financeira e atender aos requisitos previstos na legislação. O objetivo é evitar pedidos sem viabilidade econômica e garantir que a recuperação judicial seja utilizada como instrumento legítimo de reorganização financeira.

Em quais casos a negociação direta com credores pode ser mais eficiente que recorrer à Justiça?

A negociação direta com credores pode ser mais eficiente em situações nas quais ainda existe capacidade de diálogo e preservação da atividade sem necessidade de judicialização. Em muitos casos, acordos extrajudiciais permitem maior flexibilidade, menos desgaste institucional e soluções mais rápidas. A recuperação judicial é um instrumento legítimo e importante, mas ela também gera custos financeiros. Por isso, sempre que houver viabilidade de construção consensual, a renegociação pode representar uma alternativa mais estratégica e menos traumática para o produtor e para os credores.

Quais medidas podem ajudar o agronegócio a enfrentar o atual cenário de endividamento?

O momento exige fortalecimento da gestão financeira, planejamento de risco, controle mais rigoroso de custos e maior profissionalização da atividade rural. Também é fundamental ampliar acesso a seguro rural, instrumentos de proteção de preços e linhas de crédito compatíveis com a realidade do setor. O agronegócio tocantinense continua sendo estratégico e promissor, mas o cenário atual demonstra a importância de combinar crescimento produtivo com sustentabilidade financeira e governança eficiente.